Arrisco-me a dizer que Miguel-Manso será lembrado, no futuro, como o poeta mais representativo das letras portuguesas contemporâneas. Não só pelo domínio da linguagem, mas também pela metalinguagem, pelos trocadilhos e paráfrases, pela ironia constante, por um ceticismo em relação ao mundo e à própria poesia. Há momentos de beleza como este:
"cada verso tem inclinado sobre si / um anjo que lhe segreda a sombra / do que não dirá"
Mas, no geral, o poeta não busca a beleza pela beleza. Parece até desconfiado da conceção clássica, de que a poesia é um canal para sentimentos finos ou meditações profundas, para melodramas ou pieguices baratas. A poesia deve ser a respiração de quem está vivo, e pode revelar-se numa simples "toalha de almoço" ou numa "jarra de porcelana".
comprar um livro de poesia é um risco. o risco de se gostar só de um poema, por exemplo. porque acabou por ser um tiro no escuro e porque foi com base na minha decisão: não tenho um livro de poesia (além de uma simpática coleção da visão, creio, com umas preciosidades da maria teresa horta, mia couto, etc e tal), vou comprar um livro de poesia! o persianas não me está a desiludir. não é a chamada poesia lugar-comum. vai-se lendo. quando apetece vou lá e leio um ou dois. a poesia depende do dia em que se lê. i think.