A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez. Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada. Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente. Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui.
valter hugo mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Além de escritor é editor, artista plástico e cantor. Nasceu em Saurimo, Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, vive em Vila do Conde. É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prémio José Saramago no ano de 2007 É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação, (Prémio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu ainda o romance O Nosso Reino (2004). Organizou as antologias: O Encantador de Palavras, poesia de Manoel de Barros; Série Poeta, em homenagem a Julio-Saúl Dias; Quem Quer Casar com a Poetisa, poesia de Adília Lopes; O Futuro em Anos Luz, por sugestão do Porto 2001; Desfocados pelo Vento, A Poesia dos Anos 80, Agora.
“Que mesquinha vontade tinham as pessoas quando escolhiam emburrar um homem, ao invés de o abrilhantar.” Só a genialidade de VHM poderia criar esta ideia: uma pequena comunidade onde coexistem a mesquinhez, a ambição e a inveja, a par da generosidade, da empatia e da esperança. É nesta vila, com as suas personagens que tão bem retratam os mecanismos das relações humanas, que vive Agilulfo, o Marquês da Malandrinha. A Casa da Malandrinha, aristocrática, cheia de tradições e carregada de passado, também é uma personagem do livro. É neste lugar que Agilulfo ( e, na conversa a que assisti entre VHM e Héctor Abad Faciolince , percebi a original escolha do nome) vive a sua vida tranquilamente, entre os retratos dos seus antepassados e os objetos que diariamente teima em contar e inventariar. Porque é nesta casa que Agilulfo se deixa existir, simplesmente, numa segurança que só a casa da Malandrinha lhe garante. Esta personagem (um imbecil, na verdade, podemos dizer) é tão improvável, tão peculiar e tão ao jeito de VHM! Tem a particularidade de “emburrecer” quando sai de casa e desce a montanha, mas, pelo contrário, quando mais sobe, mais inteligente fica. É precisamente esta ideia que VHM tão bem usa para satirizar a sociedade contemporânea. Perante a queda e o emburrecimento de Agilulfo, assistimos, de forma mesquinha, ao seu fracasso e rimos da sua perda de lucidez ou, pelo contrário, somos capazes de unir esforços para o amparar e ajudá-lo a subir a montanha em busca da razão? Ouvi várias conversas com o autor e creio que a leitura mais importante deste livro reside precisamente nesta oposição entre informação/conhecimento. Como o autor refere, o facto de vivermos rodeados de informação não significa que sejamos mais sábios. A metáfora do emburrecimento de Agilulfo é, na minha opinião, uma crítica muito inteligente a uma sociedade que tende cada vez mais a desvalorizar o pensamento crítico, com todas as implicações que daí advêm. Gosto da forma como o autor continua a atribuir às suas personagens femininas uma força e uma presença inquestionáveis. Embora neste livro nenhuma personagem feminina tenha nome próprio, cada uma, da Criada à Marquesa, passando pela Pessivista, acaba a ocupar o centro da narrativa, mais do que as personagens masculinas. Neste livro, em particular, com a improvável aliança e aproximação entre a Criada e a Marquesa, o autor reafirma a ideia de que a cumplicidade entre as mulheres é essencial, porque só essa sororidade e amparo podem fazer a vida continuar, mesmo perante as maiores adversidades. Como é habitual nos livros de VHM, este também explora com grande sensibilidade as relações humanas, a nossa fragilidade e o poder dos afetos. De uma forma irónica e, muitas vezes, cómica, o autor leva-nos a perceber como é possível encontrar sentido e coerência até naquilo que parece absurdo. No final, apesar da crítica tão presente e de uma visão tão mordaz sobre a sociedade e as suas contradições, permanece uma ideia de esperança: a de que a nossa condição humana, apesar de todas as falhas e vulnerabilidades, nos dota de uma capacidade para reconstruir, cuidar e amparar o outro.
Primeira experiência de leitura do Valter Hugo Mãe. Uma sátira alegórica com muito humor, crítica social e até filosofia. Livro importante para ler nos tempos que correm, com uma narrativa introspetiva (sem diálogos) e que me deixou com curiosidade para ler outros livros do VHM.
Absolutamente brilhante!! O Valter puxa os limites da escrita contemporânea, talvez até parecendo arcaica, e mostra o quão arrojado se consegue escrever na nossa língua! Personagens marcantes, cheio de reflexões filosóficas, realismo mágico, ironia e humor. Leitura obrigatória!
“Cada pessimista sucumbirá à sua própria utopia, mas terá deixado sobre a terra um sem-fim de contributos que, por incapacidade de se deter favoreceram a vidinha amena dos demais.”
Já li todos os livros de valter hugo mãe e O século dos imbecis não escapa àquilo que mais reconheço no seu estilo: uma ternura muito própria, uma forma quase desarmante de olhar para as pessoas, mesmo quando elas falham, se enganam ou se deixam levar pela pequenez do mundo à sua volta.
Este é um livro castiço, no melhor sentido da palavra. Tem qualquer coisa de aldeia, de exagero, de absurdo humano, mas também de afeto e de uma delicadeza muito particular. Terminei-o com um quentinho no peito, como se, apesar de tudo, o livro insistisse na possibilidade de haver pertença, cuidado e algum tipo de bondade entre as pessoas.
Uma das grandes virtudes do romance está, para mim, na forma excecional como o autor continua a criar personagens femininas fortes, inteiras e cheias de presença. Em valter hugo mãe, as mulheres raramente existem apenas em função da dor que lhes acontece ou dos homens que as rodeiam. Elas ocupam espaço, decidem, cuidam, protegem, amparam-se, confrontam-se e, sobretudo, reconhecem-se umas nas outras.
Houve momentos que me fizeram lembrar a Isaura de O filho de mil homens, outros que me devolveram ecos de o remorso de baltazar serapião, não por repetição, mas por essa capacidade de construir mulheres que carregam o centro emocional da história sem nunca parecerem apenas símbolos. Neste livro, há uma força muito bonita nessa ideia de que as mulheres não se diminuem necessariamente entre si; pelo contrário, é muitas vezes na aproximação, na cumplicidade e na atenção entre elas que o mundo se torna menos bruto.
Senti este romance como uma carta de amor a A Casa. Mas não A Casa enquanto paredes, telhado ou propriedade. A Casa, aqui, parece ser sobretudo quem a habita, quem a merece, quem a protege, quem a transforma num lugar de pertença. Uma casa é feita das pessoas que dela fazem parte, e não necessariamente das paredes que a delimitam.
Há uma frase que me parece resumir muito do núcleo do livro: “Que mesquinha vontade tinham as pessoas quando escolhiam emburrar um homem, ao invés de o abrilhantar.” Achei-a uma metáfora perfeita para o mundo contemporâneo. Vivemos muitas vezes rodeados por essa vontade pequena de diminuir o outro, de o tornar menos luminoso, de o empurrar para dentro de si em vez de o ajudar a brilhar.
Sem entrar em spoilers, gostei muito da forma como o livro trabalha a ideia de que até as boas intenções podem magoar. E que ter boas intenções não nos desculpa automaticamente; pelo contrário, aumenta a nossa responsabilidade sobre o que fazemos em nome delas. Como se lê no livro: “Querer encarar apenas a beleza da intenção inicial é não atribuir à beleza o seu preço, e o preço por cada gesto é o seu mais contingente significado.”
Não foi o meu valter hugo mãe favorito, mas é um romance muito bonito, ternurento e cheio de humanidade. Um livro sobre A Casa, pertença, comunidade, falha e cuidado. E, acima de tudo, sobre a possibilidade de abrilhantar alguém em vez de o emburrar.
é, curiosamente, o livro menos VHM que li! a crítica social é muito saramaguiana, mas depois lembras-te de que a personagem principal se chama “Agiulfo” e que vai acima de um monte para se tornar sapiente e falar com Deus e, de repente, as palavras já pertencem a quem as escreve.
Neste magnífico livro de Valter Hugo Mãe somos convidados a refletir acerca de diversas situações da contemporaneidade através de metáforas geniais. Agilulfo, o Marquês da Malandrinha, influencia a vida de todos o que o rodeiam. Este Marquês tem uma condição especial: ganha inteligência e abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando a desce. Partindo deste pressuposto VHM leva-nos a reconhecer o quanto estás movimentações alteram toda a história. Há uma crítica à sociedade atual, ao modo de vida e à importância que se dá às coisas. Há um claro contraste entre a importância dos bens materiais e das vivências de cada um. Neste livro, há um enfoque nas personagens femininas que me agradou muito. Aqui elas são fundamentais para que a história exista. São elas que fazem o mundo girar. A Criada é a minha personagem preferida em todos os momentos. Na sua simplicidade mostra a garra de que são feitas todas da mulheres. O que menos gostei no livro foi de alguns detalhes de realismo mágico.
Fazendo este livro parte de uma tetralogia, aguardo que personagens aqui presentes transitem para outras histórias.
"O poder dos homens era invariavelmente para transpor o que o corpo não podia. O poder das mulheres estava muito mais interessado em superar solidões."
"Senhoras e senhores, não nos falta informação, falta-nos a felicidade. Aliás, ainda que sejamos do século da informação, não somos sequer do século do conhecimento."
"À bondade exige-se responsabilidade. O que haveremos de fazer no dia em que os bondosos puderem ser torpes. Em que nem nos bondosos pudermos confiar."
Uma narrativa alegórica que utiliza personagens e situações insólitas para refletir sobre a sociedade contemporânea. A personagem do Marquês representa uma figura de poder marcada pela contradição, tornando-se, assim, uma metáfora de uma sociedade que oscila entre a razão e a irracionalidade. A Criada desempenha um papel essencial ao representar a simplicidade, a dedicação e o bom senso. Embora ocupe uma posição social inferior, revela frequentemente uma compreensão da realidade mais profunda do que a das personagens privilegiadas. Evidencia que a verdadeira sabedoria não depende do estatuto social nem da instrução formal, mas da capacidade de observar, cuidar e agir com humanidade. O cofre assume um forte valor simbólico, representando aquilo que as pessoas mais valorizam e procuram proteger, funcionando como uma crítica à tendência humana para atribuir maior importância aos bens materiais do que aos valores éticos e ao conhecimento.Estes três elementos articulam-se para reforçar a mensagem central do romance: uma sociedade que despreza o pensamento crítico e privilegia a aparência, o poder e a riqueza, corre o risco de se tornar cada vez mais vulnerável à ignorância.
Nunca havia lido nada do autor, Valter Hugo Mãe. Que absurdo da minha parte. Este livro é portentoso na mensagem que transmite, na história incrível que conta, na forma como discorre sobre o bem, o mal, a ignorância e a informação. As personagens femininas são habilmente apelidadas das suas funções (sendo que os nomes apenas são dados aos homens), com extensa habilidade e curiosidade ao serem nomeadas, próximas da sua natureza, em parte a explicar a sua filosofia de vida. Entre aspetos absurdos e verdades duras, VHM cria uma narrativa que nos atira para a necessidade de repensar a nossa fecundidade perante a vida. Quem somos nós? A Criada ou a Marquesa? Omobon ou Omobestia? Seríamos capazes de elevar o ignorante ou baixá-lo até à sua ignorância e assim nos condenar? Ficam-me várias passagens para reflexão e alguns capítulos (se não o livro todo) serão de releitura obrigatória. Para já, fica-me esta que deixo como espelho claro dos dias que correm: "Que humanidade era aquela que preferia promover a ignorância ao contrário de promover a erudição e até o milagre." É ler.
“Cada pessimista sucumbirá à sua própria utopia, mas terá deixado sobre a terra um sem-fim de contributos que, por incapacidade de se deter favoreceram a vidinha amena dos demais.”
"Que humanidade era aquela que preferia promover a ignorância ao contrário de promover a erudição e até o milagre." pág. 215
"Aliás, ainda que sejamos do século da informação, não somos sequer do século do conhecimento." pág. 234
Uma capa lindíssima, para um conteúdo excelente. Na habitual linguagem ao mesmo tempo poética, inovadora e carregada de ironia, acompanhamos a história de uma povoação, com todos os seus conflitos e jogos de interesses, história que é também uma parábola dos nossos tempos, em que preferimos a superficialidade e rirmo-nos dos outros, ao invés de procurarmos elevá-los através do conhecimento. Poucos autores sabem contar histórias de uma forma tão bela.
Livro maravilhoso, com uma linguagem simultaneamente poética e humorísticas. Lembra-nos que a verdadeira imbecilidade não está em saber pouco, está em recusar pensar.
“Que humanidade era aquela que preferia promover a ignorância ao contrário de promover a erudição e até o milagre. Se todos poderiam convidar Agilulfo a subir, porque sempre haveriam de o convidar a descer”
Premissa incrível, escrita exímia. Recomendo a 100%
"O livro mostra como o boato e a desinformação têm mais poder e coesão social do que a verdade ,revelando o lado mais obscuro da nossa era de pos- verdade.
Um livro de uma subtileza, ironia e humor incríveis. Personagens muito representativas e que muito fazem pensar. Um livro que representa o que vivemos de forma ímpar. Dá vontade de reler, assim que se termina. Valter Hugo Mãe, como sempre, genial.
* Narrativa profundamente alegórica, onde uma pequena aldeia é o espelho das contradições da sociedade contemporânea. * No centro da história encontra-se Agilulfo, um Marquês cuja estranha condição faz com que a sua inteligência oscile de forma inversamente proporcional à sua posição numa montanha. Quando desce, torna-se progressivamente mais parvo, quando sobe, recupera a lucidez. * Esta inversão é simultaneamente absurda e fascinante para todos os que rodeiam o Marquês . O mais desconcertante, porém, não é a condição do Marquês, mas a reação daqueles que o rodeiam. A sua comunidade parece encarar o declínio intelectual com um misto de fascínio e entretenimento, quase celebrando a degradação da capacidade de pensar como se o embrutecimento de um indivíduo fosse um milagre digno de admiração. * Ainda assim, e mesmo depois do escárnio a que o vota, a aldeia continua dependente desta figura nobre. Uns procuram conquistar os seus favores e beneficiar da sua riqueza, outros aproveitam-se da sua vulnerabilidade. Ninguém demonstra interesse em compreender a origem da sua fragilidade ou em ajudá-lo. O conhecimento cede lugar ao conformismo e a empatia ao oportunismo e ao escárnio. * É precisamente aqui, nesta atitude coletiva, que o romance encontra a sua crítica mais afiada. A sociedade em que vivemos prefere rir da ignorância, em vez de a questionar e todos acabamos por, inevitavelmente, nos tornar um pouco mais imbecis quando o fazemos. * A escrita de Valter Hugo Mãe é, como habitualmente, poética e mordaz. A prosa é rica em alegorias e metáforas. Há algum realismo mágico que se funde naturalmente com a reflexão filosófica, o que torna a leitura simultaneamente exigente e recompensadora. * O Século dos Imbecis é uma obra sobre a forma como, nos nossos dias, normalizamos o absurdo quando nos é conveniente e a nossa responsabilidade neste ato de imbecilidade coletiva. Como um juiz diz às tantas, em meados do livro, "À bondade exige-se responsabilidade. O que haveremos de fazer no dia em que os bondosos puderem ser torpes. Em que nem nos bondosos pudermos confiar." * Uma leitura que desafia, inquieta e confirma, uma vez mais, a extraordinária capacidade de Valter Hugo Mãe para transformar o insólito numa reflexão que vale a pena fazer.
Ambição, inveja, luxúria, cobiça e uma pitada de realismo fantástico nessa bela obra de VHM. Personagens muito bem construídos, onde a casa da Malandrinha se torna um dos personagens mais importantes e centrais. A história se passa numa vila que pode ser em tempos antigos ou não, onde as relações humanas são retratadas com um tom de humor mas bastante complexas. Os personagens femininos ganham grande força no decorrer da história, que no final, apesar de todos os defeitos do comportamento humano, acabam nos mostrando a importância de recomeçar, amparar e cuidar dos outros. Uma leitura que nos deixa com muitas reflexões!
Nestes dias de estio, acompanhei a história de Agilulfo, o Marquês que se abrilhanta e emburrece consoante sobe e desce as montanhas em redor da sua propriedade, com vida própria, a Malandrinha. Adorei as fortes personagens femininas, sendo que a minha favorita foi, sem dúvida, a própria casa. Adoro também a escrita de VHM e esta exploração de realismo mágico que acaba por ser uma metáfora para os nossos dias.
“Que tipo de humanidade defenderemos se permitirmos que alguém explore exactamente o enfraquecimento do outro, ao invés de o potenciar ao seu melhor, proporcionando-lhe, em todas as ocasiões, ferramentas para que esplendore o mais possível”
“Sei que é saudade quando e impossível de acabar. Agora sofro. A felicidade que resta esta só em saber a razão por que sofro”
Este livro deu-me vibes de Saramago 🥹 Poucos diálogos. Escrita poética e reflexiva. Narrativa simbólica, que recorre a personagens e acontecimentos invulgares para refletir sobre a sociedade atual. Excelente livro para introduzir no PNL e até nos planos curriculares.
Atrás de uma metáfora inovadora e refrescante, esconde-se uma grande crítica à sociedade, como o título antevê. Uma leitura cómica e satírica que vale muito a pena conhecer. E como não amar a Criada?
Depois de ler O Filho de Mil Homens, que gostei bastante, este foi o segundo livro de VHM que li e posso dizer que veio confirmar aquilo que eu já sentia, estamos perante um autor extraordinário.
Através de Agilulfo, o marquês que se torna mais sábio quando sobe a montanha e mais ignorante quando dela desce, VHM constrói uma espécie de fábula sobre a condição humana e sobre a forma como uma comunidade pode alimentar a ignorância, o preconceito e a mediocridade.
Adorei as personagens. São excêntricas, caricaturais e, muitas vezes, difíceis de esquecer. Parecem representar diferentes facetas da sociedade, como a ambição, a inveja, a mesquinhez, mas também a empatia e a esperança. A própria comunidade acaba por funcionar quase como uma personagem coletiva.
Há qualquer coisa de poético, estranho e belo na forma como VHM constrói as frases e dá voz à narrativa. A ironia está constantemente presente, muitas vezes fazendo-me rir, mas também deixando aquela sensação de que, por detrás do absurdo, existe uma crítica muito séria.
Gostei particularmente da forma como o autor consegue transformar uma história aparentemente insólita numa reflexão sobre algo tão atual: vivemos rodeados de informação, mas nem sempre valorizamos verdadeiramente o conhecimento. E talvez seja precisamente aí que o livro mais nos incomoda, porque, por vezes, reconhecemo-nos naquilo que estamos a ler.
Foi uma leitura que me divertiu, me fez pensar e, sobretudo, me deixou com vontade de continuar a descobrir a obra de VHM. Este livro só veio confirmar que quero, sem dúvida, ler muito mais deste autor.
Sempre estivemos rodeados de imbecis e isso é se não somos, tbm nós, imbecis. É preciso MT tempo e MTA sabedoria para se escapar à imbecilidade. Sabedoria q n vem nos livros nem se aprende na escola. É mais um livro que nos faz refletir sobre o q realmente é importante.