Belfagor, o Arquidiabo narra a história de um diabo que é mandado à terra para, através do matrimônio, verificar se é verdade que todos os homens que chegam ao Inferno apresentavam como causa única de estarem ali o fato de serem casados na vida terrena.
O conto de Maquiavel reflete, em parte, a posição da mulher na sociedade medieval. Já A Mandrágora, escrita como divertimento em tempos tristes, é uma crítica contundente ao clero que tudo faz por amor e dinheiro, aos nobres por sua vida vazia e mesquinha.
A edição traz uma apresentação da história e de seus temas, além de uma pequena biografia do autor.
The Prince, book of Niccolò Machiavelli, Italian political theorist, in 1513 describes an indifferent ruler to moral considerations with determination to achieve and to maintain power.
Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, a philosopher, musician, and poet, wrote plays. He figured centrally in component of the Renaissance, and people most widely know his realist treatises on the one hand and republicanism of Discourses on Livy.
Breve arrazoado sobre a peça “Mandrágora”, de Maquiavel.
11.06.2017
Felipe Oquendo
É cada vez mais incomum alguém saber que Maquiavel, o secretário florentino autor do livro “O Príncipe” e originador do adjetivo maquiavélico, foi também um dramaturgo. Principalmente no Brasil, é repetida sobre Maquiavel sempre a bobagem de que foi o inventor de uma ciência política dita realista, porque reconhece o mal e os ardis perversos envolvidos na conquista e manutenção do poder e porque, para usar do clichê, “ensinou que os fins justificam os meios”, novidade apenas para quem exalta a própria ignorância como parâmetro de julgamento.
Mas digo que se Maquiavel foi um derrotado da vida, o que no mínimo sugere cautela a quem pretenda seguir seus conselhos de bom sucesso, as amarguras lhe renderam boas inspirações para o teatro, onde – ouso dizer – é maior do que na política.
A Mandrágora é, no fim das contas, uma peça divertidíssima, bem escrita, enxuta, que alcança foros de arquétipo sem qualquer pretensão a tal.
O mythos é o do marido enganado pelo amante apaixonado: Messer Nícia, doutor em leis, nouveau riche, burguesão amante dos sinais externos de conhecimento – um palavrório latino, um título de doutor, uma universidade, um diprôma – casou com uma bela, jovem e recatada mulher chamada Lucrécia. Ocorre que Lucrécia e Nícia não conseguem ter filhos, sonho maior do pobre doutor. Paralelamente, um jovem nobre chamado Calímaco, que morava em Paris, resolve voltar à sua terra natal – Florença – só pela notícia da beleza de Lucrécia. Chegando lá, não se arrepende: apaixona-se perdidamente pela esposa de Messer Nícia e põe-se de pronto a procurar um jeito de tê-la, nem que seja por uma só noite.
Calímaco, porém, não tem os meios intelectuais de penetrar na carapaça do casamento, nem muito menos na honestidade firme de Lucrécia. Não é que seja burro ou falto de educação. É que está desolado e seus sentimentos e desejos o jogam de um lado para outro, como náufrago, sem paz para planejar. Ele mesmo o confessa em solilóquio:
“E é verdade que o fado e a natureza mantêm sempre em equilíbrio as contas do balanço: nunca nos fazem um bem que, de encontro, não surja um mal. Quanto mais cresceu minha esperança, tanto mais aumentou o meu medo. Coitado de mim! Será possível que deva viver em tamanha aflição, atribulado por estes temores e estas esperanças? Sou como uma nau açoitada por dois ventos contrários, que tanto mais teme quanto mais se acha próxima do porto. A patetice de messer Nícia induz-me a esperar, a prudência e a dureza de Lucrécia me fazem temer. Ai de mim, que não encontro paz em parte alguma!” (sc.1, Ato IV)
Precisa de um ombro amigo, sobre os quais, de preferência, esteja um cérebro funcional – e aí entra Ligúrgio, a peça fundamental da comédia.
O leitor que depare com essa última afirmativa objetará que Ligúrgio é apenas o arquiteto do plano, que não viria a bom termo sem o concerto da boa vontade do servo Siro, da avidez cega de Sóstrata, mãe de Lucrécia, da perversão do Frei Timóteo e, claro, da solicitude de Messer Nícia, “que, embora sendo doutor, é o homem mais simplório e tolo de Florença”. Contudo, há algo nessa personagem que não me deixou descansar até que a passasse mentalmente em análise detida.
A primeira referência a Ligúrgio é feita por Calímaco logo no primeiro Ato, ao destacar que “repetidamente vem fazer suas refeições comigo. Já foi mediador de casamentos e, depois, deu para esmolar ceias e jantares.”. E só.
Mas que personagem estranha, essa que já foi mediadora de casamentos e agora é parasita da riqueza alheia! Como bolou um plano tão perfeito, demonstrando espantoso conhecimento da natureza humana – sobretudo da natureza decaída? Como convenceu tão prontamente todos ao auxiliarem?
A primeira hipótese é a de que Ligúrio é uma persona de Maquiavel. Diga-se logo que nem sempre o autor se mete no meio de suas estórias e o método autobiográfico para interpretação de obras literárias só funciona mui raramente. Porém, uma figura sem biografia firme, atuando nos bastidores, com relações nebulosas com as demais personagens, mas que ao mesmo tempo é de uma genialidade maligna, maquiavélico mesmo, avant la lettre, pode perfeitamente ser o próprio Maquiavel.
A meu ver, porém, essa tese não se sustenta. Ligúrio, como é o comum na criação literária, tem traços de várias pessoas, inclusive o comportamento parasita que Maquiavel demonstrou em vida. Mas não me consta das biografias do secretário florentino que ele tenha sido, em seus cargos, efetivamente esse monstro dos esquemas malígnos que ele pinta em “O Príncipe”. Ligúrio pode ser um vagabundo qualquer no esquema da sociedade, mas tem um poder efetivo sobre as pessoas muito maior do que o velho Nicolau jamais sonhou possuir. Talvez Ligúrio seja alguém que Maquiavel quis ser mas não foi, porém acumula pontos distintos do autor, importantes demais para deixar passar.
Antes, para estender um pouco essa linha de investigação e acrescentar-lhe um argumento suplementar, Maquiavel parece ter sido perfeitamente honesto no prefácio da obra, quando se apresenta como alguém que “também sabe criticar outrem, pois esta foi a sua arte primeira, e que, onde quer que ecoe, a itálica língua, a ninguém ele estima, ainda que o vejais fazer de servo a quem manto melhor que o dele traja”. Qualquer um com uma noção wikipédica da vida de Maquiavel sabe que essa frase a descreve perfeitamente.
A segunda hipótese é mais profunda. Exige uma interpretação do tipo anagógica. Maquiavel, homem formalmente católico e substancialmente renascentista, acossado aqui e ali pela roda da Fortuna, pode ter conhecido de perto aquela força que o inspirou a criar Ligúrio: o próprio diabo.
As provas da identidade anagógica de Ligúrio com o diabo são abundantes. Além de ter bolado o plano para violar Lucrécia – nome e circunstância que, aliás, evocam os tempos do Reinado Romano -, Ligúrio parece especialmente dotado para corromper a tudo e a todos:
CALÍMACO:
E quem convencerá o confessor?
LIGÚRIO
Eu, tu, o dinheiro, a nossa maldade e a dele. (Scn. 6, Ato II)
É Ligúrio que, de forma chocante, sugere a Frei Timóteo que auxilie com um aborto para pôr fim a uma situação socialmente inconveniente, antecipando em séculos o argumento utilitarista que aprovou essa abominação em tantos países: “Por outro lado, não ofendereis senão um pedaço de carne, que ainda não nasceu, que não tem sexo e que, de mil maneiras, poderia perder-se. Crieo que seja bem aquilo que favorece as mais das pessoas e de que se regozije o maior número delas”. (Scn. 5, Ato III)
E não pense o leitor que é só na argúcia amoral de Ligúrio que reside sua filiação luciferina. Frei Timóteo, que não é nenhum santo mas ao qual as sugestões de Ligúrio e a trama levada a cabo para que Calímaco fosse para a cama com Lucrécia parecem absurdos e ultrajantes, revela contudo para que lado já pende sua alma de frade velhaco, confessando uma verdadeira sympathy for the devil:
FREI TIMÓTEO
Falai. Estou convosco em tão bons termos e parece-me havermos contraído tamanha intimidade, que não há nada que eu não faria por vós. (Scn. 6, Ato III).
Se esta não é a expressão de uma alma entregue à sedução diabólica, eu não sei o que é.
Estranho também é que essa figura que deveria ser tão apagada, como a de um antigo mediador de casamentos, se mostre tão interessada em que o adultério se consuma – talvez ainda mais interessada do que o próprio Calímaco:
LIGÚRIO
Tudo depende de que a conquistes esta noite e, antes de ir embora, revelando-lhe quem és, lhe descubras o embuste, lhe mostres o amor que tens por ela, lhe digas todo o bem que lhe queres, demonstrando-lhe como pode, sem infâmia, tornar-se sua amiga ou, com grande infâmia, tua inimiga. É impossível que ela não concorde contigo e queira que esta noite seja a única.
Aqui o antigo mediador de casamentos não é mais um ajudante, ou mesmo um titereiro num teatro de maquinações infernais: ele é o instrutor do mal, o perversor da humanidade, o inimigo da alma – é Mefistófeles, instando com Fausto, perturbando seus sentidos, conquistando para o inferno mais um habitante.
E tudo sai tão maravilhosamente como planejado! O conhecimento de Ligúrio, nome com “L” que tem o mesmo número de letras que “Lúcifer”, ultrapassa a experiência dos sentimentos, expectativas e reações humanas e entra mesmo no conhecimento do futuro, no terreno da profecia demoníaca. A peça é a estória da elaboração de um balaio malígno no qual diversas almas ficaram presas, talvez para sempre, na morte sem fim.
Várias vezes a leitura da biografia de Maquiavel me sugeriu uma certa obsessão demoníaca, como se ele estivesse amargando os dividendos de um pacto diabólico – malogrado como todos os pactos desse tipo. O lamento de Frei Timóteo, na Cena 6 do Quarto Ato, pode muito bem ser o lamento do próprio secretário, doublé de dramaturgo: “Sabe Deus que eu não pensava em causar mal a ninguém. Estava na minha cela, rezava o meu ofício, cuidava dos meus devotos. Surgiu-me pela frente esse diabo de Ligúrio, que me fez molhar o dedo num erro, onde acabei por mergulhar o braço e o corpo todo, sem que ainda saiba aonde irei parar”. Com efeito, as ideias do “Príncipe” soam muito como um pacto diabólico: prometem muito, entregam pouco e danam muito mais o comprador do que aqueles a quem pretende prejudicar.
Não foi bem assim na peça “A Mandrágora”: aparentemente, todos saem satisfeitos, e até a outrora pudica e honrada Lucrécia parece animada de viver uma vida dupla, plena de disfarces e enganos, com Calímaco. Na Florença que Maquiavel criou desde o exílio, o mundo recomenpsa o pacto diabólico, mas as almas, como sempre, continuam a cair todas na rede do Inimigo.
O livro apresenta primeiro uma peça teatral que fez muito sucesso, A Mandrágora, e depois, um conto, Belfagor. A obra dramaturga é uma comédia com um humor refinado e bem maquiavélico, em que envolve em escárnio um doutor bem burrinho, sendo enganado por todos à sua volta. Já quanto ao segundo texto, se refere ao demônio que sai do Inferno para vir à Terra comprovar sobre as queixas dos homens, que dizem ser as suas esposas a principal causa da ruína. Ao final ainda uma pequena biografia de Nicolau Maquiavel.
A minha experiência foi agridoce. Os textos valem a pena ser lidos, não sendo nada do outro mundo, acabam sendo interessantes. No entano, a edição deixa a desejar. O texto entra, pelo menos nas primeiras páginas, pelo livro adentro e, pior ainda, páginas se soltando na minha mão. Desembalei do plástico hoje..