Foi bom intervalar a bonecada e encontrar desconsolo nas palavras deste filósofo sul-coreano, o autor da "Sociedade do Cansaço".
Em 80 páginas, este ensaio é uma radiografia completa ao estado da civilização, um diagnóstico assertivo da doença que já sabíamos estar a consumir-nos, mas que aqui é descrita de forma brilhante e catártica.
Han fez-me regressar às aulas de Filosofia do 10º ano ao recuperar as ideias de Aristóteles, Kant, Rawls, Arendt, e até de Bauman, repetindo a sua ética intuitiva para apontar-nos o caminho da cura. As mensagens mais simples e generosas resistem ao passar dos tempos e soam especialmente bem no meio do caos.
Han acredita que a ausência de respeito se deve ao colapso dos "valores verticais": aqueles que são intemporais, inspiram e orientam a ação coletiva, dando um propósito à nossa razão de ser.
Dinheiro, bens luxuosos ou conteúdos virais nunca serão "valores verticais". Não inspiram o nosso respeito, não têm força intemporal, não modelam a ação humana. São "horizontais" porque não exercem uma "tensão ascendente" sobre o nosso comportamento.
Na "ordem horizontal", os modelos tradicionais foram substituídos por influencers que não procuram inspirar-nos com a elevação dos seus atos, nem com as qualidades do seu caráter: querem apenas a maior quantidade de atenção e consumo momentâneo. Às 'communities' a que se dirigem de forma inconsequente falta o elemento mais importante da comunidade: o projeto comum, a visão que transcende o indivíduo.
As aspirações coletivas foram abandonadas e preenchemos esse vazio com séries de projetos pessoais de curto prazo, que muitas vezes degeneram em narcisismos inflamados.
Cresceu o desdém e a desconfiança perante os idealistas, os poetas, os que pensam no abstrato, ou os esperançosos que escrevem em metáforas e crêem no progresso humanista. O discurso empobreceu, reduzido apenas ao objetivo e "ao autêntico", que se confunde com a desconsideração. A nossa fé está agora aos pés do quantificável, do atingível, do rentável ou publicável.
A entrega ou a consideração para com os outros, que Freud descrevia como "a canalização da libido para o exterior", foi socialmente considerada fraqueza, e por isso desviada para dentro, para o ego.
O respeito, que era universalmente devido, foi submetido a cálculos de ROI ou então condicionado às parecenças desse "outro" comigo, o "outro" que privei da sua alteridade e que é um prolongamento de mim mesmo.
Esta mercadorização dos indivíduos e de todas as esferas da sociedade arruinou o primado da dignidade humana que Kant preconizava. O imperativo moral kantiano exigia o tratamento da pessoa enquanto "valor absoluto" e uma "finalidade em si".
Apesar de consagrado nas constituições dos estados (com a sua autoridade em pleno processo de rutura), a dignidade é cada vez menos inerente à nossa condição de ser humano. O respeito é algo por que se luta e conquista.
O estatuto dos indivíduos é atribuído ou retirado em função da sua performance, refletida no 'quantum' - nos bens, rendimento ou seguidores.
A "sociedade do desempenho" rejeita igualmente as teorias da equidade e da justiça de John Rawls, que aqui jazem sob a máxima neoliberal do 'the-winner-takes-it-all'. Para além de gerar e perpetuar irremediavelmente desigualdades, ela gera sempre uma multidão de perdedores, humilhados e frustrados consigo e com os outros.
E em todo o lado podemos observar manifestações "moleculares" desta raiva, expressões de negação ou de compensação pela desorientação "horizontal" em que caímos.
Claro, o exemplo mais notório é o fanatismo das turbas, movidas por um ódio incontinente e destrutivo. Arendt dizia que, ao contrário do povo, a turba não decide, não se compromete nem dialoga. A turba ou aclama o autocrata, ou apedreja os opositores. Ou invade o Capitólio a fazer as duas coisas.
Num cenário global de degradação da autoridade das instituições políticas, científicas, jornalísticas e sindicais, as opiniões (ou emoções) individuais autopromovem-se à categoria de factos, patrocinadas pelas lógicas comerciais obscuras do algoritmo.
Com o debate público entrincheirado em bolhas, onde as convicções da tribo, afirmadas e repetidas sem contraditório, se convertem na única e mais virtuosa verdade, o outro não merece compreensão nem diálogo, apenas insulto.
Sem respeito, não existem hipóteses de diálogo. Sem diálogo, a democracia perde a sua hipótese.
Divididos e atomizados neste Squid Game, resta-nos ser empreendedores de nós próprios. Culpamo-nos em caso de fracasso, e esprememo-nos continuamente para o evitar até ao 'burnout'.
Venha daí a Sociedade do Cansaço.