«Fui condenado a ouvir o eco permanente de um disparo que não pintei.»
«Viver uma guerra à distância é como olhar para este quadro. É estar lá sem estar dentro, é estar de fora sem estar cá fora. Vivo à distância. A guerra à distância. O horror à distância. A morte à distância. O medo à distância. O desastre à distância. É tudo uma mera notícia.» Hoje, 3 de Maio é um romance escrito a partir do quadro Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, de Francisco José de Goya y Lucientes. Um retrato de quem fuzila e de quem é fuzilado numa Europa que permanece, até hoje, presa num tempo de guerra.
Cresceu em Lisboa, Macau, Utrecht, Helsínquia. Trabalha em teatro, dança e cinema. Quase sempre nos bastidores. Vive entre Paço de Arcos e Antuérpia.
Tem 34 anos. Publicou "Operação Cardume Rosa"; "Se Não Bigo Não Digo" (ambos na Fenda); "Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela" (Caminho) e "Escudos Humanos" (Culturgest). Fez o curso de realização Plástica do Espectáculo e esteve no Teatro da Garagem, O Olho e Projecto Teatral. Escreveu diversas peças, como one spoke, one smoked, one died; Operação Cardume Rosa; T5; Banquete ou a Trilogia Flatland. Recebeu os prémios ACARTE/Madalena Azeredo Perdigão; Revelação de teatro pela Associação de Críticos de Teatro Portugueses e Navegadores Portugueses 94 de BD, pelo CNC.
Um livro muito inebriante e peculiar centrado no dia e na obra (Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, de Francisco José de Goya y Lucientes) que, faz diferentes análises com uma personagem feminina, atormentada por minúsculos insectos que, antes de sair de Madrid visita o Museu do Prado, para uma reflexão perturbadora. Um livro que, é uma desconstrução com vários participantes e envolve o leitor que, tem que avaliar as várias partes para o chegar a decifrar. O autor, o narrador, as vítimas e os carrascos todos são personagens. Inteligente.
este é um daqueles casos em que o objeto vale por si. esta peça de arte que apetece ter sobre a cómoda, à vista, folhear e descobrir a todo o tempo seria suficiente. mas depois temos o prazer incomparável de o ler, de alimentar esta conversa, de desbravar caminho, e ficamos ainda mais admirados com a dimensão do que a Patrícia Portela fez aqui. eleva a sua inteligência, espanto, e uma inegável capacidade de desconstrução (e colagem a partir dos cacos) de um diálogo original entre quadro e leitor, quadro e narrador, quadro e autor, quadro e quadro. se isto não é a literatura a dar-nos o que tem de mais valioso, criativo e revolucionário, então não sei que mais nos poderá oferecer. conhecer a pessoa que torna isto possível só me fez admirá-la mais, e porque continuamos a matar e ser mortos, este é um livro que precisa de viver sobre a vossa mesa da sala, ali a jeito, para mergulhar e pintar e desmontar pensamentos, já que andamos todos a bordar morangos em lenços de linho. bravo 👏🏼
Existem muitas teorias para designar o que é um clássico e porque é que há livros que perduram no tempo e outros que se deixam ocultar no seu próprio tempo. Tenho para mim que um clássico é aquela obra que, mesmo no seu tempo, não só não se esgota na leitura como cria alguma ansiedade no leitor perante a dimensão do texto que tem em mãos.
Este mais recente livro de Patrícia Portela é um desses casos em que a evidência da sua magnitude jamais se alcança com uma leitura. É um livro que será concerteza lido daqui a muitos anos e que merecerá muitas releituras.
Um romance que desafia o próprio conceito de romance, ou talvez redefina alguma coisa quanto às suas possibilidades (tenho para mim que o romance é o género total, mas é só uma opinião), carregado de erudição, com a medida exacta do que se diz, e que mistura ficção com realidade, através da filosofia, da história da arte, da ciência e da própria História, que parece sempre posta em causa, discutida, analisada pela voz dos que não puderam falar no seu tempo; e tempo, aqui, é também uma discussão.
A Arte e a História como matéria da ficção, e a ficção como que insuficiente para trabalhar a realidade a partir da qual Goya pintou o seu "Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808". Uma escalpelização da matéria histórica enquanto factor de criatividade na ficção. Talvez a única forma de entendermos alguns dos episódios imortalizados pela arte. Grandíssimo romance de Patrícia Portela.
Um livro esteticamente irresístivel. Um objeto de culto para mim que não resisti a comprá-lo. Muito original na estrutura interna, permitindo-nos lê-lo de várias maneiras, talvez para nos aliciar a múltiplas leituras da mesma obra, que dependendo da perspetiva nos dá novas pistas, novos sinais... E depois o 3 de maio de 1808 será só de Goya Lucientes ou atravesa espaço e tempo e coloca-nos sempre em perspetiva, de um dos dados da barricada, os que fizilam ou os que são fuzilados, ou meros passivos, observadores que assistem cúmplices e apáticos aos desenvolvimentos do mundo concreto? Podemos elevar-nos se tivermos essa consciência e lucidez, basta isso para a nossa redencão? A fruição estética das atrocidades eleva-nos? Ou é pretexto para aplacar o incómodo e crueza dos massacres, da fome, da guerra, dos fluxos migratórios, das torturas, da pena de morte... e do mau trato animais questão que me é tão sensível! Serei eu o cão de Goya que se devate com a tempestade de areia?...