Orides Fontela (1940-98) foi autora de poemas que ficaram para a história da literatura brasileira do século XX. Sua obra é de um refinamento impressionante e acabou cativando críticos como Antonio Candido, Davi Arrigucci, José Miguel Wisnik e muitos outros. Segundo Antonio Candido, em seus poemas 'se encontram a quintessência das melhores linhagens modernas e a capacidade de lhes imprimir um cunho pessoal inconfundível'. Em 'Poesias reunidas 1969-1996', a obra de Orides, há tempos fora das estantes mas sem nunca ter deixado de circular, reaparece pela primeira vez completa e com uma bibliografia atualizada. Neste volume estão reunidos os livros 'Transposição' (1969), 'Helianto' (1973), 'Alba' (1983), 'Rosácea' (1986) e 'Teia' (1996).
Já tem alguns bons 15 anos que tive um insight da psicanálise como prática poética que vai da teoria à clínica, curiosamente não foi até Rosácea da Orides Fontela que tive o mesmo pensamento quanto à leitura de filosofia, ou seja, ler o texto filosófico como leitura de poesia. Mas se a leitura de poesia é subjetiva como faz para ter uma leitura objetiva do texto filosófico ou psicanalítico? Dá para ser objetivo lendo Hegel ou Lacan? Dá para lê-los sem ajuda de comentadores que por sua vez aplicaram certa subjetividade em suas leituras? Dá para fazer Cartel sem 5 leituras diferentes do mesmo texto? No fundo a teoria é tão flexível quanto a prática clínica do setting, dá para saber o que se falou, mas nunca o que o outro escutou, por mais que a sintaxe pudesse ser objetiva. Enfim, voltando ao livro da Orides, é uma releitura e acho que gostei mais dessa vez, talvez tenha se tornado meu livro favorito dela.
Leitura obrigatória para quem gosta de poesia brasileira feita por mulheres. O jogo de palavras me lembrou a escrita do Leminski. A simplicidade e as brincadeiras que ela faz com as frases, não são tão simples quanto parecem.
Ler os livros em sequência tem sido uma boa experiência. Interessante ver como a poesia de Orides vai envelhecendo com o passar do tempo, o que se repete, quando ela ousa, as referências e escolhas. Os textos finais são incríveis e adicionam novas camadas à percepção, um guia bonito.