"Sexta-feira, 19 de agosto. Faz muito frio em São Paulo. Por volta das dez horas da noite, já é possível ver um grupo de mulheres na calçada em frente ao Ferro's Bar. Normalmente, elas cruzariam as portas de vidro do bar pouco depois de se encontrarem. Mas não é o que acontece."
Com afeto e minúcias de detalhes, a pesquisadora Julia Kumpera recupera o levante do Ferro's Bar, naquela friorenta sexta paulistana de 1983. A data é, hoje, lembrada como o Dia Nacional do Orgulho Lésbico. Entre as décadas de 1970 e 1980, o Ferro's foi o mais famoso ponto de encontro de lésbicas e também cenário de tensões, que marcam uma trajetória de preconceitos e avanços, durante a ditadura militar e seu ocaso. Esta obra é ainda um documento precioso sobre a luta de várias gerações de mulheres e sobre a importância de ocupar a cidade.
Na noite lésbica faz parte da coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha, voltada a resgatar marcos da resistência e do fervo LGBTQI+ do Brasil.
estar procurando um bairro novo para morar tem me feito pensar muito na minha relação com diferentes lugares da cidade. ter lido esse livro, ido a uma mamba na rua de novo depois de mil anos e ter achado um trecho de trovoa no meu celular fazem todo sentido com esse momento. me tocou muito a imersão no espaço e no detalhamento das ruas onde as muitas situações contadas no livro acontecem. me tocou muito ler o nome da rua onde meu melhor amigo mora nas primeiras páginas. me tirou um sorriso quando a autora fala sobre o relançamento de uma pornochanchada que, dias antes de eu ler, uma amiga querida estava me contando sobre ter ido. como é gostoso ler sobre a nossa história e entender como a gente também faz parte da memória da cidade. me dói saber que provavelmente nunca vou conhecer todas, mas que bom que, aos poucos, vou conhecendo o que dá e posso ter a experiência de estar bêbada de xeque mate na mamba negra e pensar: “será que as pessoas sabem das lésbicas que tomaram frente numa manifestação contra a violência policial que teve aqui do lado durante a ditadura?”
Eu esbarrei nesse livro quando fui em uma livraria em Curitiba. Eu já vinha de uma leitura que falava sobre história, vivência e luta transsexual/travesti e tinha achado muito interessante, então, como esse fala de vivência lésbica, que é mais próximo da minha realidade, não pude não ler.
Fiquei muito feliz da autora ter parado pra registrar de fato não só o levante do Ferro’s bar, mas também tudo que envolve, que estava acontecendo antes e depois do levante e fazer questão de citar o nome das lésbicas envolvidas. Fica claro como isso foi gigantesco e mesmo o livro sendo sobre a vivência lésbica, eu, como bissexual, me senti muito representada.
Esses livros são essências para nós valorizarmos quem realmente botou a cara a tapa pra que hoje, por exemplo, eu possa beijar minha namorada em um bar sem me preocupar. Ter esses direitos já conquistados (apesar de questionados e não nos isentar de violência e medo), às vezes faz com que a gente não lembre, na frequência necessária, tudo e quem veio antes.
Também deixou muito mais claro pra mim os privilégios que um homem gay tem, mesmo que dentro de uma repressão gigante, e como nós mulheres enfrentamos um arco de repressão ainda maior, além do quanto a história da luta lésbica é apagada.
Enfim, poderia escrever MUITAS coisas, mas, no final das contas, só quero deixar meu agradecimento à Júlia, que é a autora do livro, e a todas as mulheres que não recuaram na luta de ser quem se é. Apenas DIVAS. Sem vocês, eu não estaria aqui.
É uma leitura agradável e fácil. A prioridade da autora é a imersão, ela quer que consigamos sentir como se estivéssemos lá, frequentando o Ferro's, e eu acho que ela foi muito eficaz nisso. Mas eu admito que fiquei um pouco decepcionada porque achei o livro um pouco raso, com algumas constatações bastante genéricas. Mas é um livro importante, um livro que precisa existir. Só acho que minhas expectativas foram um pouco altas demais, pra variar. Mas definitivamente recomendo!