Quase Memória marcou a volta de Carlos Heitor Cony à ficção de forma consagradora, depois de mais de vinte anos afastado da literatura. A obra ganhou, em 1996, os prêmios Jabuti de Melhor Romance e de Livro do Ano, pela Câmara Brasileira do Livro. Quase Memória é o quinto livro de Cony que a Objetiva lança desde julho de 2005, quando garantiu a exclusividade para relançamento da obra completa do autor, assim como para o lança-mento de novos livros inéditos. Ponto alto na produção literária brasileira das últimas décadas, este romance explora o território entre a ficção e a memória a partir das reminiscências do autor sobre o pai morto. Nele, Cony mapeia minuciosamente a relação pai e filho: os sentimentos contraditórios, as alegrias e tristezas que não se esquecem, o afeto incondicional e, acima de tudo, a cumplicidade.
Carlos Heitor Cony was a Brazilian journalist and writer. He was a member of the Brazilian Academy of Letters (Portuguese: Academia Brasileira de Letras).
É um livro sobre saudades de casa e dos pais. Por muito tempo pode parecer uma apanhado meio solto de histórias com quê imaginativo, contados de uma forma que me lembrou minha família. Mas existe uma linha discreta alinhavando tudo, de forma que, no final foi um livro (até hoje o único) capaz de me arrancar lágrimas indiscretas (vulgo: chorei pra cacete).
No fundo acho que gostei do livro por me identificar com as manias e métodos do pai. Pode ser que também tenha identificado muitos de meus familiares e amigos mais queridos nos capítulos onde a narrativa mostrava como é bom ter amigos, como é bom estar presente perante à família.
A verdade é que gostei mesmo do livro, pois me vi imerso nele. Imerso num mundo que aos poucos foi deixando de ser o mundo da história narrada pelo escritor e passando a ser meu próprio mundo. Aos poucos me lembro de muitas passagens narradas no livro que não estão no livro! Como pode isso? Eu não sei e olha que li todo livro, mas agora fico sem saber o que fazer. Tudo que li não está mais no livro! Tomo conhecimento de que o livro fala sobre mim, meus amigos, minha família...
Penso ter enlouquecido de vez, mas não. O que o livre fez de mim é ter uma quase memória daquilo que li, é ter inventado uma história paralela, a minha história. Como isso fora acontecer não sei explicar, mas que mal tem isso?
Obrigado Cony (já me considero íntimo), por narra tão brilhantemente suas quase memórias que agora, inexplicavelmente também são minhas.
Li uma ou outra crônica de Carlos Heitor Cony. Esse é o primeiro romance que leio dele. Meio que uma mistura de crônica, antologia, ficção... Acima de tudo é uma prazerosa e, porque não, cômica leitura.
Conheci o Cony pela sua crônicas na Folha de São Paulo, agora lendo o seu primeiro romance a minha admiração pela forma poética como escreve só fez aumentar.
O livro Quase Memória do Cony é um ensaio sobre a memória, ao mesmo tempo que é tributo à memória do pai. Já nas primeiras páginas ficamos a conhecer esse homem de energia inesgotável, imprevisível, sonhador e ao mesmo tempo prático, que sempre ensina mostrando. Como o Arcano Louco do Tarô, não existe maneira de prever seu próximo movimento, sua energia é transformadora, caótica até. Mas ao contrário do louco, ele tem uma plateia para suas peripécias, e é o seu filho e narrador da história.
Ler esse livro é conhecer um pouco da história do Rio de Janeiro, do fim do jornalismo clássico e do início dos anos de chumbo. É uma época mais simples, encantada até, e é de encantamento que o autor quer nos falar, talvez o encantamento que as pessoas podem trazer as nossas vidas, e o encantamento que é a própria vida. Lembro que na minha primeira leitura eu fiquei muito emocionado com as descrições envolvendo o pai do narrador, mas nessa segunda leitura, meu coração apertou mesmo foi com a despedida da mãe; ainda assim, é um livro que parte do ponto de vista de filho e que fala do pai, por escolha do autor e não por mero descuido (nisso me lembra a Martha Batalha que começa a contar sobre a empregada da Euridice Gusmao e depois diz, “essa é outra historia”, nos lembrando que narrar é criar limites).
Eu gosto muito desse livrinho, por razões sentimentais principalmente. Eu o li quando tinha uns treze ou quinze anos, em uma das raras vezes que frequentei diariamente a casa de meu avô, que ficava no centro da cidadezinha. Sem lembrar exatamente as circunstâncias, eu passei grande parte da leitura daquele livro jogado no terraço do predinho verde em que ele viveu durante toda a minha vida. Em fevereiro deste ano, no entanto, ele faleceu por causa do Covid 19. O que explica eu tê-lo retomado neste mês que passou.
Esse livro, que se trata de um relato sentimental e amoroso sobre o próprio pai, muito me afeta pois há algum tempo não estou em boas relações com meu próprio pai. Na minha infância, no entanto, eu e meu pai vivemos muitos momentos semelhantes ao do narrador deste livro, como naquele dia em que ele fez uma pipa para mim ou quando ele fez um carrinho de rolimã para não me deixar de fora da nova onda da molecada, sempre da maneira cuidadosa com que ele faz tudo. E em questões mecânicas, engenharias e gambiarras, esse espírito livre que o pai do narrador possui em muito ressoa no meu pai, que manteve em sua casa por muitos anos uma oficina, e um amontoado de coisas da qual só ele compreende a utilidade.
De certa forma a critica de que esse livro é de “homem admirando homens” faz sentido, uma vez que a sociedade em que o narrador cresceu e mais ainda, o pai do narrador, é uma sociedade machista e conservadora estruturalmente. A reparação histórica, em relação ao que o autor escreveu, está, na minha opinião, em ser direto, dar nome aos bois com relação à ditadura, e em pintar seu pai como humano e nada mais que isso; eu tive problemas em aceitar os casos extraconjugais do pai do narrador, mas não posso dizer que me surpreendi — não há vestígios de hipocrisia, aquela era a sociedade daquela época (hoje mudou muito pouco, mas ainda existe uma tentativa de esconder ao passo que naquela época não).
A leitura desse livro, finalmente, cria uma ponte com meu avô, pai de minha mãe, e também pai de todos nós que vivíamos por lá, o único avô com quem convivemos de perto. Ainda que ele fosse reservado e nem um pouco dado a performances públicas, ele sempre se fez presente, e foi ele mesmo um filho que cuidou do próprio pai até o fim. O autor, com sua habilidade formidável de contar histórias, nunca perdendo naquilo que ela tem de essencial, foi um dos lumes na minha infância e que me fizeram ver logo cedo do que a literatura é capaz de fazer. Hoje, mais uma vez, o autor me mostra como a literatura pode dar alívio e senso de perspectiva em relação à dor da perda, do luto e do sofrimento.
É uma espécie de livro de memórias (ou quase), em que Cony é o narrador, tendo como foco a figura de seu pai, o também jornalista (obscuro) Ernesto Cony. Aliás, que figurinha carimbada. Pai amoroso e sempre presente, cheio de ideias mirabolantes, o autor traz ao leitor suas lembranças junto a ele, presença ostensivamente marcante. O livro se inicia com a entrega de um misterioso pacote a Cony que, apesar de não ter identificação traz todos os sinais de ter sido deixado pelo pai. O inusitado é que ele havia falecido havia 10 anos. Ele então se fecha em seu escritório, frente a frente com esse embrulho e a partir daí essas doces (outras nem tanto) lembranças vão aflorando. Esse livro é tão gostoso quanto manga roubada do cemitério, segundo Cony-Pai as mais saborosas. Quanto sentimento de nostalgia me despertou. Mesmo se tratando das recordações de outra pessoa a narrativa acabou despertando também as minhas... Nem tudo aqui é real, há uma mistura de ficção e realidade e pode ser encarado como um desafio distinguir uma da outra. Mas isso não fez diferença pra mim, o importante da memória é o doce e amargo sentimento que a nostalgia nos desperta.
"Amanhã faremos grandes coisas."
Histórico de leitura 28/11/2017
"Era um de seus lemas. Todas as noites, antes de dormir, se havia alguém por perto, ou se estivesse sozinho, sempre dizia em voz baixa, metade como compromisso, metade como prece: "Amanhã farei grandes coisas!""
"O dia: 28 de novembro de 1995. A hora: aproximadamente vinte, talvez 15 para a uma da tarde. O local: a recepção do Hotel Novo Mundo, aqui ao lado, no Flamengo."
É o típico livro delicioso de se ler. Neste quase romance/quase memória, Cony recebe um embrulho que supõe ser de seu pai, morto há 10 anos. Através da observação do embrulho ele puxa as memórias que tem de seu pai.
Cada capítulo traz uma memória que, segundo o autor, mescla realidade com ficção. As passagens são emocionantes e divertidas. Ri demais ao ler a história do pé de manga.
Cony é fantástico. Escolhe as palavras precisas, descreve cenários com perfeição e entrelaça as histórias de modo magistral. Consegue, sobretudo, dispor as histórias nos capítulos sem seguir uma ordem cronológica e sem deixar confusas as memórias.
Leitura altamente recomendada desde grande escritor brasileiro!
Por dessas coincidências li dois livros em que o autor fala do próprio pai. Um foi o ótimo “O lugar”, da Annie Ernaux. O outro foi esse “Quase memória”, do Cony, que não é tão bom assim. Já li outros livros dele, como o excelente “Antes, o Verão”, além das muitas crônicas que ele escreveu para a Folha de S. Paulo nos últimos anos de sua vida. Esse “Quase memória” foi lançado em 2014, já nos momentos finais da sua velhice. De algum modo me pareceu cheio de certos cacoetes, a começar pelo título e subtítulo. Quase memória e quase romance, como se tentasse se desvencilhar de quaisquer responsabilidade sobre o que vem a seguir. Não tem um suposto rigor de uma obra de memória (que não existe realmente), tampouco a liberdade ficcional do romance. É qualquer coisa que fica naquele indefinível meio termo. Também tem o cacoete de recorrer ao recurso de um objeto – no caso, um pacote – que vai proustianamente despertar todas as lembranças de outras etapas da vida, algumas muito remotas. De certo modo é uma homenagem ao pai, mas é também o seu desnudamento profundo. É o autor já velho se recordando daquele que conheceu em diversos momentos da vida: o pai adulto, já formado, jornalista, mas vivendo dos mais diversos expedientes para aumentar os rendimentos. O pai envelhecido, o pai em seu estertores. Mesmo nos momentos mais difíceis, o pai foi um otimista no Rio de Janeiro da primeira metade do século, um otimista mesmo nos momentos difíceis do inverno da velhice. Ambos, ele e o pai, nas próprias palavras, viveram em um mundo que acabou, o que é sempre o caso do passado. De qualquer modo, o pai são vários, mas o pai é sobretudo um homem como nós, com os mesmos medos, angústias, alegrias, tristezas. Talvez o compreendamos em sua inteireza apenas quando sejamos velhos o suficiente. Enfim, não longe de ser o melhor do Cony, mas ainda assim tem elementos bastantes para algumas reflexões a respeito de nós mesmo.
No início, estava impressionada pela personalidade do pai do narrador. Achava tudo uma gracinha, até tive vontade de conhecer esse homem sapeca, determinado. Fiquei curiosa do início ao fim pelo lance do embrulho. Mas as páginas foram passando e o meu interesse foi diminuindo. Alguém havia comentado, aqui mesmo no Goodreads, algo sobre homens só admirarem outros homens. Devo concordar. A quantidade de nomes masculinos citados nesse livro, enquanto nem me recordo se o nome da mãe do narrador foi citado, é exaustiva. No fim, não acho o pai tudo isso. Não sei se foi raiva ou qualquer outro sentimento negativo do tipo, mas comecei a achá-lo uma personagem exibida e mentirosa. A escrita não deixa a desejar; eu gosto do estilo do Cony. O problema é que ele contou durante vários capítulos histórias meio "tá, e aí?", com o intuito de tornar a personagem protagonista delas alguém interessante, um herói. Não tornou. Pra mim, a melhor parte da edição que eu tenho (TAG livros) foi a Apresentação do Ruy Castro, da qual retiro as últimas frases: "[...] num belo dia de 1985, Cony me telefonou 'Acabo de terminar um romance. Gostaria que você lesse'. Poucas horas depois, um portador deixou um embrulho na minha porta. Ao contrário do personagem do livro, abri imediatamente este embrulho. E, como acontece com todos os leitores de Quase Memória, nunca mais fui o mesmo". É, preciso admitir que não sou mais a mesma, sigo um pouco menos paciente do que quando comecei o livro. Havia em mim uma vontade quase ritualística de nunca pular páginas dos livros que leio, mas esse livro me convenceu de que às vezes isso vale mais a pena do que tentar manter um hábito sofrido.
Que maravilhosa essa quase memória. Cony faz com que fiquemos apreensivos com o tal do pacote recebido por ele, dez anos após a morte do pai, de maneira inusitada, mas, certamente, enviado pelo próprio pai. Numa dessas de ficar analisando o pacote, rememorando cheiros e estudando as técnicas de amarração do barbante, o autor, que é narrador e é personagem, nos faz conhecer seu pai, Ernesto Cony e as mais descabidas histórias. No capítulo 13, o Cony adivinhou meus pensamentos: eu estava claramente tomando-o por um Proust enrustido, com aquela enxurrada de cheiros e sabores evocados por ele. Mas não era bem assim: "Se me metesse a escrever um livro sobre o que está acontecendo, alguém acharia nesse embrulho, vindo brutal e inesperadamente do passado, uma referência, associação ou plágio da madeleine de Proust - e aí me cobrariam um romance. E como não há romance, além da pretensão, constatariam meu fracasso". Será que depois de Proust os escritores perderam o direito de ter seus narizes autênticos? Porque toda vez que tem cheiro, tem Proust. Seguindo... Simpatizei muito com a figura do pai Cony. Um cara que fazia com entusiamo as coisas simples e as coisas complexas. Como lição, fiquei com sua frase guardada na memória: "Amanhã farei grandes coisas!"
I read this beautiful special edition of TAG Livros, a Brazilian company that sells a private book subscription club. The novel by Carlos Heitor Cony, a famous Brazilian journalist writer who died in 2018, is book number 9, referring to September 2017. It is a novel of fiction based on some of the author's recollections. The author's father, Ernesto Cony, is very present in the book, whose memories shape the accounts, mixing memories and fantasies. There is a bit of everything in this book: nostalgia, complicity, and many memories. The book's reading held my attention from the beginning to the middle, but the pace slowed down slightly. Maybe it is the writer's writing style, I don't know for sure, because I liked the journalistic columns he wrote, but I didn't feel deeply touched by the book.
minha mamis me indicou este livrinho, que ela leu nas férias e achou uma graça. pois bem -- achei uma graça, também! muito gostoso ler a maneira como o cony conta a sua história, intercalada à de seu pai -- e o livro trata disso, todinho ele: das memórias que o pai desperta no menino, e depois no adulto carlos. a gente termina a leitura querendo homenagear alguém querido assim: escrevendo nossas memórias com a pessoa amada...
Um dos meus livros preferidos em literatura brasileira, eu adoro a forma como o autor escreve e como ele descreve a sua relação com o pai, misturando momentos no presente em seu escritório e trazendo lembranças de momentos diferentes de sua vida. Esse livro me fez pensar muito na minha relação com o meu pai e como eu me aproximei dele nos últimos anos, principalmente na minha fase adulta.
Algumas boas risadas, um pouco de oportuna revisão da história republicana do Brasil - uma sucessão de golpes - e um razoável cansaço decorrente de inícios repetitivos de capítulos. Em suma, um quase bom livro.
Só agora na avaliação vejo que terminei o livro em dois dias! E como faz com a saudade?? Leitura belíssima... sim, o Brasil tem grandes escritores. Leitura que acrescenta. Uma lição de vida.
Quase Memória é o produto de um sonho que Cony teve sobre seu pai, Ernesto, e o inspirou a voltar ao gênero que prometera abandonar (e o fez por 20 anos): o romance. Com esse livro, Cony declaradamente decide mesclar a ficção com suas memórias, o que explica o subtítulo. O livro basicamente é uma coleção desordenada das memórias de Cony com Ernesto enquanto analisa um embrulho recentemente feito por Ernesto e enviado para Cony, cerca de uma década depois do falecimento de Ernesto. Cada gesto, cada cheiro, cada traço de Ernesto parece ter sido permanentemente gravado na mente de Cony. Um pai cheio de truques e manias, que foi jornalista de profissão, mas chegou a instalar antenas, criar galinhas, moer cana, dentre outras atividades. A figura de Ernesto, ao longo do livro, se mostra algo entre um pai amoroso e cativante e um menino que jamais cresceu. E é nessa sinceridade com que Cony nos conta dos deslizes de seu pai, de suas manias, de seus casos e de sua certa insensibilidade com o filho que reside o charme do livro: Cony não criou um personagem, não o dotou de um arco narrativo, mas sim contou a sua própria história em pequenas migalhas de histórias do pai. Este livro não é sobre a superação de uma perda; o narrador, ao fim, percebe que o mundo que o rodeava também está partindo, como um dia ocorreu com seu pai. No fim, a figura magnânima de Ernesto me deixa uma impressão estranha. Uma figura que tinha uma pujança, uma vontade de viver e 'fazer coisas grandes', como viver e aproveitar a vida e seus pequenos prazeres, mas, ao mesmo tempo, parece ter no filho, com sua anuência, apenas uma plateia cobaia para seus truques e ideias, não dando-lhe o devido respeito e apreciação. Não tenho pai, propriamente dito, e portanto talvez essa estranheza com tal figura paternal nada mais seja do que um reflexo dos meus próprios olhos, assim como o Ernesto deste livro é um reflexo dos olhos de seu filho. Não sei se Cony sente algum rancor de Ernesto, nem se Ernesto foi um bom pai. Sei, apenas, que o amor que Ernesto pode dar a Cony o cativou e formou uma obra singela e sincera, que transborda de vida, com belas histórias sobre águas termais que nunca foram, criações de jacaré, perfumes fracassados. E talvez Ernesto de fato tenha feito uma grande coisa, coisa esta que de fato marcou o mundo: Carlos Heitor Cony.
Pelo que entendi esse é um dos livros queridinhos da literatura mais recente, entenda-se dos últimos 30 anos.
Eu li com muita vontade de gostar, porque o curador da TAG de setembro de 2017 afirmou que o livro tinha mudado a vida dele. Porém, a minha experiência com o livro não foi impactante positivamente. A história e a construção dos personagens são boas, no entanto, como li em um comentário do Goodreds, "homens não admiram mulheres, homens só admiram outros homens". Acrescento a esse certeiro comentário que "Quase Memória: Quase Romance" é um livro colonialista. Darei dois exemplos que passam quase desapercebidos:
1) Papel de seda sueco. Um dos eventos que mostrava mais proximidade do autor com o personagem "pai" era o fato de, no mês de junho, confeccionarem balões. A anedota começa com o autor sentindo "cheiro de coisa civilizada" porque o papel de seda utilizado para o balão era importado da Suécia. Em toda a história, o cheiro de "coisa civilizada" vai ser usado para se referir a tecidos, papéis, qualquer coisa que venha da Europa. Mais adiante, onde retoma a sua ida ao seminário, o autor vai se referir às suas batinas, feita em Roma, mais uma vez como, batinas que tinham cheiro de "coisa civilizada".
2) Cartão postal de Manaus. Uma das anedotas apresentada pelo autor é sobre uma fracassada viagem do "pai" para a Itália fascista. Depois não fica claro se o "pai" foi ou não para Itália (o autor deixa bem claro que foi mais de uma vez, inclusive). O fato é que o "pai" realizou uma linga viagem do Rio de Janeiro a Manaus, parando em quase todas (ou todas) as capitais, mas, tal viagem, merece algo menos que um parágrafo, em que o mais importante é o navio e o cartão postal.
Por fim, o livro é divertido, bem escrito, mas é machista e colonialista.
Existem tantos autores brasileiros bons, que às vezes me pergunto "como é que nunca ouvi falar nessa pessoa antes?". No caso de Carlos Heitor Cony - que eu sabia ser jornalista - foi quase o oposto. Eu sequer imaginava que ele havia escrito não um, mas uma dezena de livros de sucesso! Não sabia dos livros, nem que ele foi membro ativo da Academia Brasileira de Letras (até o começo deste ano, quando infelizmente faleceu) e muito menos de sua capacidade narrativa.
Mas como jornalista da velha guarda, dava para imaginar. Neste livro, Quase Memória, o autor conta uma espécie de autobiografia, uma espécie de romance, uma espécie de conto - daí o "quase" do título. Embora tente se encaixar em um único estilo, Cony flutua entre todos de maneira elegante e deliciosa. Os fatos misturam-se à ficção, e a única coisa da qual temos certeza, no final, é que não importa se os personagens e as situações não foram reais: Cony as fez sê-lo. O pai, protagonista inconteste, pode ter sido inventado ou não, e suas peripécias mais, mas o autor não deixa de transmitir uma infindável sensação de nostalgia e um quê de melancolia, que permanece com o leitor como o misterioso pacote permanece com ele.
É uma visita ao passado daquela família curiosa, de personagens muito reais (como a ditadura) e um retrato dos jornais, jornalistas e do Rio de Janeiro como não se lembra mais, nos idos dos anos 40 e 50. Leitura agradável, fácil e de uma descoberta daquelas que não tem mais volta: preciso ler mais de Cony - e assistir à adaptação pro cinema!
A pesar da escrita fluida e com dose certa de suspense e objetividade, considerando a proposta do livro, não foi uma leitura que conseguiu me prender ou me causar anseio para passar para o próximo capítulo... Talvez boa parte das minhas impressões negativas tenham advindo do fato de que esse livro não era o tipo de leitura que eu estava precisando do momento em que o li, ainda não cabia em mim. Acredito que o livro tem que conversar com o leitor em vários aspectos e nada se compara à uma leitura que seja exatamente aquilo que você precisa em um dado momento. A pesar dessa primeira impressão, realmente gostei da escrita de Cony, da forma como ele foi descamando memória por memória a partir de um fato inusitado, de como manteve o mistério envolto aos dois pacotes tão semelhantes que bem poderiam ser o mesmo, inclusive. Além da belíssima homenagem ao pai e à todas as suas peripécias. Por tais motivos, pretendo dar outra chance a este livro no futuro, quando o meu estado de espírito me permitir conversar melhor com essa leitura.
A idéia de uma pessoa receber um pacote de seu pai dez anos depois da morte deste é maravilhosa e serve como grande abertura para a coletânea de memórias que se desencadeiam através do livro. A linguagem como sempre acontece com Cony é direta e gostosa e neste livro em particular ele é lírico, poético e gentil. Mas faltou um travo, uma tensão que levasse esta leitora a apreciar com maior prazer a coletânea de crônicas. Faltou profundidade na análise do pai e certamente na análise deste filho em relação ao pai. Há horas de muito humor e de muita perspicácia na narração. O livro é um prazer de ler. Mas não precisa ser lido de uma tacada, de cabo a rabo, porque não há aquela tensão que faz com que se queira chegar ao fim. É simplesmente uma coletânea de crônicas belíssimas, poéticas mas superficiais que deixam de dar uma tridimensionalidade ao personagem principal -- o pai de Cony.
Esse é o terceiro livro de Cony que leio, e o melhor até agora. Não que a escrita dos outros fosse ruim, mas simplesmente porque fiquei com a impressão que nesse volume em particular o autor conseguiu se livrar de quaisquer amarras que antes o prendiam.
Quase Memória: Quase Romance é um título bem perspicaz pois mistura um tanto de biografia e ficção que tornam essa uma leitura singular. Lembra um pouco o realismo mágico de Marquez ou o regionalismo de Verissimo, mas com o seu próprio sabor.
Nesse livro, dá para sentir a saudade e admiração que Cony sente pelo pai, uma figura um tanto mitológica que povoa a cultura brasileira como o pai-de-famílias e inventor-de-gambiarras. É a figura galante e falastrona que todo mundo conhece. Aquele parente que está sempre metido em alguma nova empreitada.
Livro muito agradável de ler, quase um romance, quase uma coletânea de crônicas sobre a vida do pai (quase memória porque não necessariamente tudo é fato, algumas lembranças passaram a se confundir com as fantasias do pai). Cony reconstrói a imagem do pai através da crônica, mostrando a grandiosidade e heroísmo do pai em sua simplicidade e em suas peripécias. É um livro sobre infância, sobre a passagem do tempo, sobre relação de pai e filho, sobre saber envelhecer e viver.
O livro conseguiu me tirar algumas boas risadas, mas infelizmente não prendeu minha atenção na maioria do tempo. Apesar de eu ter amado o pai do Cony e ter me identificado com ele em alguns pontos, a escrita das histórias me foi desinteressante em alguns momentos. Contudo, ficaram as boas sensações de se ler um filho que escreve uma quase memória tão despretensiosa e cheia de carinho e pelo pai.
Um livro sobre saudades e como nossos pais acabam nos moldando pela semelhança ou oposição. Me marcou a sede de viver desse pai que foi tão importante, sem sair da sua anonimidade. Quantas pessoas não acabam passando pelo mundo, protagonizando histórias que nunca conheceremos?Gostei de conhecer essa história, embora o fim me deixou com uma certa frustração de querer saber mais.
Quase Memória é uma linda (quase) homenagem: à memória, ao passado, mas principalmente a um pai. E é uma delícia ler as peripécias desse pai que “amanhã faria grandes coisas”. Eu me peguei rindo alto diversas vezes. Um livro muito gostoso de ler.
Um livro que conta lembranças e saudades de uma maneira leve e alinhada com sentimentos. Leve de ler, engraçado, profundo e acolhedor. Os relatos acabam trazendo ao leitor um alerta para estar mais atento aos detalhes do que vive, pois são eles que irão marcar a história de cada um num futuro.