Uma mulher que toda a vida sonhou viajar arrisca-se a fazê-lo finalmente depois dos 50. E descobre-se completamente invisível…
Criada com dificuldades e habituada a férias de campismo, Ana sonhou toda a vida com viagens a sério; mas as ocupações que escolheu, o casamento, os filhos, o trabalho irregular, não lhe facilitaram a vida. Na verdade, foi só depois dos cinquenta que conseguiu respirar fundo, tirar um mês sem facturar, dispor de um pé-de-meia, fazer a mala e arriscar na aventura de um Interrail, tal como os estudantes no fim do Secundário.
Esta é, pois, a história de uma senhora de certa idade que resolveu controlar a ansiedade e os nervos, pôr uma mochila às costas, meter-se em vários comboios e testar as rodas do seu trólei nas lajes da Antiguidade e da modernidade de Itália. Não esperou por ninguém e partiu, ainda que com receio de se fartar de si própria (mesmo que para os outros fosse paradoxalmente quase invisível).
Não orou nem amou, mas comeu, bebeu e olhou com avidez tudo o que lhe apareceu pela frente, coisas e pessoas. Teve contratempos, claro, mas não chorou sobre o leite derramado até porque os aperitivos que experimentou eram bem coloridos e estimulantes. Apaixonou-se todos os dias, e todos os dias se exasperou com paixão. Andou muito. Escreveu muito. Cansou-se muito. e voltaria já amanhã.
Testemunho incrivelmente sincero e genuíno, A Turista Invisível não é só o relato de uma viagem há muito desejada, mas sobretudo uma jornada ao mais fundo de si que um ser humano pode fazer. E, ainda por cima, com um belo cenário.
Ana Saragoça, filha dos anos sessenta, de um pai terno e de uma mãe extremosa que não deixa os créditos por mãos alheias, cresceu, tal como a irmã, limpinha e asseada, bem-educada, bem alimentada e agasalhada e (sempre!) bem comportada, apesar de um forte pendor para a irreverência que se lhe adivinha desde as primeiras linhas deste livro e se aposta que existe naquela cabeça desde os primeiros anos de vida. Terá, pois, dado à mãe fortes razões para coleccionar «pérolas» suficientes para um colar com várias voltas e, agora, passa a herança à filha pré-adolescente e ao filho, já adolescente, com quem vive, em Lisboa. Embora por vezes tenha melhores resultados (como todas as mães sabem) a falar para as paredes, ou para os gatos que completam o agregado familiar... Para além do currículo materno-filial, é actriz, tradutora e escritora, tendo publicado, em 2012, um dos mais interessantes romances do ano literário: Todos os Dias São Meus. É também dramaturga, com duas peças levadas à cena recentemente, e colaboradora de várias revistas, e nomeadamente de uma que se chama Papel mas só existe on-line (o que pensará disto a mãe dela?).
Ana Saragoça é a turista invisível. Não uma turista convencional mas uma respeitosa visitante de meia idade, despercebida a quase toda a gente, que vê sem ser vista, numa imensa liberdade por onde queria ir - Itália. E este é o diário da sua viagem. Um diário que eu ansiava ler porque adoro a ironia e sarcasmo na escrita da Saragocita e neste livro, o destino.
O diário é maravilhoso, de uma honestidade humilde e ainda muito divertido. Uma corajosa viajante tem percalços, com o cartão de cidadão ou armadilhas para turistas mas é uma boa observadora que aprecia ou critica o que a rodeia e ainda assim reflete sobre muitos aspetos da sua vida. Partilho;
“O que admiro mesmo em Itália, como já admirei em Espanha - não é admirar, é invejar: a rede ferroviária.”
Não deixa de haver comparações com o que conhece mas não em demasia. A fealdade fica por conta do lixo mas a beleza já a ficção anunciou e a viagem confirmou. Palermo desiludiu, Calábria não cumpriu, Nápoles seduziu. E Roma… tanto que ver numas férias da vida. Como leitora fiz um interregno em boa companhia. Adorei pela proximidade.
Foi uma delícia ler este livro da Ana. Ler e estar a ouvi-la. Foram muitas as alturas que me apeteceu enviar-lhe uma mensagem a comentar qualquer coisa, sorri, ri, li coisas que me pareceram familiares vividas de outra maneira. Gosto muito da maneira de escrever da Ana, e algo tão pessoal é muito especial. Tenho a sorte de viajar bastante, e há coisas que acontecem tantos a viajantes experientes como aos menos; e também me apercebi que se calhar ao viajar tanto há coisas que já não vejo ou não aprecio - obrigada Ana por me fazeres pensar. ❤️