Em Sol de Limão, a autora Lady Sybylla apresenta uma ficção científica brasileira pulsante, eletrizante e profundamente humana que questiona as fronteiras éticas da ciência e os limites da tecnologia em nossa interação com a vida.
Letícia, carinhosamente conhecida como Leca, é uma ilustradora de 35 anos que vê sua realidade desmoronar ao receber uma notícia devastadora: o diagnóstico de Alzheimer precoce. Em uma São Paulo futurista e distópica, que ainda tenta curar as feridas de uma longa ditadura teocrática, Leca percebe que o seu cérebro vem se deteriorando a cada dia. As palavras e as cores ― que sempre foram seu porto seguro e sua ferramenta de trabalho ― começam gradativamente a escapar de sua mente.
O que parecia ser uma sentença definitiva de apagamento de sua identidade ganha contornos inesperados quando uma tecnologia experimental entra em cena de forma ilegal. Envolvida em uma conspiração tecnológica que mexe com segredos de Estado, Leca precisa equilibrar o conforto das memórias cotidianas e a frieza das linhas de código que agora correm por seu corpo.
Por meio de uma prosa que une rigor científico com uma sensibilidade tocante, Lady Sybylla convida o leitor a refletir sobre o papel da inteligência artificial, da bioética e da nanotecnologia na definição do que significa, afinal, existir. Sol de Limão é um thriller de ficção científica nacional indispensável, que nos leva aos limites da capacidade humana de aceitação perante o inevitável.
Frequentemente ouço de algumas pessoas a pergunta: por quê você lê Ficção Científica? Livros como Sol de Limão são pelo menos parte da resposta. Referências ao gênero estão espalhadas pela história. Mas não se trata apenas de referências ou metalinguagem. Mais do que isso, Lady Sybylla usa a FC como ferramenta, como uma lente para enxergar o mundo, uma linguagem para interagir com ele. A FC como forma de pensar o mundo permeia a narrativa. Logo no início, Leca recebe um diagnóstico de Alzheimer precoce. Nos primeiros capítulos, acompanhamos a gradual deterioração da memória dela de maneira sensível e detalhada. Mais à frente, ela será submetida a um tratamento experimental, que abre novas possibilidades mas também traz grandes riscos. A maneira como percebemos e sentimos essas transformações no cotidiano da protagonista lembra Flores para Algernon, de Daniel Keyes. A narrativa em primeira pessoa nos faz viver primeiramente o desespero da desconexão, e depois a euforia e o medo que surgem com a repentina revelação de uma nova visão de mundo. Leca luta para preservar a memória: lembrar quem ela é, lembrar das pessoas que ama. Mas Sol de Limão não trata apenas da memória pessoal, mas também da coletiva. Estamos num Brasil de um futuro próximo, recém saído de uma ditadura militar evangélica. As marcas da repressão estão vivas nas vidas das personagens. Algumas até participaram do aparelho repressor, mesmo que a contragosto, e têm que viver com a memória disso. Sybylla discute como a violência tem consequências a longo prazo, e como é fundamental manter a memória para evitar uma repetição. A perda da memória coloca a identidade, e com isso a humanidade, de Leca em perigo. Mas a hiperconexão após o tratamento também faz Leca correr o risco de se distanciar da humanidade. A tecnologia que inova também traz riscos, é por isso que a FC é necessária para navegar nesse mundo em transformação.
Eu já tinha lido e gostado de outras histórias da Lady Sybylla, achei tão legal ela ser publicada pela Aleph e a capa é tão linda, fiquei curiosa e então fui meio sem saber da história e caramba, me pegou de jeito. O mundo que ela criou aqui e como a Leca vai reagindo a tudo relacionado à doença, eu tinha que dar umas paradas porque parecia muito real. Leitura interessante e que faz refletir bastante, amei (descaralhada, 5 estrelas).
Eu gostei de sol de limão, mas me faltou algo pra história realmente ficar na minha cabeça. Achei a produção do audibook muito boa e conseguir me conectar bem com o ritmo da história. Senti um pouco de cansaço com os recortes de mídias "internas" dentro da história, porque elas me afastavam do texto principal. Esse é um tipo de artifício que eu tendo a não curtir muito na maior parte das vezes que é feito, então é algo bem pessoal. O assunto de inteligência artificial, desdobramentos dos avanços tecnologicos na área da saúde, governos ditatoriais, são todos bem atuais e relevantes, e é sempre legal encontrar uma história que tenha a cara do Brasil, e não seja uma americanização do país.