Quando os hóspedes de um hotel são personagens da história portuguesa em diversas épocas.
«Um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir. Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. Servimos os nossos hóspedes e damos-lhes a importância que merecem, ou que podem pagar. O resto pertence à justiça ou à igreja, não somos juízes nem padres. Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.»
Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue. Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de Se Eu Fosse Chão – diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas – contam histórias a quem as queira escutar.
Nuno Camarneiro nasceu em 1977. Natural da Figueira da Foz, licenciou-se em Engenharia Física pela Universidade de Coimbra, onde se dedicou à investigação durante alguns anos.
Foi membro do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) e do grupo musical Diabo a Sete, tendo ainda integrado a companhia teatral Bonifrates. Trabalhou no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) em Genebra e concluiu o doutoramento em Ciência Aplicada ao Património Cultural em Florença.
Em 2010 regressou a Portugal, sendo actualmente investigador na Universidade de Aveiro e professor do curso de Restauro na Universidade Portucalense do Porto. Começou por se dedicar à micronarrativa, tendo alguns dos seus contos sido publicados em colectâneas e revistas. “No Meu Peito não Cabem Pássaros” é a sua estreia no romance.
This book started by touching me less than the Author's previous ones, but then, as I plodded through it, it became more interesting. I especially loved the way in which the Author organized the book in function of the number of rooms and floors of the hotel, and the fact that he divides the three floors in function of different epochs (1928, 1956, 2015) and that the group of short stories for each floor always ends up with a short story centred in one of the hotel's employees... In the end, although some of the stories were a bit acid, there is no doubt that the Author can make incredible portraits and write with lucid criticism.
Os livros fazem-me pensar sobre o que li, sobre os locais onde me levaram, o que senti quando lá cheguei. Penso sobre o que se escreveu e imagino o modo como foi escrito. E, por vezes, leio livros em que o que não se escreve, o que não se diz também conta. Porque me oferece uma viagem diferente, em que participo, à boleia de tantos inícios e possibilidades. “Se eu fosse chão” é o meu livro preferido do Nuno. Chegada ao fim quis voltar ao início e experimentar todas as novas possibilidades de cada capítulo. Um livro pequeno, mas que na verdade nunca acaba.
"Se eu fosse chão" é uma obra que se lê de uma só vez. É passado no Palace Hotel, onde percorremos os seus quartos e conhecemos alguns dos seus peculiares hóspedes, através de curtas passagens sobre cada um deles. Algumas personagens são interessantes e o texto está muito bem escrito, no entanto, não consigo propriamente deslindar o propósito do livro nem o que ele me trouxe de novo. Foi uma leitura agradável e nada mais do que isso, daí as 3 estrelas. Fiquei, ainda assim, curiosa para ler mais deste autor.
Nunca tinha lido nada do autor e parece-me que este não é o livro certo para uma primeira apresentação. Gostei da maneira de escrever do Nuno, mas as pequenas histórias, na sua grande maioria, não me deixaram satisfeita, não por serem curtas, mas por deixarem demasiado a adivinhar, como se fossem páginas arrancadas de um livro maior ou contos inacabados (houve apenas umas poucas que achei bem conseguidas). E porque as histórias nunca se cruzam (algo que estava à espera que acontecesse, uma vez que se passam no mesmo hotel), ficou-me um sentimento de vazio, como se o livro, na sua totalidade, não fizesse sentido. Porém, fica o desejo de ler os romances do autor, porque como disse no princípio, gostei imenso da sua maneira de escrever.
"Tem apenas a companhia de gente morta, e os mortos fazem pouca companhia." - pág. 40 "Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um há-de ter a sua." - pág. 124
O autor tem uma capacidade extraordinária para colocar portas sucessivas num ambiente fechado. Essa característica atraiu-me quando li Debaixo de Algum Céu e voltou a conquistar-me nesta obra. Ainda assim, tenho de confessar que me ficou a faltar algo: talvez porque estivesse à espera que os protagonistas se encontrassem de alguma forma, em algum momento da narrativa. Mas isso nunca chegou a acontecer. No fundo, parece que funciona como um ponto de partida para imaginarmos o futuro destas pessoas, para lhes criarmos um rumo/sentido e uma série de memórias novas.
Se Eu Fosse Chão não me mudou a vida, mas não deixa de ser uma leitura agradável. Ademais, há uma sensação de proximidade, porque se foca na condição humana.
É o terceiro livro que eu leio desse escritor. Gosto muito de sua escrita. Nesse livro, cada capítulo tem 2 páginas e nos apresenta para cada um dos hóspedes de um hotel em Portugal. Ele escolheu 3 momentos no tempo: 1928, 1956 e 2015. E, em cada momento, ele descreve o que acontece em cada quarto e quem são os hóspedes. Achei interessante, porque eu já me perguntei, ao percorrer corredores de hotéis onde fiquei hospedada, quem ocupava cada quarto por trás daquelas portas fechadas. Existem histórias felizes, outras tristes, histórias de amor, de conspirações, de fim de relacionamento... Valeu a pena ler mais uma das obras desse escritor que eu admiro.
Mais uma vez bem escrito e com os capítulos curtos a que já nos habituou. Sobre um hotel e as várias histórias que se desenrolam nos quartos, deixa os temas em aberto e de alguma forma isso torna se interessante deixando a nossa mente a pensar no que aconteceu antes ou no que vai suceder depois. Os temas reflectem 3 épocas distintas, o inicio dos anos 20 , o meio dos anos 20 e depois já no inicio do século 21. Gostei bastante, por serem capítulos tão curtos e por serem mais tipo contos não dou as 5 estrelas.
“Os funcionários da Justiça deveriam ser obrigados a usar calções e meias até ao joelho, para que junca se esquecessem de que foram rapazes que sabiam correr.”
Nuno Camarneiro habituou-nos a histórias aparentemente banais, do dia-a-dia, que têm na base da sua vulgaridade a própria condição humana. Este livro não é excepção. Mantém também uma sensação de proximidade com as personagens. São quartos de um hotel, são histórias de gente que por lá passa, pequenos momentos... Entre amores e desamores, desesperos e suicídios, manias e obsessões, fragmentos de vida desenrolam-se sob o nosso olhar atento. Mais do que cada instante descrito a cada pequeno capítulo, interessa o que fica por contar: uma panóplia de oportunidades , de caminhos, que cada um de nós reinventará à sua vontade. A escrita é fluente e inteligente. A expectativa era alta e não desiludiu.
Reconheço ter precisado de um tempinho para "entrar", tanto mais que vou lendo várias coisas, e esta leitura exige uma grande contenção enquanto leitora - concentração máxima, máxima absorção... e bora mudar de quarto! Cada micro conto - novo espaço, novas vidas de passagem. Progressivamente fiquei presa... O Nuno escreve bem, dá o peso certo à frase, não há desperdícios narrativos.
Mesmo passado em três épocas, gosto da ideia que o espaço é assim um bocadinho "Grand Budapest Hotel" meets "Hotel Avenida Palace". Acho que nunca mais vou entrar num quarto sem lhe meter gente dentro. Curiosamente um dos meus textos favoritos foi "Um quarto vazio".
Que saudades daquela vez que li "No meu peito não cabem pássaros". Era isso que eu esperava encontrar aqui neste "Se eu fosse chão". Mas isso é quase impossível, bem sei.... É como encontrar, por acaso, num país estrangeiro uma pessoa conhecida e depois voltar a esse mesmo país passado vários anos, ir ao local onde se deu o encontro, e esperar vê-la lá sem combinar nada previamente. Digo que é quase impossível porque sem borges, sem pessoa e sem kafka, como acontece "No meu peito não cabem pássaros" as coisas tornam-se menos mágicas.
Voltando a este "Se eu fosse chão" acho que gostei mais dos trabalhadores do hotel do que propriamente dos hóspedes :)
Um hotel, 3 andares, 17 quartos por piso, 50 quartos ocupados. 50 mini-histórias de quartos ocupados, 4 mini-histórias de alguns trabalhadores do Hotel.
Os 3 andares dividem-se em três anos, o que leva o leitor a percorrer vagamente a história do país, pequenas histórias de leitura rápida. As minhas mini-histórias preferidas são Alexandre, ascensorista em 1928 (piso 1), A mulher que sobreviveu em 1956 (piso2) e a da Rita, camareira em 2015 (piso3).
Quando a expectativa com um autor é alta, como a minha era depois dos livros anteriores do Nuno Camaerneiro, a coisa tem tendência a não correr tão bem. Sendo que à partida não sou fã de histórias breves e isso não ajuda também, este livro acabou por ser uma pequena desilusão.
O estilo de escrita está lá todo e gosto mesmo muito! O problema é o resto.
Para mim, cada pequeno capítulo é, na realidade, um ponto de partida para muitas histórias possíveis. Se os quartos são a pequena parte da história das personagens que o autor nos fornece, então o hotel não é mais do que aquilo que nós criamos, na nossa imaginação, relativamente ao futuro e passado das personagens em questão. Gostei bastante.
Este é um Livro de Contos e que realmente nos faz pensar que há tanta coisa que se passa e tanta coisa que se desconhece atrás da porta de cada quarto de hotel, achei interessante a divisão das histórias pelas três diferentes épocas, sempre o mesmo hotel, mas as histórias foram ficando diferentes, mas muito similares. Leitura rápida, muito leve e agradável.