Ao terminar a leitura deste livro, fiquei convicta que a personagem principal do mesmo é a ilha Terceira, nos Açores, em sentido lato: os seus habitantes, as suas paisagens, a sua fauna e flora, o seu clima agreste e simultaneamente atractivo, as suas tradições, lendas e crendices, o seu isolamento, a sua história e a sua cultura em todas as vertentes, inclusive a gastronómica.
Nunca estive na ilha Terceira, apenas conheço São Miguel, mas o escritor Joel Neto consegue com uma mestria, resultante do amor que nutre pela sua terra natal, descrever de uma forma tão profunda e fotográfica a ilha e os seus habitantes, que parece que acabei de a visitar e de a conhecer, não como uma turista, mas como uma observadora que lá foi para a estudar.
Há autores que têm esse dom, fazer-nos viver noutros lugares e fazer-nos acreditar que aí estivemos, sem nunca lá termos ido.
É também um livro muito intimista, cujo enredo gira à volta de um professor universitário de História que regressa à ilha Terceira, com cerca de 45 anos, após de lá ter saído com apenas dez anos, a fim de se reencontrar, pois sente-se perdido e frustrado, como se a sua vida estivesse num impasse, em consequência de vários acontecimentos ocorridos durante trinta e cinco anos na cidade de Lisboa, onde passou a viver, que lhe causaram um sabor amargo a culpa, um dos sentimentos mais nefastos: o seu afastamento do pai, o seu divórcio, a incapacidade de se relacionar com o seu filho e de realizar a tese de doutoramento, o que poderia levar ao seu despedimento na Universidade onde leccionava.
No seu regresso aos Açores e no esforço que desenvolve em efectuar uma investigação científica sobre a origem dos seus primeiros habitantes, que estaria relacionada com a existência da Atlântida, a qual se poderia aí ter situado, vai fazendo várias descobertas, de que muito antes dos navegadores portugueses terem chegado a essas ilhas no século XV, há vestígios da sua ocupação por povos desde o Neolítico, com rituais que se perpetuam até ao presente.
E durante as suas pesquisas, vai revendo vários habitantes locais que com ele e com a sua família conviveram na infância, permitindo-lhe recuperar as memórias dessa época, algumas boas, como o amor que sentia pelo seu avô, e algumas más, como a sua incapacidade de sentir a terra a tremer, o que sucedeu quando ocorreu o terramoto de 1980 em algumas ilhas açorianas, bem como com o desaparecimento de uma amiga de infância.
Esse mistério relacionado com outras mortes que ocorreram durante várias décadas na ilha, confere ao livro uma certa faceta de policial, a juntar a todas as outras características do mesmo.
É, por isso, um livro muito ecléctico, original e criativo, e bastante diferente dos que costumo ler de outros autores portugueses.
Por último, refiro que o final é muito bom, porque decorre a uma velocidade cinematográfica, que nos impede de interromper a sua leitura, além de conter uma intensidade dramática invulgar.
Só não dei cinco estrelas a esta obra, pois achei-a demasiado longa, e a meio da mesma, a história parecia não avançar e era muito repetitiva, em parte porque José Artur Drumonde, o historiador, por ser tão indeciso, fez com que a narrativa girasse demasiado tempo em redor da sua incapacidade de revelar o seu amor a uma mulher por quem se apaixonou e andasse às voltas com a sua investigação, que também não saía do mesmo sítio.