Francisco Alvim, que tranqüilamente instalou-se no primeiro plano da literatura brasileira contemporânea, tem formas variadas de compor poesia. Uma delas é escrever "como se houvesse um microfone circulando", para usar a imagem de Roberto Schwarz. Nesta coletânea, por exemplo, um dos poemas intitula-se "Negócio" e seu único verso é este: "Depois a gente acerta". Um outro, "Debate", tem quatro versos: "eu quis colocar esse tipo de coisa/ mas então pensei/ mas meu deus do céu/ aí ele disse". Em "Mesmo?", são duas afirmações: "Vou ali/ Volto já". Todos eles parecem poemas sem autoria; criam temas, cenas e personagens, mas dão a impressão de que não foram pensados por ninguém, de que foram escritos pela própria língua portuguesa falada no Brasil. Com suas muita variantes, esse efeito de intimidade plena com a língua marca a alta poesia de Francisco Alvim, que o tempo todo nos faz ver, limpidamente, o sentido dos últimos versos de seu poema "Ventura": "Aventura humana e dura: a nenhuma aventura".
Francisco Soares Alvim Neto (Araxá MG 1938). Poeta e diplomata. Filho do advogado Fausto Figueira Soares Alvim e de Mercedes Costa Cruz Alvim, começa a escrever poemas ainda na adolescência, por influência da irmã, também poeta, Maria Ângela Alvim (1926 - 1959). Na juventude, vive períodos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, e, em 1953, acaba por se fixar no Rio. Ingressa na Faculdade de Direito da Universidade do Distrito Federal, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mas interrompe o curso em 1963, quando entra para o Instituto Rio Branco, e se forma no ano seguinte. Inicia a carreira diplomática em 1965, e três anos depois estreia em livro, com Sol dos Cegos, em 1968. Entre 1969 e 1971 atua como secretário da representação do Brasil na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, cidade onde escreve parte dos poemas de Passatempo, de 1974. De volta ao Brasil, integra-se ao grupo Frenesi, que constitui a primeira leva dos chamados "poetas marginais": Roberto Schwarz (1938), Cacaso (1944 - 1987), Chacal (1951) e Geraldo Carneiro (1952). Seus livros saem em edições artesanais até 1981, quando a editora Brasiliense lança a reunião deles em Passatempo e Outros Poemas. Pelo Itamaraty, atua como cônsul-geral do Brasil em Barcelona, Espanha, e em Roterdã, Holanda, e ainda como embaixador na Costa Rica. Sua obra O Elefante, publicada em 2000, é bem recebida pela crítica especializada.
Em Elefante, o poeta Francisco Alvim faz um raio-X da sociedade brasileira por meio de poesias (em sua maioria) curtas e cirúrgicas. Ex: “Parque // É bom /mas é muito misturado” (p 85)
Ou ainda: “Mas // É limpinha” (p. 93)
A outras ainda mais ácidas (uma delas chega a ser impressionante por encapsular anos de racismo sistêmico em tão poucas linhas) e escancaram o cinismo e o véu da civilidade que a classe média usa para se esconder. Nas palavras de Roberto Schwarz, “[na] grande tradição de Machado de Assis, o poeta conhece a ligação interna entre os opostos da sociedade brasileira e recusa as fixações estereotipadas.” Assim, Alvim coloca lado a lado estratos sociais em formas literárias tão contida, mas, ao mesmo tempo, explosiva.
Essa é a segunda vez que leio a coletânea, e, novamente, é uma leitura rápida, repleta de risos – muitos deles amarelos, pois, somos classe média, e estamos apanhando. O autor não se exclui disso, não se coloca como uma divindade iluminada que olha de cima para baixo por fora do processo social. Talvez exatamente por estar inserido é capaz de perceber coisas que só quem é de dentro percebe: “Negócio// Depois a gente acerta” (p.119) Resumido em 5 palavras o modo de pensar do brasileiro, o jogo de permissividade social que sempre nos pautou: depois a gente vê. O “depois a gente acerta” é a bola de neve dos problemas sistematicamente empurrados com a barriga. Típico do brasileiro. Por essas e por outras linhas, esse é um livro obrigatório.
O autor é um dos nomes principais da poesia marginal. Seus poemas são bem curtos e cheios de ironia. Há nele muita pressa, impessoalidade, certa dose de Oswald, e lembra um pouco a Leminski. Problematiza o cotidiano sempre de forma sintética e surpreende pela quantidade de experiência que acumula. É umas das poesias mais coloquiais que já li.
esperava bastante, já que muita gente que eu gosto me recomendou, mas não curti tanto. sinto que saio sem entender muito bem. mas teve belos momentos, como:
"Não roubo, não mato mesmo assim me pergunto se não faço algo de errado"