Joan Margarit i Consarnau, poeta en catalán, nació en Sanaüja (La Segarra,Lleida) en 1938.Ha publicado, en edición bilingüe con versiones en castellano del autor (excepto "Edat roja", dentro de ,versión de Antonio Jiménez Millán) los siguientes El primer frí Poesía 1975-1995 (2004), Estació de França (1999), Joana (2002), Cálculo de estructuras (2005), Casa de misericordia (2007). En el ámbito de la literatura catalana le han sido concedidos los Premios Miquel de Palol y Vicent Andrés Estellés de 1982, el premio Carles Riba de 1985, el Premio de la crítica Serra d'Or de 1982,1987 y 2007,el Premio Gabriel Ferrrater de 2007, el Premio Cavall Verd de 2008 y el Premi Nacional de Literatura de la Generalitat de Catalunya, también de 2008. En el ámbito del Estado Español le han concedido el Premio Nacional de la Crítica de 1984 y de 2008, el Premio Rosalía de Castro de 2008 y el Premio Nacional de Poesía, también de 2008.
NÃO DEITES FORA AS CARTAS DE AMOR Elas não te abandonarão. Passará o tempo, apagar-se-á o desejo - essa flecha de sombra – e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho. Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros. Decairás ainda mais e perderás até a poesia. O ruído frio da cidade nos vidros acabará por ser a tua única música, e as cartas de amor que tiveres guardado serão a tua última literatura.
Em boa hora a Língua Morta reeditou este livro do catalão Joan Margarit em parceria com a livraria Flâneur. Se gostam de poesia um pouco que seja, daquela que vos suga a alma e espeta o dedo no coração, não deixem que volte a esgotar sem lhe deitar a mão.
NÃO ESTAVA LONGE, NÃO ERA DIFÍCIL Chegou este tempo em que a vida perdida não magoa, em que a luxúria é uma luz inútil e a inveja se esquece. É um tempo de perdas prudentes, necessárias, não é um tempo de chegar mas de partir. O amor, agora, coincide por fim com a inteligência. Não estava longe, não era difícil. É um tempo que me deixa apenas o horizonte como medida da solidão. O tempo da tristeza protectora.
É realmente um mistério ser-se feliz quando se é confrontado com a velhice, com as recordações do passado e se perde uma filha pela segunda vez. “Misteriosamente Feliz” contém a poesia fúnebre mais pungente que já li, que muitas vezes me fez arder os olhos e dizer “já chega por hoje”. Não sou obviamente um homem de 82 anos órfão de filhos, mas nunca me senti tanto na pele de um deles como a ler estes poemas.
SAQUE Agora és outra. Como um vento do deserto, a morte sopra deixando-te o rosto seco pela morfina. Num voo rápido, passa uma andorinha atravessando, luzente, esta luz laranja da janela aberta do teu quarto. Com o teu voo talvez já tenhas chegado à clara varanda onde, no Verão, a tua voz alegre prateava o crepúsculo. Partiste e resta apenas este corpo devastado por um saque que amo como te amei a ti.
"Há tantas coisas que sentem a tua falta. Todos os dias estão cheios de instantes que esperam as mãos pequenas que, tantas vezes, seguram as minhas. Haveremos de acostumar-nos à tua ausência. Já passou um Verão sem os teus olhos e o mar também acabará por se habituar. A tua rua, durante muito tempo ainda, esperará em frente à tua porta, paciente, os teus passos. Não se cansará nunca de esperar: ninguém sabe esperar como uma rua. E eu estou estou cheio dessa vontade de ser tocado por ti, olhado por ti. E de que me digas o que fazer com a minha vida, enquanto os dias com chuva ou céu azul já vão organizando a solidão."
A Espera Joan Margarit
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O que mais me atraiu no livro pode ser um elemento de repulsa/reticência para outros leitores: adorei a dimensão da dor e a relação com a perda, ainda que por vezes tenham tornado a leitura insustentável. Fiz várias pausas ao longo destes meses, não o vou esconder, porque senti que precisava de respirar depois do contacto com as fissuras da alma que o autor tão cruamente* expõe.
Recomendo a leitura, e recomendo que seja feita de uma forma espaçada (nem acho que seja um livro que se preste muito a ser lido de modo voraz: a poeira precisa de assentar, é preciso tempo para mexer e remexer as cinzas).
(…) Isto explica também por que razão é tão reduzido o número de pessoas que habitualmente lêem poesia: para interpretar é necessário, reiterando o símile musical, ter familiaridade com o instrumento que, no caso da poesia, é a própria pessoa leitora, o seu passado, as suas esperanças, os seus desgostos, as suas frustrações.
Cheguei a ouvir como uivava um lobo no fundo de um bosque. E as codornizes gritando ocultas entre o trigo. Encontrei de noite os olhos das raposas. Vi os grandes abutres sobrevoar um mar de névoa. Mas nada terminou, e não sei de nenhuma perda. O que é que eu possuía? Não posso brincar com o medo, como quando era criança. Cheguei ao fundo do bosque de todas as histórias e sorrio, feliz por não ser jovem. Sabendo que, quando se abriu, uma fenda nunca mais se volta a fechar.
El pes del passat, la pèrdua inimaginable, el dol que s'enquista i et mutil.la mentre el present s'escorre, aigüera avall, i el futur s'esvaix amb els records d'una infantesa clara i desdibuixada a la vegada. Quants jos componen aquests versos? Quants tus i ells i nosaltres? La veu d'aquestes elegies som tots. Pot ser feliç un home que espera la mort mirant a través d'una finestra? Mentre escolta Mozart, llegeix Rilke i mira més enllà de la negror d'un mar tant magnètic com amenaçador? El tren ha passat i l'estació és buida. L'habitació de l'hotel és buida. Les ciutats han perdut el color. Margarit encisa. Aquest poemes distil.len un tristor insuportable. Una solitud que tots trobarem al final del camí, per molt que pretenguem caminar fins a l'infinit dels nostres dies. Però ell, tot i el silenci de les seves paraules, tot i la feixuga anyorança i melancolia, aconsegueix ser estranyament feliç. Quin èxit ha de ser, aconseguir ser feliç, en aquesta vida.
Poesia Como para Sísifo, a vida para mim é esta rocha. Carrego-a e conduzo-a até ao alto. Quando cai volto a apanhá-la e, tomando-a entre os braços, levanto-a outra vez. É uma forma de esperança. Penso que teria sido mais triste se não tivesse podido arrastar uma pedra sem outro motivo que não fosse o amor. Levá-la por amor até ao alto.
Trabalhos de amor O motivo tanto faz. É preciso procurar o que sobreviveu entre os restos. Poderíamos sentir-nos mais seguros, se os nossos sentimentos são territórios de fronteira perdidos, recuperados, outra vez perdidos? Porque amar não é apaixonar-se. É voltar a construir, uma e outra vez, o mesmo pátio para ouvir os melros quando na Primavera ainda é de noite.
Atrás dos vidros Partir é esta paixão que chega tarde. Que pode ser violenta. Somos parte de alguma música. Muda, e há que saber ouvir aonde nos leva. Ás vezes tem acertos misteriosos. Mas agora é uma música difícil. Abstracta e dissonante, impele-me a partir: é a sedução final da esperança.
"Como para Sísifo, a vida para mim é esta rocha. Carrego-a e conduzo-a até ao alto. Quando cai volto a buscá-la e, tomando-a entre os braços, levanto-a outra vez. É uma forma de esperança. Penso que teria sido mais triste se não tivesse podido arrastar uma pedra sem outro motivo que não fosse o amor. Levá-la por amor até ao alto."
"Estos poemas hablan de esperar, / porque el amor es siempre una cuestión / de las últimas páginas. / Ningún otro final podría estar / a la altura de tanta soledad" Joan Margarit
“Sentado num comboio olho a paisagem e de súbito, fugaz, passa uma vinha que é o lampejo de alguma verdade. Sair do comboio seria um erro porque então a vinha desapareceria. Amar é um lugar, e há sempre alguma coisa que mo revela: um telhado longínquo, a estante vazia de um director de orquestra, apenas com uma rosa, os músicos tocando sós. O teu quarto ao clarear o dia. E, como é obvio, o canto daqueles pássaros no cemitério, numa manhã de Junho. Amar é um lugar. Perdura no mais fundo: é donde vimos. E é o lugar onde vai ficando a vida.”