Ao longo da carreira de diretor de teatro, Meyerhold (1874 - 1940) pesquisou práticas e teorizou técnicas na estética definida por ele como Teatro de Convenção. Ator egresso do Teatro de Arte de Moscou encenado por Stanislavski, como diretor, Meyerhold rompeu o paradigma naturalista de seu antigo mestre. Da cena em cena, pelas vias do Teatro Antigo, da Commedia Dell'Arte, do "Balagan!" (Teatro de Feira), a sua tese sobre a biomecânica explorou a forma na plasticidade do gesto, na economia do movimento, e na musicalidade da atuação. Se para Stanislavski, técnica, conteúdo, e texto eram mais importantes, para Meyerhold dava-se primazia a forma, ao gesto e ao ritual. Antitético ao historicismo decorativo e arqueológico da cenografia naturalista, o Teatro de Convenção destacava os atores em painéis pintados ou tecidos neutros de baixo e alto-relevo. A composição impressionista, simbolista ou construtivista pertencia a cada cenário, nessa toada, a pintura pôde se desenvolver sob os aspectos da luz artificial e da luz noturna, assim, o materialismo abandonara o teatro russo enquanto as cores fundamentavam os figurinos na carga imagética e simbólica das cenografias. O papel camaleônico dos atores não visava a performance subjetiva e interior de uma máscara por personagem, Meyerhold propunha-lhes a complementação mercurial das máscaras gregas. Tragédia na comédia. Comédia na tragédia. Pelo estudo da pantomima, o ator desenvolvia sua performance objetivamente. Antípoda do teatro caixa, nos espetáculos, quebrava-se a quarta parede, rampas de acesso ligavam palco e plateia, nesse ínterim, o Teatro de Convenção era o espaço ritual popular convidativo por onde se criava novos quadros por contatos coletivos. Asas ao país das maravilhas!
Diretor teatral comunista e de vanguarda na Rússia do século XX, a partir da revolução de 1917, com mais de dez anos de pesquisa, Meyerhold tornou-se a figura teatral mais requisitada do leste europeu, poetas, dramaturgos, artistas plásticos, arquitetos participavam junto dessa proposta imaginativa e crítica desvinculada ao teatro da burguesia tradicional. Todavia, em pouco tempo, a crise chegou ao governo comunista, e as influências estrangeiras no teatro de Meyerhold não agradavam aos ignóbeis dirigentes do partido. Durante a ditadura stalinista, a perseguição levava artistas a prisão, ao trabalho forçado, ao suicídio, ao exílio, e ao fuzilamento. E na parede da execução sumária, pacífico ao enfrentar o pelotão, Meyerhold continuou sonhando num teatro livre. Ao parafraseá-lo, a arte é o meio e jamais será o fim. No livro, encontra-se artigos teóricos e práticos, diários, e resenhas teatrais de Meyerhold sobre a fase de transição da qual o teatro vivia naquele momento, desde 1905, tempo em que Stanislavski tinha lhe dado oportunidade de dirigir o anexo do Teatro de Arte de Moscou, o Teatro Estúdio. Hoje, há poucos registros do teatro de Meyerhold, a não ser um vídeo, pouquíssimas fotos, depoimentos pessoais de seus ex-alunos, e também, a palestra proferida por seu ex-discípulo, o cineasta Eiseinstein. Mesmo não deixando um método, Meyerhold acreditava que transformar a imaginação era o maior papel da arte.
(Yuri Ulrych)