Nestes contos, Julieta Monginho traz-nos uma prosa que desafia as sagradas regras da verosimilhança, no fio da navalha entre o onírico e o real mais cru. São textos que exploram a identidade, a memória familiar e a deslocação física e emocional, numa viagem do eu (onírico e real) para o mundo, depois para a memória e por fim pela procura.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1976-81), frequentou o Centro de Estudos Judiciários em 1983 e foi magistrada em Montemor-o-Novo entre 1985 e 1988, em Torres Vedras entre 1989 e 1994 e em Cascais, entre 1994 e 1998. É magistrada na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa. Publicou o seu primeiro romance, Juízo perfeito, em 1996. Colabora regularmente em revistas literárias e jurídicas. Foi Prémio Máxima de Literatura em 2000 com o romance À tua espera e, em 2009, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas 2008 pelo romance A terceira mãe.
[COMENTÁRIO] ⭐️⭐️⭐️⭐️ Cair e Levantar Julieta Monginho
"Ao princípio nem por isso. Naquela noite em que a mãe suspendeu o movimento hipnótico do folhear do livro e se pôs a mirar-me como se eu fosse uma escultura nova que alguém tivesse disposto no sofá - via-lhe os olhos percorrerem o espaco entre o meu cabelo e o meu pescoço como prisioneiros reconhecendo a cela que iriam habitar o resto da vida - a vaidade superou os primeiros sinais de desconforto."
*** Pequenos contos cheios de referẽncias que irradiam interesse no leitor. Gostei tanto de me passear por estas páginas e estórias. Gostei de me maravilhar com estas personagens breves em textos que nos encantam e nos obrigam a paragens para reflectir ou simplesmente apreciar!
*** "O mar estava raso nesse dia. Brilhava com o sol. Nem parecia Novembro. Despiu a camisola e pousou-a junto das sapatilhas. Pôs-se a entornar montinhos de areia sobre as calcas, os pés, a mão esquerda. A mão direita, uma ampulheta cansada de medir o tempo.
Abriu o livro, soprou uns grãos de areia que ocultavam a palavra "emoção", leu: "Era o começo da Primavera, que o empurrava para fora da cabana." A brisa ondulava as folhas separava-as e voltava a ligá-las, coreografia luminosa."