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A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

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A integração do negro na sociedade de classes (o legado da “raça branca”) de Florestan Fernandes, é um marco na sociologia brasileira em mais de um sentido. De um lado, é uma das teses mais famosas já apresentadas na USP (1964). De outro, é a consolidação de nosso maior sociólogo, assim como o pleno desenvolvimento de sua sociologia histórica (marca da “escola paulista”). Por fim, representa uma histórica virada crítica na auto-imagem do país, virada esta sintetizada na expressão “o mito da democracia racial” (título de um dos capítulos). A presente reedição é parte das Obras reunidas de Florestan Fernandes (coordenação Maria Arminda Nascimento Arruda), que vem mantendo essa obra fundamental acessível ao público em geral e a estudantes e professores em particular.

369 pages, Kindle Edition

First published January 1, 2008

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About the author

Florestan Fernandes

75 books49 followers
sociologist and politician.

He came from a poor family with his mother being a "washerwoman." In youth he took a series of odd jobs and had an erratic education until he attended the university in 1941. In 1945 he graduated and by 1964 was a full professor in sociology. In that same year he won the Prêmio Jabuti. In 1969 he fled to Canada for political reasons and began to teach at the University of Toronto. In 1973 he returned to Brazil and became involved in the Partido dos Trabalhadores. At 75 he died of an embolism.

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Profile Image for Lucas.
164 reviews33 followers
June 12, 2020
Eu aprendi uma vez que, quando nos dispomos a analisar uma contribuição intelectual do passado, há duas possibilidades de reconstrução. A "reconstrução racional" faz uso consciente de anacronismos, em outras palavras, analisa-se o passado tomando os parâmetros do presente como corretos. A "reconstrução histórica" tenta analisar uma obra ou um conjunto delas à luz do próprio período em que a obra foi produzida. Não há que se falar aqui em diferenças qualitativas entre essas duas abordagens, posto que se destinam a objetivos diferentes. Faço essa digressão para dizer que, na resenha abaixo, faço uso de uma reconstrução racional que, se por um lado comete injustiças ao autor e à sua época, tem a vantagem de ser pedagógica (e aqui preocupa-me a auto-pedagogia, em particular).

É difícil escapar à conclusão de que esse livro é racista. E é fácil ver o porquê. Seguindo a classificação proposta por Ibram X. Kendi, o pensamento racial pode assumir três formas, quais sejam, i) segregacionista, quando as disparidades socioeconômicas entre negros e brancos são atribuídas aos negros; ii) assimilacionista, quando essas disparidades são atribuídas tanto aos negros quanto ao racismo, expresso diretamente através de discriminação ou como fruto de aspectos estruturais de sociedades construídas a partir da clivagem racial; iii) anti-racista, quando apenas o último fator é levado em consideração. Como racismo é a ideia de que seres humanos podem ser divididos em grupos e seus comportamentos e outras características são definidas em larga medida pelo grupo racial a que pertencem, conclui-se que as duas primeiras ideologias são racistas.

Afirmei que visão de Fernandes sobre a questão racial no Brasil é essencialmente racista porque ela é assimilacionista. Isso porque o principal argumento do livro é que as desigualdades materiais que caracterizam brancos e negros no Brasil foram produzidas, em parte, pela incapacidade do negro de incorporar valores éticos próprios da sociedade capitalista. Sendo assim, em função de sua experiência com a escravidão, o negro desenvolveu uma sociopatia que o tornavam de fato inferior ao imigrante europeu e aos brasileiros brancos. Duvida? Leia as palavras do autor:


Faltava-lhe [ao negro] coragem para enfrentar ocupações degradantes, como os italianos que engraxavam sapatos, vendiam peixes e jornais etc.; não era suficientemente “industrioso” para fomentar a poupança, montando-a sobre uma miríade de privações aparentemente indecorosas, e para fazer dela um trampolim para o enriquecimento e o “sucesso”; carecia de meios para se lançar às pequenas ou às grandes especulações, que movimentavam os negócios comerciais, bancários, imobiliários e industriais; e, principalmente, não sentia o ferrete da ânsia de poder voltado para a acumulação da riqueza.


(o capítulo 1 e 2 do livro é basicamente só esse tipo de argumento.)

No afã natural de fazer concessões no debate na expectativa de que seu argumento ganhe ares de razoabilidade, Florestan se prestou a dar roupagem nova a antigos preconceitos, sem mudar seu conteúdo fundamental. Ao fim e ao cabo, executando-se o terceiro capítulo do livro em que o autor dedica-se a refutar o mito da democracia racial, o livro acaba servindo para perpetuar as antigas visões sobre a questão racial brasileira. Demonstrativo disso é o fato de que Fernandes classifica como essencialmente "verdadeira" o seguinte relato de uma brasileira branca de família tradicional:


Eu acho que os negros eram mais felizes no tempo da escravidão, especialmente quando tinham senhores bons. Tinham casa, roupa, comida, remédio e o trabalho não era tanto assim. Porque em geral os negros não têm cabeça para se dirigir sozinhos na vida. Veja por aí como eles estão!


***

A refutação da democracia racial, a que aludi anteriormente, consiste em argumentar que, em uma democracia, relações de heteronomia - dominação de um grupo pelo outro - não devem existir. O que viabiliza a persistência dessa forma de organização social é a precariedade material em que se encontra o grupo dominado. Ocorre que para que essa precariedade material seja superada é necessário que o grupo prejudicado possa agir como grupo de interesse na arena democrática. Mas o discurso da democracia racial, ao negar a legitimidade da atuação democrática desse grupo de interesse, contribui para perpetuar as desigualdades materiais.

O argumento é perfeito e dele decorre que no Brasil o movimento negro não é apenas necessário, como plenamente legítimo. Mas o que é mais importante é notar que essa refutação do mito da democracia racial não precisa do argumento desenvolvido na primeira parte do livro que, repito, é essencialmente racista.


Enfim, recomendo a leitura do livro se você estiver interessado na história do pensamento racial brasileiro. Se seu interesse é apenas entender racismo, recomendo ler produções intelectuais mais recentes.
Profile Image for Marcos Henrique Amaral.
125 reviews13 followers
February 24, 2019
A partir das reflexões contidas nas obras “A integração do negro na sociedade de classes” e “Brancos e negros em São Paulo”, podemos tentar sumarizar um problema central que aparece como força-motriz para a discussão em ambas as obras, a saber: qual é posição social do negro ― em relação ao branco ― no processo sócio-histórico marcado pela transição de uma sociedade de castas para uma sociedade de classes? [como se imbricam casta e classe na perpetuação do preconceito de cor?] O marco desta transação seria uma abolição “mal aplicada” e cujos efeitos seriam a manutenção da posição degradante do negro, agora no mundo dos brancos [De acordo com a terminologia de Florestan Fernandes, durante o regime escravista, brancos e negros compunham dois mundos distintos e inconciliáveis. A Abolição, a despeito de uma aparente fusão entre ambos os mundos, não se preocupa com um processo de reeducação/ readequação das populações não brancas para o novo regime, já marcado pelo capitalismo competitivo e pelo trabalho livre].

Com isto, o autor passa a problematizar as implicações da cor/ raça sobre a estrutura de classes, concluindo que ainda há ― no período de escrita da obra ― uma quase equivalência em relação à estratificação econômica do regime escravista, com brancos ocupando estratos superiores e não brancos [negros e mestiços] ocupando posições inferiores, sem condições de competir no mercado de mão de obra livre, recém-formado e preenchido substancialmente por imigrantes europeus brancos. Há, ainda, a reprodução das estratégias de separação entre brancos e negros, gestos, comportamentos, vocábulos, expressões, que externalizam a subsistência do preconceito de cor. O termo “negro” permanece sendo algo injurioso ou que ofenderia a pessoa a quem se aplicasse: “coitado, ele não tem culpa de ser negro”; “ele é negro, mas tem alma de branco”; “é negro, mas é melhor que muito branco”; “é negro, mas é melhor que muito branco”; “sou negro, mas não devo nada a ninguém”.

Nas palavras de Florestan Fernandes: (…) subsistia, portanto, uma desigualdade fundamental e irredutível, que facilitava e solicitava a preservação da antiga representação da personalidade-status do negro, elaborada pelos brancos e da autoconcepção de status e papeis, desenvolvida anteriormente pelos negros e mestiços. Em consequência, os ajustamentos que tendiam a eliminar o negro e o mestiço das oportunidades econômicas, das regalias políticas e das garantias sociais usufruídas pelos brancos se processava espontaneamente” (BNSP, p. 146)

Este processo sócio-histórico, a “abolição mal-aplicada”, deixa traços indeléveis na própria estrutura psicossocial da população negra: sentimento de “falta de preparo”, “timidez”, “medo”, tendências à subserviência elucidada pela expressão “ficar no seu lugar”. É em função desses efeitos psicossociais que, com a sua liberdade legal, a população negra ― pensada coletivamente ― operava uma forma de revolução muda, rejeitando qualquer trabalho que pudesse significar uma nova degradação de sua condição humana: “(…) projetadas para o interior da antiga plebe, constituiriam seu estrato inferior; ao mesmo tempo, sofriam restrições que não afetavam com a mesma gravidade o ‘braço nacional’ branco e lutavam com inibições internas específicas. As oportunidades de engajamento no trabalho agrícola ou urbano, por piores que fossem, soavam, para os brancos nacionais da plebe, como uma liberação econômica e social; algo que os lançava nas correntes das forças vivas e produtivas do país, arrancando-os da miséria social e moral anterior. Tais perspectivas, para o negro ou o mulato, equivaliam ou a uma nova degradação ou a ficar, praticamente, como antes. Ambas as consequências espezinhavam sua sensibilidade e seu senso moral, desmascarando por fim a verdadeira realidade: estavam tão longe quanto no passado recente de serem livres por inteiro, com segurança, prestígio e dignidade” (INSC, p. 65). A “nova” situação do negro, de igual desprestígio em relação à antiga, erige uma espécie de desilusão social entre a população negra.

Diante de tal diagnóstico, a questão que Florestan busca responder é: “o abolicionismo alimentava, de fato, ideais de emancipação das raças negras ou era um simples episódio da desagregação da ordem escravocrata-senhorial e da emergência, no seio dela, da ordem social capitalista?” (BNSP, p. 138). Naturalmente, a análise do autor envereda pelo segundo caminho, uma vez que ― segundo ele ― não há alteração real na estratificação social paulistana. A população não branca permanece na mesma situação de dependência econômica, sem poder beneficiar-se coletivamente com as novas oportunidades oferecidas pela renovação do sistema de trabalho e pela livre iniciativa. No texto “Sociologia numa era de revolução social” ele retoma o tema da mudança social, ressaltando as suas possibilidade de insucesso: “A mudança social não é um bem em si mesma e ela pode produzir efeitos negativos irreparáveis, se as opções coletivas em jogo não elevarem à esfera da consciência social o que se pretende conseguir por seu intermédio” (SERS, p. 219).

Para Florestan, o preconceito de cor subsiste na sociedade de classes, porém não mais com função de separação imediata entre dois mundos ― o dos brancos e o dos negros ―, mas sim como um dificultador na concorrência econômica social e cultura, concluindo, enfim, que “é possível que o preconceito de cor encontre na sociedade de classes condições estruturais favoráveis à sua perpetuação” (BNSP, p. 153).

Nas palavras de Fernando Henrique Cardoso: “(…) Florestan ressaltou que na nova sociedade, apesar de a cor deixar de ter a antiga significação classificatória imediata, tanto o preconceito quanto a discriminação continuavam a existir. Isso embora a contraposição automática de negro e escravo deixasse de ter equivalência numa sociedade na qual patrões, empregados e operários não se distinguissem racialmente como no passado, quando os senhores se distinguiam dos escravos e libertos pela cor. Como não houve a integração imediata do negro liberto e de seus descendentes ao mercado de trabalho, eles se mantiveram em posições sociais de franca inferioridade, semelhantes às ocupadas anteriormente. Assim, as diferenças raciais continuaram a expressar inferioridade social, mantendo-se os preconceitos e as discriminações, embora com as novas funções sociais de os afastar ou prejudicar na concorrência econômica, social e cultural.”


O PROBLEMA DA INADEQUAÇÃO DO EX-ESCRAVO [E DO IMIGRANTE EUROPEU COMO “AGENTE NATURAL” DO TRABALHO LIVRE]:
Na obra “A integração do negro na sociedade de classes”, Florestan Fernandes lança uma de suas teses mais polêmicas, referente à inadequação dos negros e mestiços para o regime de trabalho livre como justificativa para a sua não absorção imediata no mercado de trabalho. Como evidência empírica, ele retoma a competição com o imigrante europeu que, distintamente no negro recém elevado à condição de cidadão, não temia a degradação de determinadas ocupações ― que, como vimos, teriam sido rejeitadas pelo negro numa forma de “revolução muda”. Ademais, entendia-se ― talvez em função de um forte ideário eurocêntrico que busca “europeizar” a cidade de São Paulo ― que o imigrante seria o agente natural do trabalho livre. Neste quadro de representações, o negro era tomado em função de supostas irracionalidade, irregularidade e inconstância para o trabalho; traços forjados no bojo do regime escravista e persistentes no novo regime. Por outro lado, o imigrante era representado como o agente humano já educado, na Europa, para lidar com trabalho livre, sistemático e racional, regido por termos exclusivamente mercantis. Com isto, Florestan Fernandes retoma a ambivalência formada por tradição e modernidade que seriam personificadas, respectivamente, por negros e brancos: a repulsa ao negro seria equivalente à negação dos resquícios do regime senhorial-escravista; enquanto a absorção dos imigrantes brancos comporia, juntamente àquela rejeição primeira, face fundamental do processo de modernização brasileiro.
Mais uma vez, ele não se furta de criticar os moldes de nosso abolicionismo que teria largado o negro “ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano, criados pelo advento do trabalho livre” (INSC, p. 35). Ora, inadequado ao novo regime, ele não se vê em condições de competitividade em relação à mão-de-obra imigrante, esta supostamente melhor preparada de acordo com os novos padrões, além de disposta a ocupar as posições mais degradantes desse mercado de trabalho, agora rejeitadas pelo negro que busca se afastar de seu passado de mera subalternidade. A população negra e mestiça é, então, preterida; enquanto a população imigrante é absorvida como força-motriz do novo regime. Há, como cenário fundamental nessa substituição, para além da estrutura psicossocial do negro ― de inadequação estrutural às novas formas de trabalho ― ou da aptidão quase natural do branco para o novo regime ― uma ideologia de embranquecimento: o elemento branco surge como elemento civilizador, em contraposição à incivilidade dos ex-escravos. Não obstante, os poucos negros e mestiços que “ensaiam uma ascensão social” na sociedade de classes, os fazem pela proximidade com o mundo dos brancos: são os “negros de alma branca” [não se pode falar de “ascensão social” real. Trata-se muito mais de “infiltrações”, “gotas negras que passam lentamente pelo filtro nas mãos do branco”]. Em última instância, os negros “bem-sucedidos” no novo regime são aqueles que conseguem adequar-se ao padrão civilizatório do mundo dos brancos, adotando comportamentos, cultura e toda estirpe de hábitos que aprendem em função de alguma proximidade com o elemento branco ― proximidade típica do negro da casa grande. Embranquece-se para integrar-se.


CRÍTICAS:
Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, autor do prefácio da obra, não se furta a elencar a tese da inadequação [ou da auto-exclusão] como um dos pontos falhos da obra. Aponta, a partir de outras pesquisas sobre o mesmo tema, que não só tal inadequação é insustentável sob viés empírico, como também ela oculta a força das teorias racistas neste processo de exclusão do negro. “Lilia Schwarcz enfatizou o modo como as teorias racistas do final do século XIX foram eficientes em tecer o senso comum cotidiano que permitiram a substituição do negro e do mulato pelo imigrante europeu; George Andrews mostrou muitas evidências de como a preferência pelos imigrantes foi sistemática e não dependeu de habilidades ou de adequadas personalidades-status dos imigrantes. Argumentou, ademais, que o negro brasileiro, no final do século XIX, não estava despreparado para a liberdade. Carlos Hasenbalg salientou que o capitalismo industrial nem mesmo prescinde do racismo que Florestan acreditava ter sido herdado da ordem escravocrata” (Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, INSC, pp. 14-15).


QUESTÕES QUE SURGEM A PARTIR DA LEITURA DA OBRA:
(1) Ora, se é necessário reeducar os ex-escravos, ainda apegados à tradição do antigo regime, por que o mesmo não é válido para o “mundo dos brancos” que foi igualmente forjado, durante séculos, no regime escravista? [o branco e a cultura branca parecem naturalmente adaptados e adaptáveis].
(2) E as relações de forças que aí se estabelecem, no sentido de afirmação da cultura branca e rejeição da cultura negra, resumem-se estritamente a caracteres econômicos de adequação e inadequação ao “novo regime”?
(3) Se a “rejeição do negro” no mercado do trabalho seria, como ele postula, a rejeição da tradição escravista, não seria o caso de rejeitar vários outros elementos constitutivos da cultura branca [inclusive os mandonismos dos senhores que são convertidos, na discussão de Florestan, em um dos principais agentes de nossa revolução burguesa]?
(4) Pode-se de fato falar dos negros como população inapta à auto-organização, de ideário e aspirações difusas, enquanto a população branca seria sua contrapartida, em função da capacidade intelectual e prática para organizar-se coletivamente? [parece ir na contramão de outros autores, que postulam o isolamento e o privatismo da população por inteiro, incluindo senhores]


QUAL SERIA A SOLUÇÃO PARA A INTEGRAÇÃO DO NEGRO?
(…) a transição precisava se operar como um processo histórico-social: o negro deveria antes ser assimilado à sociedade de classes, para depois ajustar-se às novas condições de trabalho e ao novo status econômico-político que adquiriria na sociedade brasileira. (Fernando Henrique Cardoso)

A solução para o problema da não integração da população negra passa pela educação dos negros para que estes se adequem à nova realidade, ao regime de trabalho livre. O grande problema apontado pelo autor é precisamente a abolição mal aplicada, que deixa a população de cor abandonada a seu próprio destino, sem qualquer preparação psicodinâmica para a ordem competitiva. Cria-se, com isto, uma cidadania incompleta que somente seria superada a partir da educação dos ex-escravos, um processo lento de readequação do agente do trabalho escravo para agente do trabalho livre. Educação para criar um novo ethos ― o ethos “civilizado” ― entre os escravos. Esse processo de aquisição de uma cidadania plena corresponderia a uma segunda abolição, ideia que o aproxima das discussões de Joaquim Nabuco: a abolição “mal aplicada”, que limita-se ao seu âmbito jurídico, necessita do reforço prático de construção de um novo ethos via educação.
(…) questão educacional, um dos vetores de modernização das relações sociais. (…) encontrar insumos para combater o "universo mental" que hoje parece estar satisfeito com os limites de uma "cidadania restrita" e de uma "democracia como estilo", padrão cultural que, caso permaneça hegemônico, irá perpetuar as desigualdades sociais, as condições indignas de vida e a ignorância pública - efeitos diretos da falta de oportunidades educacionais e do incremento da apropriação privada do conhecimento produzido socialmente (Florestan Fernandes).
Profile Image for Ronaldo Lima.
168 reviews4 followers
July 2, 2021
Sem dúvidas uma obra monumental de Florestan onde ele destrincha as hipocrisias brasileiras em relação a situação do negro, desmistifica a ideia de democracia racial, traz exemplos da situação do negro, abre portas de uma nova sociologia, sem dúvidas um livro marcante e importantíssimo.

O que podemos questionar do posicionamento do autor é que a sua percepção sobre a raça negra parte de uma perspectiva fatalista da sua condição. No sentido de que pelo que nos é colocado no texto parece que o negro muito pouco teve de agenciamento em todo esse processo de formação da estrutura racista da sociedade paulistana. Ele, é sempre objeto, um joguete de uma estrutura muito maior. Quando confrontado com outros autores como Abdias do Nascimento ou Clóvis Moura pode-se observar essas contradições da obra de Florestan.
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