“Uma Mentira Mil Vezes Repetida” foi a primeira obra que li de Manuel Jorge Marmelo. Não sabia absolutamente nada sobre o autor quando o adquiri mas o título do romance e o seu interessante conceito captaram-me a atenção. Consequentemente li o romance sem qualquer tipo de ideias pré-concebidas do autor e da sua obra. O seu conceito é bastante interessante – um narrador não identificado pretende alcançar glória e fama assegurando aos utentes dos transportes públicos nos quais viaja durante o dia inteiro que o grosso volume que transporta consigo para todo o lado e que finge ler compenetradamente é uma raríssima edição de “Cidade Conquistada”, uma obra da qual diz existirem apenas poucas cópias mas que é, apesar disso, unanimemente considerada pelo reduzido numero de pessoas que tiveram a oportunidade de a ler como sendo uma das mais brilhantes obras europeias alguma vez publicadas. No entanto, não só tal monumental obra nunca foi escrita como também o seu hipotético autor, Oscar Schidinski, nunca existiu sequer, assim como são inventadas pelo próprio narrador as personagens e histórias que este diz conter “Cidade Conquistada”. O narrador passa então os dias a viajar pelos transportes públicos a inventar factos relativos á vida e obra do autor fictício de “Cidade Conquistada”, assim como a relatar episódios da obra inexistente a todos os passageiros que demonstrarem o mais ténue interesse pelo volume que transporta consigo. Tinham-se aqui os ingredientes necessários para um romance interessante mas a execução desta boa ideia deixa um pouco a desejar.
A primeira parte do romance é interessante. Debruça-se de uma forma divertida e relativamente inventiva sobre as dificuldades inerentes ao ofício de escritor, sobre a solidão não-assumida que efectivamente sente o narrador e sobre os contornos meta ficcionais que o romance tem, não obstante depender demasiado das referências literárias que aponta constantemente. No entanto, á medida que a narrativa progride (se é que se pode utilizar tal expressão pois ela virtualmente não progride de todo, o romance é consistido, até a praticamente as suas ultimas páginas, por apenas uma série de fabricações e invenções do narrador) torna-se algo repetitivo e desinteressante – o romance acaba por se tornar no seu todo pouco mais do que um compêndio de histórias e biografias marginalmente interessantes populada por personagens pobremente desenvolvidas e caracterizadas. Manuel Jorge Marmelo tem no narrador e nos vultos da literatura que constantemente referencia os bodes expiatórios perfeitos para justificar a falta de caracterização e desenvolvimento de que padece “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”. Realismo Mágico, Pós-Modernismo, Fantasia, Meta-ficção – todos estes géneros e muitos outros coexistem entre si neste romance, mas em formas tão rudimentares e por vezes, pouco inspiradas que se tornam redundantes e pouco originais (há inclusive menção de um individuo que faz musica com os seus traques – algo que se me afigurou ridículo e pouco criativo).
A mais óbvia e assumida influência literária no livro é a de Jorge Luís Borges. Mas há outra escritor que influencia consideravelmente esta obra sem que Marmelo o mencione senão de passagem e mais para o fim da obra. Refiro-me a Roberto Bolãno. “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” é muito mais influenciado por Bolãno do que por Borges, (ainda que de forma menos óbvia) a começar pelo título, que se refere á afirmação de Goebbels de que “uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”. È bem sabido para qualquer pessoa que tenha lido Bolãno que este debruça-se frequentemente sobre os perigos do extremismo político e, em particular, sobre as suas expressões mais horríveis e perigosas até á data: O Nazismo e o Fascismo. Marmelo fá-lo também neste romance, abordando o perigo que existe nas nações entregarem-se ao ódio ás nações e religião muçulmana, demonstrando através de recortes de noticias o quão os argumentos utilizados contra a religião e nação muçulmana são perigosamente perto dos utilizados para justificar a perseguição aos judeus pelo nazismo. Os mesmo recortes de jornal demonstram que o fogo do ódio e violência inerente no ser humano é facilmente conflagrado, especialmente se se recorrer a uma politica e discurso baseado no medo de outras nações e culturas, algo que infelizmente é levado a cabo por demasiados governantes de demasiados países. Tem de facto sido frequentemente alimentado ultimamente o medo e desconfiança em relação aos estrangeiros, em particular muçulmanos, ao ponto de grupos de extrema-direita terem ultimamente apresentado um alarmante crescimento em número e militantes.
O facto de se criar uma biografia falsa de um misterioso autor fictício de quem se sabe muito pouco é também uma característica bastante “Bolãnesca”. A forma como é construída a biografia de Oscar Schidinski trazem vivamente á memória o modo como constrói Bolãno a de Archimboldi, o autor germânico de "2666" e mais ainda, a obra “Literatura Nazi Nas Américas”, que consiste inteiramente de biografias e bibliografias falsas de autores inexistentes.
“Uma Mentira Mil Vezes Repetida” termina de uma forma bastante desapontante e apressada – nas últimas cinco ou seis páginas do romance aparece-lhe do nada um interesse romântico que poderá ser uma invenção do narrador (embora tal não mo pareça) e que, a ser real, poderá salvar o narrador da solidão e tristeza que este recusara até então admitir existir na sua vida, exercendo-se um igualmente apressado e pouco desenvolvido paradoxo entre a vida e a obra de Oscar Schidinski e a do narrador. Isto, volto a salientar, em apenas em cinco ou seis páginas.
Em ultima analise, acaba por ser desapontante a forma como veio a ser executada o que era uma boa ideia do autor e que poderia ter dado origem a um tremendo romance.