Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Antologia Poética de Miguel Torga EXCERTO "Querido Leitor: Gostaria de conversar contigo alguns momentos no pórtico desta antologia. Para já, quero que saibas que hesitei muito antes de me decidir a organizá-la. Perguntava a mim mesmo se seria legítimo desirmanar cada um dos poemas que nela agora figuram dos outros com que emparelham em livros entendidos como unidades redondas. Temia, além disso, a precariedade do critério que os escolhesse. Nem sempre um autor é bom juiz em causa própria. […] Mas como a minha vida é um extenso rol de perplexidades e nunca saí de nenhuma em perfeita paz de espírito, resolvi averbar à conta mais uma parcela e levar a empresa por diante. É que, contra todas as razões, seduzia-me a perspectiva de reviver o longo caminho órfico que iniciei às cegas, calcorreei a tactear e estou em vias de concluir de olhos abertos, no espanto de quem vê finalmente, a plena luz, a fundura dos abismos a que desceu."
Miguel Torga, pseudonym of Adolfo Correia da Rocha was one of the greatest Portuguese writers of the 20th century. He wrote poetry, short stories, theater and a 16 volume diary.
He was born in a village in Trás-os-Montes, northern Portugal, to small-time farmer parents. After a short spell as student in a catholic seminary in Lamego, also in Trás-os-Montes, in 1920 his father sent him to Brazil where he worked on the coffee plantation of an uncle who, finding him to be a clever student, paid his high school there and afterwards his medicine graduation (1933) at the University of Coimbra, in Portugal (to where he returns in 1925).
After graduation he worked in his village and in other places in the country, publishing his books from his own pocket for a number of years. In 1941, he established himself as an otolaryngologist physician in Coimbra. His agnostic beliefs seems to reflect in his work, that deals mainly with the nobility of the human condition in a beautiful but ruthless world where God is absent or is nothing but a passive and silent, indiferent creator.
After the value of his work was being recognized, he went on to receive several awards, as the Prémio Camões in 1989 and the Montaigne award in 1981. He was several times nominated for the Nobel Prize of Literature, being the last one in 1994, but he never won.
São tantos e tão bonitos que eleger só um revelou-se árduo. Usei o infalivel método de abrir o livro à toa e sejaoquedeusquiser. Mas não resisti e juntei mais um.
FICHA
Poeta, sim, poeta... É o meu nome. Um nome de baptismo Sem padrinhos... O nome do meu próprio nascimento... O nome que ouvi sempre nos caminhos Por onde me levava o sofrimento...
Poeta, sem mais nada. Sem nenhum apelido. Um nome temerário, Que enfrenta, solitário, A solidão. Uma estranha mistura De praga e de gemido à mesma altura. O eco de uma surda vibração.
Poeta, como santo, ou assassino, ou rei. Condição, Profissão, Identidade, Numa palavra só, velha e sagrada, Pela mão do destino, sem piedade, Na minha própria carne tatuada.
DEPOIMENTO
Deponho no processo do meu crime. (Sou testemunha E réu E vítima E juiz). Juro Que havia um muro, E na face do muro uma palavra a giz. Merda!_lembro-me bem. _Crianças..._ disse alguém Que ia a passar. Mas voltei novamente a soletrar O vocábulo indecente, E de repente, Como quem adivinha, Numa tristeza já de penitente, Vi que a letra era minha...
Ia escrever o quão brilhante é esta Antologia Poética e o quanto me tinha impressionado. Ia exaltar o facto de praticamente cada poema me fazer pensar que Miguel Torga foi um dos maiores génios que alguma vez pisou este solo. Mas deixo-vos com as palavras do próprio e, a meu ver, um hino ao que foi a sua poesia.
“Canta, poeta , canta! Violenta o silêncio conformado. Cega com outra luz a luz do dia. Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma a sua rebeldia.”
Remendo o coração, como a andorinha remenda o ninho onde foi feliz. Artes que o instinto sabe ou adivinha... Mas fico a olhar depois a cicatriz.
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Arquivo
Tão baço o teu retrato no álbum da lembrança! Que vaga semelhança entre a imagem que vejo e a dor que sinto! Minto se te disser que te desejo ainda, que o meu instinto te reconhece e quer. E sei que um dia me perdi em ti como se perde o homem na mulher,
Torga é magistral! Sente-se, em cada verso, uma dor desmesurada - e mais ainda quando a derradeira hora se avizinha-, uma melancolia penetrante, e um sonho de ser eterno - parece doer-lhe mais por se saber finito. Mesmo quando o poema não nos fala directamente, ainda assim, há um sussurro leve no nosso ouvido, onde, sem querer, a pele se arrepia.
O ambiente bucólico desenhado pelo poeta, tão característico dessa mundividência serrana portuguesa, relembra-nos outra idade, outros dias. Aqui me foi possível imaginar o céu incerto dos seus versos e, ocasionalmente, reencontrar velhos amigos que me acenavam, talvez querendo saber se há data marcada para o reencontro.
Absolutamente fascinante o modo como a dor é cantada e tornada numa obra de arte...
Brinca enquanto souberes! Tudo o que é bom e belo Se desaprende... A vida compra e vende A perdição. Alheado e feliz, Brinca no mundo da imaginação, Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente Como um bicho! Fura os olhos do tempo, E à volta do seu pasmo alvar De cabra-cega tonta, A saltar e a correr, Desafronta O adulto que hás-de ser!
Não amas, e não podes Ler o livro da vida. Sem amor nenhuns olhos são videntes. A tarde triste é o sol que não consentes Ao coração. Mundo de solidão, O que atravessas, É um deserto habitado Onde apenas tropeças Na sombra do teu eu desencantado.
(A voz de satanas ja nesse tempo Era humana e natural...) Deixou de ser um mundo e foi um outro. Foi a inocência perdida E a minha voz acordada... Foi a fome, a peste e a guerra. Foi a terra Sem mais nada. Depois, Sem dó nem piedade a vida começou... Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo E, ao ver que eu era homem, Corou…
A minha vida é uma cena triste, Dessas que se fazem numa praça Por causa duma mulher... Todos passam, todos olham E sorriem da paixão... Mas o namorado insiste: — Minha Senhora, responda: Sim ou não! Sim ou não! Ah! mas a Senhora não responde! Porque não é resposta aquela esperança Dada num vago talvez... E o pobre pobre-diabo Leva a mão ao coração E diz: — Minha Senhora, Mate-me duma vez... A minha vida é isso e muito mais, Em direcção às cartas e aos sinais De aprender a namorar. Foi tudo colhido em mim, Porque eu sou um pobre Adão A começar...
A alota Ao fim Dos nove meses do prazo, Que era lógico e seguro Ouvir cantar as sereias Sem fazer caso... Ah! mas isso é que não! Ninguém se iluda! Ninguém pense que vou desanimar! Não, senhor: A Sagrada Teologia Previu isto e muito mais... Deus lá sabe As linhas com que me cose... Deus lá sabe Se para meu sumo bem Terá de aumentar a dose...
A jovem deusa passa Com véus discretos sobre a virgindade; Olha e não olha, como a mocidade; E um jovem deus pressente aquela graça. Depois, a vide do desejo enlaça Numa só volta a dupla divindade; E os jovens deuses abrem-se à verdade, Sedentos de beber na mesma taça. É um vinho amargo que lhes cresta a boca; Um condão vago que os desperta e toca De humana e dolorosa consciência. E abraçam-se de novo, já sem asas. Homens apenas. Vivos como brasas, 1 queimar o que resta da inocência.
Velha lua... Prostituta podre e nua À porta do seu bordel... Muda as rugas da face, Mas a velhice renasce Do musgo da tua pele! Bem sei que na fase nova Podes ter um namorado... Uma ilusão que te prova Como a um fruto da renova De um pomar que foi podado... Remendos de mocidade. Lume que acende e não dura. Não regressa a virgindade A quem, corrupto, a procura. Mas tens ainda maneira De te salvar, velha amiga: É morrer numa fogueira De ironia verdadeira Que algum Poeta te diga...
Sobre a ponte insegura é que é passar! Fica o rio a correr dentro das veias. Quanta angústia levar, Quantas areias De oiro Ou de ilusão, É como se nos fossem afogar A inquietação. Arcos de ferro ou de granito E sólidos soalhos de varanda Não me parecem piso de quem anda A descobrir as formas imprecisas Desta humana aventura. Só de credo na boca vale a pena Olhar a vida, que da sepultura Nos acena.
O que eu espero, não vem. Mas ficas tu, leitor, encarregado De receber o sonho. Abre-lhe os braços, como se chegasse O teu pai, do Brasil, A tua mãe, do céu, O teu melhor amigo, da cadeia. Abre-lhe os braços como se quisesses Abarcar toda a luz que te rodeia. Não lhe perguntes por que tardou tanto E não chegou a tempo de me ver. Uns têm a sina de sonhar a vida, Outros de a colher.
É contra mim que luto. Não tenho outro inimigo. O que penso, O que sinto, O que digo E o que faço, É que pede castigo E desespera a lança no meu braço. Absurda aliança De criança E adulto, O que sou é um insulto Ao que não sou; E combato esse vulto Que à traição me invadiu e me ocupou. Infeliz com loucura e sem loucura, Peço à vida outra vida, outra aventura, Outro incerto destino. Não me dou por vencido, Nem convencido. E agrido em mim o homem e o menino.
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti, como de mim. Perde-se a vida, a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar... (Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar O velho paraíso Que perdemos.) Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura... Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.
Ardia em brasa o Castelo, Tinha febre o casario; Cada vez mais nosso e belo, O profeta do Restelo Punha as sombras num navio... Nas casas da Mouraria, Doirada, a prostituição Era só melancolia; Só longínqua nostalgia De amor e navegação. Os heróis verdes da História Tinham tons de humanidade; No bronze da sua glória Avivava-se a memória Do preço da eternidade. Nas ruas e avenidas, Enluaradas de espanto, Penavam, passavam vidas, Mas espectrais, diluídas Na cor maciça do encanto. E a carne das cantarias, Branca já de seu condão, Desmaiava em anemias De marítimas orgias De um fado de perdição.
Porque não vens agora, que te quero, E adias esta urgência? Prometes-me o futuro, e eu desespero. O futuro é o disfarce da impotência... Hoje, aqui, já, neste momento, Ou nunca mais. A sombra do alento é o desalento... O desejo é o limite dos mortais.
É inútil resistir. Por detrás das muralhas da vontade Mora o desejo, a força que as derruba. Deixa que nasça, que avolume e suba Esta maré de seiva e de ternura. A grandeza do homem, criatura Que cresce enquanto ama e pode amar, É saber Que só depois do gosto de pecar Lhe vem o gosto de se arrepender.
Salta, discretamente, a página do amor No Livro de Horas. Não leias mal o que já leste bem. Emocionado, choras A cada passo, E tornas baço O brilho que ela tem. Deixa o texto arquivado na lembrança. Passa adiante e cobre-o de pudor. No jardim resta ainda tanta flor Que podes desfolhar Sem lágrimas na voz.... Quem soube ter, sabe renunciar... Há laudas de silêncio em todos nós.
Não digas, musa, Por quantos versos reparti o pranto Que chorei neste mundo. Não contes Os mil segredos que te confiei Nas horas de abandono. Não reveles à vida O amor que lhe tive E de que foste única confidente. Perdição consciente, Que mais ninguém me veja Nesta triste nudez de sonhador. Que o teu silêncio seja O meu pudor.
Recomeça... Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar E vendo, Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
Longamente esperei. Nenhum encontro estava combinado. Era apenas fiado Na intuição do amor Que confiava. Afinal, não vieste. E adivinho o motivo: O lume da velhice não aquece. Arde e parece Vivo, Mas arrefece.
Aceito o desafio. Que poeta se nega A um aceno do acaso? Tenho o prazo Acabado, O que vier é ganho. Na lonjura Da última aventura É que a alma revela o seu tamanho. Extremo Oriente da inquietação, Lá vou! A quê, não sei, Mas lá descobrirei Que razão me levou. Lá, onde tantos que me precederam, Se perderam, E aprenderam, na perdição, Que só é verdadeiro português Quem, um dia, a negar a humana pequenez, Se inventa e se procura Nas brumas de procura o e da loucura.
Foi bonito O meu sonho de amor. Floriram em redor Todos os campos em pousio. Um sol de Abril brilhou em pleno estio, Lavado e promissor. Só que não houve frutos Dessa primavera. A vida disse que era Tarde demais. E que as paixões tardias São ironias Dos deuses desleais.
It a wonderful book to read, very well organized and poems are just brilliants. Um livro verdadeiramente fantástico, muito bem organizado e os poemas são simplesmente brilhantes.
"Tenho a memória cheia de poemas", estupenda antologia de Miguel Torga.
Sonho, mas não parece. Nem quero que pareça É por dentro que eu gosto que aconteça A minha vida. Íntima, funda, como um sentimento De que se tem pudor.
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Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar.
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Canta, poeta, canta! Violenta o silêncio conformado. Cega com outra luz a luz do dia. Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma a sua rebeldia.
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Recomeça... Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai Colhendo Ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar E vendo, Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
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Sou uma fome incontida De viver. E o que redime a vida É ela não caber Em nenhuma medida.