Uma joia da literatura brasileira e, não obstante, baiana.
Traição, naufrágio, safadeza, sacrifício humano pra Iemanjá e briga de faca. Esse aqui tem tudo!
Fiquei chateada da cinquentésima vez que li "é doce morrer no mar"?
Sim, um pouquinho. Mas as repetições não tiram o brilho e o lirismo das imagens que Jorge Amado cria, e pelo contrário, os epítetos dão aos personagens marginalizados (de uma Bahia que já não há) um quê de solenidade clássica:
- o valente Guma
- Lívia, bela; Lívia magra e chorosa
- Maria Clara, a marítima; mais voz do que mulher
- Rosa Palmeirão, navalha na saia, punhal no peito; Rosa Palmeirão de corpo bem feito
- a mulata Esmeralda; gargalhada, ancas e peitos (merece de todas as críticas*)
Quando fiz a primeira leitura de Mar Morto eu não notei dois aspectos magistrais de técnica que poucos romancistas conseguem construir. A primeira é a concisão das cenas dramáticas — o máximo de efeito com um mínimo de palavras. A segunda é a qualidade melódica do texto, característica da poesia, mas difícil de encontrar na prosa.
Finalmente, a cereja do bolo é a incontornável denúncia social amadiana. No centro da cena, homens bravos que sabem que não vão envelhecer. Ao lado, mulheres de predestinada viuvez.
Assim, a prostituição — que parece tão recreativa em tempos de OnlyFans — figura em seu real lugar: ofício de miséria das que passam fome e ficam desdentadas de tanto apanhar.
Em uma nota final, o Diretório Acadêmico Jorge Amado, do Instituto de Letras da UFBA, acaba de remover o autor do seu nome.
Em idos tempos, leitura obrigatória no vestibular. Hoje, substituído.
*O livro é de 1936. A abolição da escravatura completava, então, 48 anos.
A representação negra tem problemas graves que não podem passar... em branco. Mas se não lermos, nada discutiremos.
Como prefiro a leitura crítica ao apagamento, fiquei com vontade de conhecer mais (e botei no kindle Tieta, Jubiabá e Gabriela)