Escritos na metade do século I d.C., em formato epistolar, os dois diálogos contidos neste volume foram provavelmente as únicas obras latinas dedicadas a expor uma terapêutica para a superação da ira e para o alcance de um estado de perene serenidade.
Ambos exemplificam a concepção que Sêneca - preceptor de Nero e um dos maiores filósofos da Antiguidade romana - tinha da filosofia: uma disciplina prática, destinada não só a elevar a qualidade ética da vida humana, mas sobretudo a promover um processo de ascese espiritual, conforme a perspectiva afirmada pela doutrina estoica.
Em função disso, a abordagem é minimamente teórica, sendo privilegiados os recursos de uma linguagem retórico-literária exuberante, que visa dispor o ouvinte ou leitor à transformação de seu estado de ânimo e à busca de uma conduta moral permanentemente elevada. Leitura indispensável para a manutenção da serenidade em tempos conturbados.
Tradutor, Introdução e Notas: José Eduardo S. Lohner
Lucius Annaeus Seneca (often known simply as Seneca or Seneca the Younger); ca. 4 BC – 65 AD) was a Roman Stoic philosopher, statesman, and dramatist of the Silver Age of Latin literature. He was tutor and later advisor to emperor Nero, who later forced him to commit suicide for alleged complicity in the Pisonian conspiracy to have him assassinated.
Quando estou abatido, nada me conforta tanto quanto ler Sêneca. Nesses dois tratados, magnificamente traduzidos por José Eduardo S. Lohner, Sêneca estuda como evitar a ira e os males que ela produz e e como alcançar a tranquilidade da alma. Em Da Ira, Sêneca diz que nenhuma paixão é mais nefasta que a ira, pois impede que avaliemos adequadamente as coisas e nos leva, em busca de vingança, a deixarmos de fazer o que realmente importa para alcançarmos nosso bem (pois gastamos tempo demais em fazer o mal dos outros). A Ira não é uma paixão como as demais, porque não se originaria em nossa porção animal (como as demais paixões), mas em nossa porção racional, só que mal utilizada (ela decorre de um juízo, que é preciso suspender, sobre o outro e os motivos que o levaram a agir de modo a gerar nossa ira). A maioria das ações contra as quais nos iramos não visam nos agredir ou atacar, e mesmo aquelas que têm esse objetivo só podem fazê-lo se cedemos à tentação de nos irarmos. Na Tranquilidade da alma, respondendo a uma pergunta de Sereno, se a vida ativa (na política) é melhor que a contemplativa (no ócio da filosofia), Sêneca responde que ambas são sublimes, mas que devemos julgar se somos aptos à vida ativa (nem todos o são), mas que todos somos aptos à vida contemplativa (porque ela nos ensina a submetermo-nos ao destino aceitando-o e rindo-mos dele). Leia estes dois tratados, e você terá grande satisfação (pelo estilo de Sêneca) e grande proveito (pela correção e profundidade de sua proposta).
"O sábio não ficará irado com os que erram. Por quê? Porque sabe que ninguém nasce, mas se torna sábio; sabe que, em cada época, pouquíssimos se convertem em sábios; porque tem completo conhecimento da condição da vida humana, e nenhuma homem sensato se enfurece contra a natureza."
O livro destaca a natureza destrutiva dessa emoção, a qual considera a mais intensa e irracional entre todas as paixões. Ele descreve a ira como uma forma de loucura breve, que cega a razão e leva a ações impensadas e violentas. A ira se manifesta de forma evidente, com sinais físicos claros, como o rosto alterado e a agitação corporal, revelando a ferocidade do indivíduo tomado por esse sentimento. O autor também faz uma analogia entre a ira humana e a natureza animal, mostrando como os animais demonstram sinais de ameaça antes de atacar, o que é um reflexo da mesma fúria que habita o ser humano. Sêneca fala sobre as consequências devastadoras da ira, mencionando assassinatos, conflitos e a destruição de civilizações, ressaltando que a ira não apenas causa danos aos que a sentem, mas também a outros, levando povos inteiros à ruína. Além disso, Sêneca analisa a origem da ira, afirmando que frequentemente ela não surge de ofensas diretas, mas sim de ações que pensamos que possam nos ferir. Ele sugere que a ira não é um desejo deliberado de vingança, mas um impulso irracional que pode surgir de mal-entendidos e da antecipação de um ultraje. A ira é vista, assim, como uma paixão que pode surgir mesmo sem motivo aparente, refletindo a fragilidade da mente humana diante de provocadores imaginários. Sêneca discute a incapacidade dos animais de sentirem ira da mesma forma que os humanos, argumentando que, embora possam agir com agressividade, não possuem a razão necessária para nutrir sentimentos complexos como amor ou ódio. Isso coloca a ira como uma emoção que pertence exclusivamente à experiência humana, dotada de discernimento e sabedoria, características que não estão presentes nas feras. Essa distinção ajuda a entender a ira como uma emoção que deve ser controlada e moderada para evitar consequências desastrosas. Sêneca continua sua análise, afirmando que a ira humana é distinta da experiência animal, pois os animas não possuem as complexidades emocionais que caracterizam os seres humanos. Eles reagem de forma instintiva e temporária, sem a capacidade de articular seus sentimentos ou de refletir sobre eles. A ira no homem, por outro lado, é multifacetada e pode se apresentar de várias formas, desde expressões explosivas até uma ira mais silenciosa e introspectiva. O autor discorre sobre as diferentes manifestações da ira, identificando que ela pode ser sutil, como uma irritabilidade, ou mais agressiva, expressando-se através de gritos e gestos violentos. Sêneca, então, distingue a ira de outras emoções, como os sentimentos de amargura e mágoa, dizendo que a ira, embora possa ter uma função impulsionadora em certas situações, não é um estado natural de ser humano. Ele questiona se a ira pode ser considerada útil, especialmente ao observar seu efeito corrosivo nas interações humanas. A partir deste ponto, Sêneca considera o impacto que a ira pode ter em comunidades e sociedades. Ele argumenta que a ira, ao invés de unir os seres humanos, frequentemente resulta em destruição. A necessidade de soluções pacíficas e a promoção de virtudes devem ser priorizadas sobre o sentimento de vingança ou punição indiscriminada. Ele destaca a responsabilidade dos líderes em guiar a população com sabedoria, ao invés de ceder à ira. No decorrer desse raciocínio, Sêneca reflete sobre a importância do autocontrole e da moderação. Ele sublinha que, embora a ira possa ser um combustível momentâneo em situações de conflito, a verdadeira sabedoria reside na capacidade de superar esse impulso e buscar resoluções pacíficas. O autor enfatiza que a educação moral e o cultivo de virtudes são essenciais para evitar que o homem sucumba à ira. Na busca por um entendimento mais profundo, Sêneca se questiona sobre o papel do castigo e como ele pode ser percebido dentro do contexto da ira. Ele defende que a correção de comportamentos deve ser realizada de maneira cuidadosa e com o objetivo de promover o bem, e não simplesmente como um ato de punição que inflama mais a ira da sociedade. Em vez disso, ele propõe que as reações devem ser ponderadas e orientadas pelo desejo de justiça e harmonia, em vez de respostas impulsivas e violentas. A discussão se estende à ideia de que o homem virtuoso não se alegra com a punição. Essa perspectiva é alinhada com a visão de Platão sobre o verdadeiro bem, sugerindo que ações motivadas pela ira não são compatíveis com a virtude. Portanto, ele conclui que a ira deve ser minimizada e manejada, e que as verdadeiras ações éticas devem prevalecer sobre impulsos destrutivos. A reflexão acerca da ira, portanto, se torna um exercício de busca pela paz interior e pela harmonia social, levando os homens a aspirar por um estado de equanimidade que rejeite a violência e a ação reativa. Sêneca argumenta que a melhor defesa contra a ira é contestar suas raízes logo no início, pois, uma vez que a paixão se instala, a razão se torna incapaz de restaurar a saúde da alma. Ele alerta que a ira, se permitida entrar, controla a mente e atua como uma força sem restrições. A alma, ao se deixar levar pela ira, compromete sua capacidade de invocar a razão, transformando-se em um campo de batalha entre as paixões. Ele discorre sobre o desafio de lidar com a ira, questionando se a razão é mais forte ou mais fraca que essa emoção. Embora muitos consigam controlar a ira, essa contenção não ocorre naturalmente enquanto a emoção está em alta. Sêneca esclarece que não se deve depender da ira para atuar; ela não deve ser vista como um auxiliar da virtude, mas como um obstáculo que compromete a clareza e o autocontrole. Sêneca afirma que a razão deve operar sem os impulsos imprudentes da ira, para que a paz interior seja alcançada. Ele discorda da ideia de que a ira pode ser benéfica, argumentando que os vícios nunca devem servir como suporte à virtude, pois a verdadeira ação correta é guiada pela razão. Ele critica a noção de que a ira pode ser um motivador eficaz, enfatizando que os melhores resultados vêm de um estado de calma e controle. No contexto da guerra e do combate, ele ilustra seu argumento com exemplos de como a ira pode afetar a performance de soldados e guerreiros. Sêneca destaca que a força bruta e a determinação não provêm da ira, mas da disciplina e da razão. Ele menciona casos históricos onde o descontrole emocional levou à derrota, subestimando o valor da estratégia racional em vez de agir por impulso. Sêneca conclui que os antigos modos de comportamento e crenças romanas, que enfatizavam o autocontrole e a disciplina, são fundamentais para a fortaleza de uma sociedade. Ele observa que a ira pode até impulsionar ações momentâneas, mas, no longo prazo, enfraquece a capacidade de resistência e atrapalha conquistas que requerem precisão e ordem. Dessa maneira, ele defende a adoção de práticas que limitem as paixões e promovam um viver virtuoso, longe das garras da ira. Sêneca prossegue seus argumentos com exemplos históricos, como o general Fábio, que ao invés de se deixar levar pela ira, avaliou com cautela sua situação, priorizando a segurança de seus cidadãos. Compreendendo que decisões precipitadas poderiam resultar em desastres, ele optou por agir com prudência, derrotando primeiro a ira antes de enfrentar Aníbal. Este uso da estratégia e do autocontrole é ressaltado quando se fala do outro Cipião, que também não permitiu que a ira interferisse em suas ações, levando o cerco a Cartago de forma metódica e paciente. Esse controle emocional é vital, pois a ira, como Sêneca enfatiza, não oferece benefícios nem nas batalhas mais intensas. Ele argumenta que a virtude deve ser guiada pela razão e pela reflexão, em vez de ser arrastada pela violência da paixão. Um homem virtuoso deve ser capaz de agir com dignidade, mesmo diante de circunstâncias extremamente emocionais, como a perda de um pai ou a injustiça cometida contra seus entes queridos. Para ele, a verdadeira força reside em respeitar o dever e buscar justiça, guiado não pela dor, mas por princípios éticos. Esse entendimento de que a ira é uma fraqueza, e não uma força, leva Sêneca a criticar aqueles que se deixam consumir pela emoção e agir de forma impulsiva. Ele argumenta que a ira não é uma paixão que deva ser válida como um motor de ação, pois obstrui o julgamento e a capacidade de resolução. As comparações que faz entre a ira e o comportamento infantil ressaltam como essa emoção é desprovida de sabedoria e controle, servindo para expor a imaturidade em decisões. Sêneca desafia a noção de que a ira pode ser benéfica ou uma resposta natural a injustiças, afirmando que um homem virtuoso não deve se permitir odiar aqueles que cometem erros, mas sim buscar formas corretivas de ação. O juiz imparcial é capaz de discernir entre sua própria situação e a dos outros, reconhecendo que a verdadeira justiça não deve ser contaminada pela paixão. Encoraja uma postura de orientação e empatia em vez de retaliação, considerando que aqueles que erram podem ser resgatados através do entendimento e do apoio. Ele conclui que a correção deve ser feita com cautela, sem a presença da ira, mesmo em contextos onde se fazem necessárias sanções. A paixão descontrolada, segundo Sêneca, só gera ineficácia e perpetua o problema, pois não há real esperança de mudança em quem é percebido como irremediável. Portanto, a abordagem precisa ser generosa e a ira, uma emoção a ser evitada para promover a verdadeira melhoria tanto individual quanto social. Sêneca argumenta que a ira é uma emoção que se precipita e resulta em decisões apressadas, ao passo que a razão proporciona a oportunidade de ponderar e discernir. Ele faz uma analogia com a medicina, onde cada doença demanda um tratamento específico; assim, nas correções sociais, cada crime requer uma resposta adequada, guiada pela lógica e não pela raiva. Ele critica a ideia de que o sentimento de ira pode ser um motor para a justiça, enfatizando que as punições devem ser como um remédio aplicado com consideração, respeitando a natureza do crime. Embora a ira possa parecer um impulso natural, segundo Sêneca, ela não traz benefício duradouro e frequentemente leva a erros maiores. A análise das ações deve ser fria e calculada, permitindo que as sanções sejam aplicadas de forma justa e racional. Ele menciona figuras históricas como Justino e tipos de governantes que, sem ira, executam seus deveres, mantendo a integridade moral em momentos decisivos. O juiz sábio deve ser capaz de julgar sem se deixar influenciar pelas emoções, dirigindo-se ao que é justo de forma imparcial. No cerne de sua argumentação, Sêneca defende que a verdadeira virtude é libertadora e eficaz, ao contrário da ira que enrredaria um homem em um ciclo de reações e ressentimentos. Ele menciona a filosofia de Aristóteles, que reconhecia os perigos das paixões descontroladas, e conclui que apenas a razão, como guia infalível, pode proporcionar um caminho para a tranquilidade e a correção. Desta maneira, Sêneca posiciona a razão como uma ferramenta poderosa contra a ineficácia da ira, reafirmando que o controle emocional é essencial para a verdadeira justiça e que as ações motivadas pela razão perpassam o tempo e a dor, estabelecendo um padrão ético sólido que transcende a efemeridade das paixões. Sêneca prossegue afirmando que a ira distorce a percepção do que é justo, levando a decisões enviesadas que desconsideram a verdade. A emoção busca validar suas próprias decisões, mesmo que estas sejam fundamentadas em premissas absurdas. Ele ilustra essa ideia com a história de um oficial, Pisão, que, consumido pela ira, executou um soldado inocente com base em suposições errôneas. Esse erro não apenas levou à morte de um homem inocente, mas também resultou em mais inocentes sendo sacrificados na mesma onda de fúria, demonstrando como a ira é capaz de destruir vidas sem fundamentos racionais. Sêneca identifica a raiva como uma força que se opõe à verdade e que não aceita a racionalidade quando contradiz suas inclinações. Ela provoca agitação e tumulto, enquanto a razão opera de forma calma e serena, buscando eliminar as ameaças à sociedade sem recorrer à violência descontrolada. O autor critica a incapacidade da ira de discernir entre as variações de intenção, sugerindo que ações com base em negligência não devem ser punidas da mesma forma que aquelas com intenções maliciosas. A punição justa, segundo Sêneca, deve focar não no passado, mas no futuro, promovendo a esperança de que o erro não se repita. Ele menciona que a verdadeira grandeza não se encontra na demonstração de força através da ira, mas sim na sabedoria e no controle emocional. A raiva, então, é uma emoção instável e volúvel, que não se sustenta em bases sólidas. Na continuidade de sua crítica, ele observa que a ira também pode ser um traço de caráter indesejável, tanto em homens quanto em mulheres, comparando-a a uma enfermidade que fere o caráter. Sêneca discorre sobre como aqueles que se iludem com a ideia de que a ira é uma demonstração de grandeza estão na verdade se enganando, pois essa emoção revela fraqueza e um espírito adoentado. Ele enfatiza que palavras proferidas na ira podem soar grandiosas, mas, na essência, são impulsivas e carecem de sabedoria. Assim, a chama da ira queima intensamente, mas seu combustível é efêmero e vazio, revelando o medo e a insegurança que habitam o coração dos irados. Sêneca argumenta que a verdadeira grandeza da alma não pode estar atrelada à ira ou ao desespero, pois considera que um caráter elevado deve ser inabalável e sólido, fundado na bondade. Ele contesta a ideia de que a eloquência e a aparência exterior possam sinalizar uma grandeza real se a índole for má ou turbulenta. A grandiosidade se distingue pela estabilidade e serenidade que a virtude proporciona, contrastando com a superficialidade das emoções exaltadas. O autor menciona casos históricos, como o de Caio César, que, tomado pela fúria durante uma tempestade, expressou desdém pelas forças divinas, acreditando que poderia desafiar até Júpiter. Essa postura não apenas mostra a loucura da ira, mas também sugere que ações guiadas pela raiva podem incitar comportamentos desastrados e perigosos. Sêneca conclui que não existe grandeza na força bruta da ira, mesmo que demonstre veemência. Ele amplia sua crítica ao considerar as ambições ligadas ao luxo e poder, indicando que o amor pela riqueza e a busca por poder são igualmente distantes da verdadeira nobreza. A avareza e a libido são vistas como manifestações de almas inferiores, que não se satisfazem com o que têm e buscam constantemente mais, sem reconhecer a miséria intrínseca de suas ações. Para Sêneca, apenas a virtude pode ser considerada elevada e sublime, e qualquer grandeza que não incorpore a paz de espírito e a bondade é meramente ilusória.
Uma edição com esmero Já li algumas edições kindle boas, outras nem tanto. Talvez pela relativa novidade do livros digitais, alguns ebooks saem um tanto quanto desencontrados. Esta, junto com talvez algumas poucas, está muito boa, não deve à nada à versão impressa. A tradução está bastante atenciosa, e é o mesmo Sêneca de sempre, com seus conselhos sempre tão atuais.
As obras eram muito acessíveis porque o autor as escreveu na forma de conversação informal com seus discípulos. Sempre gostei os estóicos por seu esforço de conectar as ideias filosóficas teóricas com a praticidade da vida cotidiana. Espero que as futuras generações da Brasil vão estudar mais os estóicos nas universidades... oh wait, Bolsonaro kk
Apesar do Marco Aurélio ser o filósofo estoico mais popular e as suas Meditações serem o livro base para qualquer um que queira começar a estudar o estoicismo, acho que Sêneca é de longe o filósofo que eu mais recomendaria à uma pessoa para começar a ler não só sobre o assunto mas sobre filosofia em geral. Ler Sêneca, pelo menos pra mim, é quase como ouvir um companheiro mais velho e sábio falar da vida em uma mesa de bar. Mesmo que muitas das coisas que Sêneca escreveu possam parecer senso comum e ele tenha, de fato, um hábito de repetir algumas ideias quase que excessivamente (principalmente ao longo dos diferentes ensaios e cartas de sua autoria), eu acho que é uma experiência muito agradável ler suas obras e algo que vai totalmente contra aquela ideia predominante de que os escritos filósoficos são cansativos e chatos.
Nesse livro estão dois ensaios de Sêneca: "Sobre a ira" e "Sobre a tranquilidade da alma". Ambos muito bons. "Sobre a ira" é mais original (no sentido de serem ideias que eu não havia lido em Sêneca anteriormente) e uma análise relativamente profunda da ira como uma emoção, um estado de espírito, uma doença; enquanto "Sobre a tranquilidade da alma" para mim foi quase como um resumo das cartas de Sêneca para Lucílio, conselhos mais gerais sobre a vida. Gostei bastante de ambos.
Apesar de inicialmente ter pensado que não tinha muito interesse em ler sobre "ira", achei que foi super interessante porque uma das ideias que Sêneca mais confronta é uma que eu mantinha: a de que a ira de alguma forma pode ser uma expressão de valor - por exemplo, em uma situação na qual alguém parece estar bravo por razões aparentemente justas. Mas Sêneca levanta bem que nada que poderia ser feito com a ira como justificativa auxiliar precisa da ira; se existe uma razão justa e boa por trás de uma ação, a ira não faz nada além de confundir o ato e possivelmente até piorar seus efeitos, por ser uma expressão humana emocional e muitas vezes (para Sêneca, sempre) descontrolada. Sêneca argumenta por adiar a ira, pois o tempo é o melhor remédio. E caso haja alguma ação a ser tomada inicialmente motivada pela ira, caso essa ação seja racional e justa, que seja tomada posteriormente, sem sentimentos de raiva envolvidos. E apesar da ira ser natural e, portanto, ser impossível nunca nos sentirmos irados, é pelo hábito e pela análise de nosso comportamento que podemos evitar o erro de alimentá-la e de agir em função de seus devaneios. Algumas frases que eu destaquei:
- "As paixões são tão ruins como servas quanto como guias" - "... se o sábio deve sentir-se irado com o que foi feito de errado e exaltar-se e entristecer-se por crimes, nada é mais desventurado que o sábio; toda a sua vida transcorrerá às voltas com a iracúndia e o abatimento" - "O que tolhe a ira do sábio? A multidão dos faltosos." - "Ou se deve rir de tudo ou se deve chorar".
A última frase é uma boa ligação ao ensaio "Sobre a tranquilidade da alma", que de forma geral enfatiza como viver-se bem depende, acima de tudo, de não enfatizarmos o próprio viver-se bem acima de todas as coisas. Vou resumir o texto com algumas citações também:
- "O que há de grave em retornar ao lugar de onde vieste? Viverá mal aquele que não souber morrer bem"
- "... que os vícios das pessoas não nos pareçam odiosos, mas ridículos, e imitemos antes Demócrito do que Heráclito. Este último, toda vez que saía em público, chorava, aquele ria; para este, todas as coisas que fazemos pareciam desgraças, para aquele, idiotices. (...) É mais humano rir-se da vida do que deplorá-la".
Em geral, muito bom. "Sobre a tranquilidade da alma", em particular as seções finais, é um excelente conjunto de conselhos para a vida. E no fim, sinto que é um ensaio que reverbera uma ideia que eu tenho enfrentado cada vez mais nos últimos tempos: não há nada pior para a nossa própria paz do que nos levarmos muito a sério!
A edição é composta por dois textos de Sêneca. Em sobre a ira, Sêneca argumenta que a ira é um mau próprio do homem. A ira não é conforme à natureza. Ela deve ser evitada pela razão e esta deve controlar as paixões. A razão deve conduzir à virtude e evitar os impulsos passionais. A ira não é útil de forma alguma, mesmo que seja em favor de amigos e familiares. A razão é suficiente para uma vida virtuosa e não irada. A razão é estável e paciente. A ira é volúvel e apressada. A razão leva à justiça, enquanto a ira, à injustiça. A ira é irracional e ingovernável. Em seguida diz que a ira necessita da aprovação da alma para se expandir. A razão pode controlar a ira. O sábio não se ira com os erros dos outros. A ira nunca é justificável. O sábio deve ser temperado. A educação deve cultivar um espírito não irado. Não se irrite com coisa pouca. O adiamento e a espera são remédios para a ira. A ira vem da ignorância e leva à repulsa execrável. Responde à ira com favores. A ira é fogo impetuoso sem domínio. A ira é uma força que se intensifica e precisa ser resistida. Não se deve incidir na ira. Deve-se libertar dela. E deve-se aplacar a ira dos outros. A ira é dispendiosa e mesquinha. Tenham ações e planos moderados para que não fiques irado. Evite as lutas para não ser tomado por ira. Não dês liberdade à ira e iniba o impulso. Suporte a ira. Não sejas curioso. Remedei a ira com tempo e adiamento. Guarde e reprima a ira intimamente. Reflitas sobre tua mortalidade para que controles a ira. Esse primeiro texto apresenta uma visão da natureza humana um tanto quanto ingênua. É a razão tão poderosa para dominar as emoções? Além disso, a ira nem sempre é errada. Quando alguém se ira contra a injustiça, essa é uma boa ira que pode levar à ação. No texto sobre a tranquilidade da alma, Sêneca dialoga com Sereno sobre a força dos vícios. Sêneca é consultado como um médico da alma. Sêneca diz que o que se deseja é não sofrer com perturbação na alma. Essa é a busca da tranquilidade. O descontentamento interior aumenta o tormento e deixa a mente vacilante. O resultado é uma alma sem tranquilidade. É preciso, então, examinar-se a si mesmo, as atividades a empreender, e as pessoas com quem empreender. Observe sua natureza para identificar suas inclinações e utilizar seus talentos. Tenha amizades que te deem tranquilidade. Viva uma vida simples, sem excesso de riqueza ou pobreza. Pois o que é excesso é vício e atrapalha a alma. Aceite sua condição e se agarre às vantagens que ela oferece. O sábio é aquele que usa as coisas, mas não se apega a nada. Viver bem é viver tranquilo para morrer bem. Diminua as expectativas e ansiedades para não fazer esforços desnecessários. Cuidado com o excesso de atividades e o excesso de ócio. Seja flexível diante das circunstâncias. Não se apegue demais ao externo para poder voltar-se para si. Não seja dependente das opiniões alheias. Sejas simples e sincero e não se encubra numa máscara. Equilibre solidão com vida social.
eu gosto da forma como ele expõe as ideias e concordo com algumas proposições dele. mas eu não consigo concordar com algumas máximas categoricas de honra romana. quando ele fala, em Sobre a Ira, "buscarei justiça, porque é necessário, não porque me dói" sobre um homem que tem um familiar assassinado por outrem, com que base ele diz que é necessário? o que torna a justiça necessária, senão a paixão humana pelo outro? como pôr razão e paixão como totens opostos, fixos e determinados?
Um pouco repetitivo, embora a ideia central e a proposta da mensagem sejam fortes. Os malefícios da ira e a falta de respostas pra evita-la deixam os diálogos mais profundos, como se não fosse simples mas ao mesmo tempo Sêneca tenta convencer do contrário.
Uma grande obra, ensinamentos obrigatórios, com uma visão madura e totalmente visionaria sobre a forma de viver e de tratar o proximo, um excelente livro, algo ja esperado desse grande Homem, e aqui com H maisculo, pos, se tem alguem que merece esse zelo, é ele.
"nenhum homem se torna mais corajoso por meio da ira, exceto alguém que sem ira nao teria sido corajoso: a ira portanto, nao vem para ajudar a coragem, mas para tomar seu lugar"
Sobre a ira - a ira sempre é prejudicial segundo o romano Sêneca um grande homem não deve ira-se nunca facilmente e, quando não for possível reprimir a ira, ele deve tentar se acalmar o mais rápido possível. Sêneca considerava a ira um sinal de fraqueza e imperfeição, e acreditava que trabalhar para dominar essa emoção era fundamental para alcançar a tranquilidade da alma.
A tranquilidade da alma O autor ensina técnicas para cultivar a calma e atenção plena, destacando que a tranquilidade é fundamental para enfrentar as dificuldades vida.
Em resumo, este livro oferece orientações filosóficas para superar estados de agitação mental, buscando uma vida tranquila e mais equilibrada e o autoaperfeiçoamento.