Sidarta Ribeiro é um dos grandes neurocientistas brasileiros contemporâneos. Sua escrita flui porque tem o dom de escrever como se estivesse conversando com amigos. O livro é composto de 96 crônicas e artigos sobre temas contemporâneos agrupadas em dez capítulos temáticos: Sono e sonhos / A ciência / Passado e futuro / A educação / O Brasil / Do neurônio ao infinito / A capoeira / O ser humano / As drogas / Vida e morte. Com argumentos convincentes e sem excesso de complexidade, “desafiam, questionam, provocam o leitor”. Limiar é um livro que nos lembra que ciência é cultura. Presente em nosso cotidiano, dela precisamos para entender melhor o mundo que nos cerca e construir nossa história. O livro traz a trajetória inquieta do cientista que, “gentil, simplesmente convida o interlocutor a pensar”.
SIDARTA RIBEIRO é mestre em biofísica pela UFRJ, doutor em comportamento animal pela Universidade Rockefeller, pós-doutor em neurofisiologia pela Universidade Duke, professor titular de neurociência e fundador do Instituto do Cérebro da UFRN. Formando do Grupo Capoeira Brasil, discípulo dos mestres Caxias e Paulinho Sabiá. Publicou mais de cem artigos científicos em periódicos internacionais. É autor, entre outros livros, de O oráculo da noite e Limiar, ambos publicados pela Companhia das Letras.
Iniciei o ano com a aposta segura de Sidarta Ribeiro. O neurocientista da Federal de Rio Grande do Norte é um excelente divulgador científico quando se trata dos avanços na área da investigação sobre o cérebro. Ao mesmo tempo, é dos poucos pesquisadores (que eu conheça) da área biomédica com a abertura para as formas de ciência ancestrais e tradicionais.
Limiar é uma compilação de artigos e colunas feita na urgência do início da pandemia da covid-19, em 2020, e aborda temas tratados com mais amplitude, por exemplo, em Sonho manifesto e O oráculo da noite.
Especialmente interessante é a reconciliação da ciência “dura” ou empírica com a criatividade das ciências humanas. Essa combinação dá às propostas de Ribeiro amplitude e disposição para a mudança e para repensar as posições, por vezes excessivamente engessadas, das ciências experimentais. A leitura das hipóteses psicanalíticas à luz da neurociência contemporânea, mais ainda no contexto da polémica recente provocada pela miopia conceitual da pesquisadora e divulgadora Natália Pasternak, é um bom exemplo do dito.
O professor Sidarta é sem dúvida um pensador brasileiro essencial. Nesse livro ele aborda assuntos que vão dá psicodélia, educação e mente, com uma forte pitada política. Mais um livro sensacional!
Escrito de forma bem aforística, é uma leitura bem prazerosa. Dito isso, Sidarta falando de política é um excelente neurocientista, discurso de uma social-democracia mofada que não tem a potência necessária pra vencer a extrema-direita nos dias atuais. O brilhantismo quando ele retorna as suas áreas de domínio compensam os breves momentos de desastre.