Este livro foi lido num sopro. Verdadeiro page turner, é raro encontrar um livro tão divertido e cativante como este - mas quando esse livro se trata de uma biografia, essa diversão não pode vir sem certos cuidados.
É inegável que o relato está muito tingido pela visão pessoal que Zweig tem do mundo, e que com isso vem carradas de racismo - por exemplo, quando chama "ridículo inseto humano" a Silapulapu, datu (líder) da ilha de Mactán, que abate Magalhães, ou quando compara o escravo de Magalhães, Henrique a um animal, e descreve o seu povo - o malaio - como uma raça traiçoeira. Como o racismo é coisa esparsa, o livro não se faz totalmente indigesto.
Deixando-se levar pela verve literária e pelo desejo de mitologizar Magalhães e os portugueses, Zweig muitas vezes incorre também em incorrecções históricas - que podem também dever-se a pura ignorância, já que o próprio Zweig admite que compôs o livro recorrendo a meia dúzia de outros livros e que portanto não se trata de um trabalho de investigação exaustivo. Na introdução em que fala do início dos descobrimentos portugueses, por exemplo, Zweig afirma que «Portugal encosta-se às terras fronteiriças da Espanha, nação amiga, nação irmã (...)» e que portanto não havia por onde dilatar-se senão cruzando os mares. Uns quantos conhecimentos básicos de história portuguesa servirão para concluir em que isto é uma estapafurdice. Primeiro, porque na época a que se refere, que é a do Infante D. Henrique, para lá da fronteira não havia ainda Espanha, mas tão somente Castilha. Segundo, porque houve guerra com Castilha quando reinava o pai do Infante, D. João I, e com Espanha quando governava o seu sobrinho, D. Afonso V, pelo que difícilmente se poderia dizer que a nação do outro lado da fronteira era nessa altura "amiga" ou "irmã".
Dito de forma mais simples, Stefan Zweig é mais novelista que historiador; e este livro pende mais para a ficção do que para a história. Mas longe de mim negar-lhe os méritos no primeiro domínio; será difícil negar o quão cativante e, até, elegante, a escrita de Zweig é. Uma qualidade particular deste nosso amigo, que só raramente se encontra na escrita, é saber revelar a importância das coisas, de conseguir evidenciar a razão pela qual um vulgar transeunte se deve importar pelo mais banal dos acontecimentos. Isto, sobretudo, faz com que esta narrativa de marinheiros e tribos, de especiarias e grandes conspirações, adquira esta aura heróica de epopeia; uma aura que, temo, o Magalhães histórico não conseguiria sustentar. Mas que faz um livro extremamente sedutor.