Este livro busca discutir as ideias e o legado de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, cujo centenário de morte comemora-se este ano. De forma inusitada, o autor questiona o consenso formado em torno das posições do Barão, que influenciaram claramente a política externa brasileira até os anos 1960 e são eventualmente seguidas ainda hoje. O longevo consenso, diz o autor, transformou Paranhos e seu “evangelho” em paradigma em relações exteriores de um país.A passagem de Rio Branco pela chefia da chancelaria brasileira de 1902 até sua morte, em 1912, coincidiu com um momento especialmente rico em situações que possibilitaram a construção da nacionalidade e a modernização do Brasil. O Barão soube consolidar, nesse cenário, uma determinada visão da identidade internacional do país e do papel que a política externa deveria desempenhar na construção e reafirmação dessa identidade.O autor enfatiza que sua atuação foi extremamente importante na consolidação do nacionalismo brasileiro, em bases modernas, como esteio ideológico do Estado, após a crise de legitimidade pela qual o país passou com a proclamação da República. E a relaciona à construção de uma nova identidade coletiva para o Brasil, já em bases plenamente nacionais.No entanto, Rio Branco foi, antes de tudo, um agente político, marcado pelo pragmatismo. E suas ações e diretrizes, que se traduzem em lições ambíguas e contraditórias, permitem a seus pretensos seguidores justificar opções políticas muito distintas entre si. Tanto mais porque ele não deixou um registro sistemático de suas ideias e orientações, que se sustentam por textos isolados, escritos ao sabor das circunstâncias, tais como discursos, cartas particulares, artigos de jornal e instruções às representações diplomáticas no exterior.
Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos, diplomata e historiador, nasceu no Rio de Janeiro em 18 de setembro de 1960. Bacharel em Geografia pela Universidade de Brasília e bacharel em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, possui pós-graduação em Ciência Política pela New York University e mestrado e doutorado em História pela Universidade de Brasília. Como diplomata serviu no Escritório Financeiro do Itamaraty (Nova York) e nas Embaixadas do Brasil na Cidade do México, Washington, Montevidéu e Quito. Hoje, desempenha-se como Ministro-Conselheiro da Missão do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa. É autor de vários livros sobre a história das relações exteriores do Brasil, sendo os dois últimos “O Evangelho do Barão” (UNESP, 2012) e “O Dia em que Adiaram o Carnaval” (UNESP, 2010). Foi curador da mostra oficial sobre o centenário da morte do patrono da diplomacia brasileira “Rio Branco: 100 anos de memória”, exibida em Brasília e no Rio de Janeiro em 2012. Publicou artigos em revistas especializadas e participou em obras coletivas no Brasil, Estados Unidos, Europa e América Latina, dentre as quais a coleção “História General de América Latina”, publicada pela UNESCO. Ademais de sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, é pesquisador associado ao Instituto Rio Branco (Brasília) e ao Observatório das Nacionalidades (Fortaleza).
Luís Cláudio Villafañe G. Santos é um diplomata brasileiro e tem como foco de suas pesquisas a vida e carreira de Rio Branco, tendo publicado outros livros sobre o tema, como a bibliografia intitulada "Juca Paranhos: o Barão do Rio Branco", pela Companhia das Letras. Num livro que possui poucas páginas, o autor começa narrando a própria história do Brasil, que, por vezes, irá se confundir com a história de seu personagem. Eu demorei bastante a ler os primeiros capítulos, pois eles estão repletos de informações históricas importantes e nada mais natural que querer fichar tudo.
José Maria da Silva Paranhos Júnior foi filho do Visconde do Rio Branco, um dos políticos mais influentes de sua época, membro do Partido Conservador, e responsável pela promulgação da Lei do Ventre Livre (1871) durante sua presidência no Conselho de Ministros (1871-1875). Nada mais previsível que o Barão ter sido monarquista convicto e procurar, depois da proclamação da República, separar a política interna da política externa durante sua atuação como chanceler, apesar de Villafañe entender que isso jamais tenha sido possível. A ideia de "evangelho do Barão" representaria os pressupostos que nortearam sua política externa, tais como a consolidação das fronteiras do Brasil; a cordialidade com as repúblicas sul-americanas; a "mudança de eixo" da política externa brasileira da Europa para os Estados Unidos, sem, no entanto, o aspecto de submissão que caracterizou os Tratados de 1810 com a Inglaterra, por exemplo. A partir de seu evangelho, outros chanceleres teriam se inspirado ao conduzir a política externa brasileira: "Alguns exemplos: Oswaldo Aranha, ao pleitear que o Brasil entrasse na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Estados Unidos, sempre alegava o precedente de Rio Branco; Mário Gibson Barbosa defendia o decreto das 200 milhas de costa brasileira também como extensão da obra de fechamento das fronteiras de Rio Branco; Celso Lafer vê em Rio Branco o precursor dos ministros que, como ele, dão grande prioridade à política de estreitar relações com a Argentina; o Mercosul, sem dúvida, é um projeto de Rio Branco..." (p. 121)
No último capítulo, o autor ainda discorre sobre como a noção de nacionalidade brasileira só foi possível de ser criada na República, uma vez que a escravidão e a hierarquia social da época impediam essa percepção por parte de uma população majoritariamente miscigenada e cujas províncias mal se identificavam umas com as outras. Enquanto a figura do monarca garantiria a unidade do território (José Murilo de Carvalho), não haveria elemento, durante os anos do Império, que unisse o povo em torno de um ideal comum – problema que seria, inclusive, exacerbado durante a conscrição para a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), ou "Guerra do Paraguai". Para Villafañe, o Barão teve grande importância na construção da nacionalidade brasileira, porquanto as seguidas vitórias em arbitragens internacionais (Palmas, 1895; Oiapoque, 1900), somadas à aquisição do Acre (1903), faziam a população se juntar (e celebrar) em torno de um ponto comum: a consolidação das fronteiras da pátria. Essa tese é bem interessante e seria confirmada pela popularidade que teve o Barão em sua época, fazendo, inclusive, o governo suspender o carnaval no ano de 1912, data de sua morte (o que, sem muita surpresa, não deu certo e, naquele ano, o Brasil acabou tendo dois carnavais).
O livro também narra algumas curiosidades (que também estão presentes na bibliografia supracitada), como o fato de o Barão ter adquirido seu título nobiliárquico em fins do Segundo Reinado, contando com a ausência de D. Pedro II do trono, por ato da princesa regente Isabel e a pedido de seu amigo, Correa de Oliveira (p. 71). O título seria uma homenagem a seu falecido pai por ocasião da proclamação da Lei Áurea (1888). Tendo sido deputado, por duas vezes, pela então província do Mato Grosso (província que seu pai representava como Senador), "Juca" ingressou na carreira diplomática por indicação de um amigo de seu pai, Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, que o tratava por "meu Juca" (p. 68-69). O Barão permaneceu na Europa por 26 anos, tendo atuado cônsul do Brasil em Liverpool; superintendente dos serviços de migração em Paris; e ministro plenipotenciário em Berlim, voltando ao Brasil a convite do presidente Rodrigues Alves para chefiar o Ministério das Relações Exteriores. Como monarquista, é curioso que só tenha alcançado o ápice de sua carreira nas primeiras décadas da República (1902-1912), passando por quatro governos diferentes: Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca. O Barão também foi o chanceler que mais tempo permaneceu no cargo (pouco mais de 10 anos).
Em suma, o livro é muito bem escrito e, apesar de resumido, não peca pela falta de informações importantes.