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Carta ao Futuro

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Carta ao Futuro é exactamente aquilo que o titulo indica - é uma longa carta, escrita por Vergílio Ferreira, destinada a ser lida daqui a alguns séculos ou milénios, cujo propósito é, identificando todas as questões existenciais existentes agora e desde sempre, perguntar ao futuro se lá essas ainda existem ou se já foram resolvidas.

Excerto
«O que há a redimir é a adequação deste milagre brutal de nos sabermos uma evidência iluminada, de nos sentirmos este ser que é vivo, se reconhece único no corpo que é ele, na lúcida realidade que o preenche, o identifica nas mãos que prendem, na boca que mastiga, nos pés que firmam, de nos descobrirmos como uma entidade plena, indispensável, porque ela é de si mesma um mundo único, porque tudo existe através dela e é impossível que esse tudo deixe de existir, porque ela irrompe de nós como a pura manifestação de ser, e o «ser» é a única realidade pensável — o que há a redimir é a adequação desta fantástica evidência que nos cega e a certeza de que ela está prometida à morte, de que o seu destino é a impossível e absoluta certeza do não-ser, da pura ausência, da totalidade nula, da pura irrealidade. »

102 pages, Paperback

First published January 1, 1958

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About the author

Vergílio Ferreira

68 books315 followers
VERGÍLIO FERREIRA nasceu em Gouveia, a 28 de Janeiro de 1916. Seminarista no Fundão, licenciou-se depois em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi prof. liceal em Faro, Bragança, Évora e Lisboa (desde 1959). Ficcionista e pensador, estreou-se com o romance O Caminho Fica Longe (1943) e o ensaio Sobre o Humanismo de Eça de Queirós (1943). Escritor dos mais representativos das letras portuguesas da segunda metade do séc. XX, a sua vivência fechou-se no labirinto do existencialismo sartreano. Entre as suas obras destacam-se: Manhã Submersa (1954), adaptado ao cinema por Lauro António e vencedor do Prémio Femina para o melhor livro traduzido em França em 1990, Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Cântico Final (1960), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Nítido Nulo (1971), Rápida a Sombra (1974), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983, Prémio Literário Município de Lisboa), Espaço do Invisível (1965-87), em quatro vols., Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da APE), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE). De assinalar são também o diário publicado a partir de 1981 (Conta Corrente) e o vol. de ensaios Arte Tempo (1988). Em 1991 ganha o Prémio Europália, pelo conjunto da sua obra, e em 1992 é-lhe atribuído o Prémio Camões. Foi condecorado pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1979 e, em 1985, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura. Faleceu em Lisboa, a 1 de Março de 1996.

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Displaying 1 - 10 of 10 reviews
Profile Image for Luís.
2,488 reviews1,582 followers
November 21, 2021
In this text, Vergílio Ferreira addresses the future. Still, the recipient is mythical: there is only one recipient, who is himself, admitting the possibility of that future time in which everything is different, in which finally the mysteries, or the contradictions, that surround us, are resolved.

Eduardo Lourenço.
Profile Image for José Simões.
Author 1 book52 followers
June 26, 2020
Não estou certo de ter conseguido aproveitar todo o sumo deste texto. É melhor reler antes de comentar. Mas confirmou-me uma suspeita: Vergílio Ferreira é genial, seja na ficção, seja no ensaio. Juntamente com Saramago e Raúl Brandão (para não falar no Eça, no Camilo,...), todos eles escritores de topo mundial. Sim, ao lados dos Camus, dos Kafkas e dos Tolstois.
Profile Image for André.
114 reviews74 followers
April 12, 2017
«[A] morte é algo de mais incrivelmente absurdo, porque é o nada inimaginável, a impensável destruição do absoluto que conhecemos na irredutível e necessária pessoa que somos. Pobres palavras vãs: um «nada» imaginamo-lo sempre como algo que é... Mas o nada é a desaparição de nós a nós próprios, a anulação desta evidência que é a pessoa que está em nós, o puro vazio deste quid único, desta realidade que há em nós e nos assusta, porque é terrivelmente viva e verdadeira. A massa de tudo o que nos habita não é um aglomerado de coisas que se dispersem e fiquem como ficam as pedras de um muro que se desmorona: é a totalização de nós próprios, incrível individualidade, fulgurante presença, acto puro de ser, absurda necessidade de estar vivo, que é como se fosse maior que nós e nos dominasse e nos vivesse — essa flagrante evidência que nos assusta quando nos olhamos a um espelho. (...) O sono tem a forma de uma vulgar distracção... Mas a morte não é uma desatenção da vida: é a pura impessoalidade, um puro vazio oposto à pura totalidade, à maciça presença, à impregnação do nosso todo de tudo o que nos rodeia e assumimos. Saber bem, até à iluminação da vertigem, a distância alucinante destes dois extremos, é saber enfim onde se há-de recomeçar.»

Querido Vergílio, eterno Vergílio... Onde a origem dessa clarividência profunda que me esmaga de cada vez que te encontro?
Profile Image for tiago..
494 reviews130 followers
March 30, 2023
O mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos!

Nesta carta não se sabe muito bem a quem (a um Vergílio mais velho? a uma entidade futura, seja ela quem for?) Vergílio regressa aos temas que lhe são mais caros, e que voltaria a explorar no Aparição : num mundo sem Deus, um indivíduo consciente do seu alienamento do sentido universal procura significado para a vida. E investindo-se de uma atitude de quase maravilhamento pelo mistério da vida, o autor chega prontamente a uma conclusão: a arte, a criação, é a maior aproximação a um verdadeiro sentido para a vida que nos é possível encontrar.
Fazer... A memória dos deuses, agora que se nos desfez como forma de um refúgio, de uma justificação, reinventa em nós o sonho do seu poder: criar é afirmar no homem o sonho de divinização.

Densa, apesar de curta, esta pequena obra está cheia de recantos a explorar, e pede ser lida com calma, com toda a atenção que merece. Maioritariamente livre daquela condescendência que tanto azedou o Aparição para mim, esta Carta ao Futuro é para mim a melhor garantia de que Vergílio tem ainda muito para oferecer, aos que tiverem dispostos a falar com ele, por esta e por outras cartas sem resposta.
Profile Image for Filipe Nunes.
101 reviews13 followers
March 27, 2018
Uma ideia genial a nível de construção narrativa. Mas mais do que isso, esta curta obra é precisamente um testamento para o futuro. Vergílio Ferreira dá-nos as suas ideias sobre a condição humana, desabafa as suas principais ideias e preocupações em relação à Humanidade. Religião, Arte, História e Filosofia são áreas que o autor trata, de forma breve mas incisiva. Qualquer pessoa devia ler este livrinho que contém tanta sabedoria sobre nós mesmos.

Fico com muita curiosidade para ler mais coisas deste autor.
Profile Image for Francisco Cambim.
18 reviews9 followers
January 23, 2016
Muito bom. Não dei as cinco estrelas (talvez merecidas) por não me ter revisto em todas as partes e todos os temas abordados no livro, mas há passagens muito interessantes, com as quais me identifiquei muito e nas quais (em algumas) já tinha pensado.
Deixo uma crítica bastante pessoal, mas é, de certo modo, correspondente à forma como li e me encontrei no livro. Vale a pena a leitura.
Profile Image for João Mendes.
323 reviews20 followers
June 20, 2025
Vergílio escreve dos melhores romances que já li. Tem contos magníficos, os diários são fascinantes, e este ensaio é também muito bom. Os poemas, no entanto, estão ao nível de um aluno do ensino secundário, e esse é o único motivo pelo qual eu tenho a certeza que este homem é humano.
Profile Image for Rita Guimarães.
52 reviews3 followers
January 15, 2023
"Sim, eles conhecem a 'fraternidade' e erguem-na como bandeira da sua redenção. Mas da fraternidade eles sabem apenas a fácil estratégia das palavras trocadas, dos braços que se apoiam uns nos outros contra o medo. Mas a profunda fraternidade tu o saberás, meu amigo - não é uma cadeia de braços, mas uma comunhão do silêncio, uma comunhão do sangue."


"Recuperar a vertigem da iniciação é um raro milagre de raros instantes apenas. Porque o que importa não é saber: o que importa é ver."


"Sei, sei bem, meu amigo, que o corpo que me sinto é um pobre arranjo de água e barro, sei bem, de uma absoluta evidência, dessa evidência gerada na raiz das vísceras, que o sentir-me uma pessoa, o reconhecer-me vivo é um ponto de chegada desde as eras de biliões, desde a força que se multiplicou a partir do que quiseres, da eterna laboração do universo que se cumpre. Sei-o, sei-o. Mas a interrogação que me angustia é mais forte do que sabê-lo."
7 reviews
June 2, 2022
📬 uma caótica epifania em prosa 📬
(para se ler muito devagarinho e reler certas passagens as vezes que forem precisas)
Profile Image for Mariana Pinto.
14 reviews
August 23, 2025
Gostei imenso de várias reflexões que o autor fez ao longo do livro, no entanto sinto a necessidade de voltar posteriormente, depois de mais maturidade, para ler com mais calma algumas passagens que talvez não tenha compreendido na plenitude.
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