Conheci o trabalho da Julia Dantas por "Ela se chama Rodolfo" (2022), um livro mais leve e de humor ligeiro, cheio de pequenas graças ao tratar de temas como gênero e relacionamentos enquanto desenvolvia a trama. Talvez por isso tenha estranhado a mão pesada no drama de "Ruína y leveza" (2015). Tem uma parte que eu gostei bastante, porém, passada no Peru, em que a autora fala de machismo no país e dos impactos da construção de uma hidrelétrica na comunidade local e nas florestas. Em seguida, comenta que por estímulos do governo a diversidade de alpacas cinza, beges e marrons foi sendo reduzida a alpacas brancas, porque esse fio seria mais valorizado pelo mercado.
A parte que não me atraiu tanto foi a dos relacionamentos da protagonista, não pelos fatos em si, mas por tudo levar um grande drama. Um chifre tem um enorme peso que parece nunca se diluir. Namorar um cara mais novo que faz tudo por ela se torna um "não saber ser amada" que leva a duas semanas de depressão, e por aí vai. É um tom geral da história que encontra mais equilíbrio quando a narradora para de falar de si mesma e passa a falar do entorno, como é o caso do Peru, embora em várias situações tente arrumar correlatos na própria vida, numa personalidade meio narcisista.
Há também o fato de que a narradora é uma pessoa desagradável, algo comum em certa escola literária, um tipo de protagonista muito cultuado no trabalho de Michael Chabon, por exemplo, e que só funciona comigo quando acompanhado de certa patetice, como é o caso em "Ela se chama Rodolfo". Acho que a patetice é um truque simples que humaniza esse tipo de personagem e que poderia ter ajudado a protagonista de "Ruína y leveza" a mostrar camadas para além do excesso de importância que dá a si e tudo que passou. São escolhas narrativas que não comprometem a qualidade da prosa do livro, mas que acabaram por me distanciar de algumas situações apresentadas na construção da história.