Labor, de Catarina Barros, é um ensaio autobiográfico que parte da experiência de uma mulher para construir uma reflexão sobre maternidade, trabalho, precariedade e escrita. A história é pessoal, mas há questões que levanta que são sociais.
«Quando uma pessoa engravida aos vinte e um, ninguém lhe dá os parabéns.»
Esta é a premissa do livro: uma gravidez inesperada. A frase expõe o preconceito associado à maternidade considerada precoce. Se a mesma mulher interrompesse a gravidez e ninguém soubesse, talvez continuasse a ser aceite sem que lhe apontassem o dedo. Ao levar a gravidez até ao fim, torna-se alvo de julgamento e vê o seu percurso condicionado de uma forma que não acontece da mesma maneira ao pai. Os estudos, o trabalho e as possibilidades de futuro podem ser afetados. A sociedade parece reservar à mulher o peso da decisão, mas também o da penalização.
«Naquela época, eu vivia uma vida quase sem testemunhas. (...) Quando batiam à porta, nunca sabia quem ia aparecer, não do lado de fora, mas de dentro, quando eu a fosse abrir.»
Há uma solidão profunda nestas palavras. Uma mãe também mulher e jovem, mas as responsabilidades parecem não lhe deixar espaço para ser mais nada. É uma mulher sem escolhas e uma jovem sem quereres. A vida vai-se organizando em torno daquilo que tem de ser feito, enquanto a pessoa que existe para lá das obrigações corre o risco de ficar esquecida.
São vinte os trabalhos mencionados, e cada capítulo tem o nome de uma função desempenhada. Esta escolha dá forma a um percurso marcado menos pela vocação do que pela necessidade de ganhar dinheiro. Não há um caminho profissional a construir, mas trabalhos a aceitar, contas a pagar e uma vida a assegurar. A precariedade não se resume ao salário: está também no tempo e na energia que faltam para fazer outras escolhas.
«A minha história não fazia sentido, a minha carreira não era verosímil e o que eu chamava de percurso era tudo menos um caminho. Se ao longo de todos esses anos eu sempre tinha querido escrever, que significado tinha, para mim, o verbo querer?»
O que significa querer quando as circunstâncias deixam tão pouco espaço para concretizar aquilo que se deseja? E o que acontece aos sonhos quando são sucessivamente adiados pelas exigências da vida?
«O problema do trabalho não era o que eu tinha de fazer, mas o que ele me ia fazendo a mim.»
O trabalho ocupa um lugar central neste ensaio, não apenas como meio de subsistência, mas como força que molda a identidade, consome energia e condiciona o futuro. A crítica não se dirige simplesmente ao ato de trabalhar, mas a uma realidade em que a necessidade de sobreviver pode afastar uma pessoa daquilo que gostaria de ser e fazer.
«O meu filho escapa-me. Ao insistir em ser outro, recusa ser o produto do meu empenho (…) A despeito da sua vontade, e em absoluto segredo, tornei-o narrador da minha história, autor da minha vida. Estou à espera que decida o meu fim.»
Talvez não haja uma mais sentida declaração de amor do que esta. Um amor que deseja a felicidade do filho, mesmo sabendo que não pode determinar o seu caminho, e que lhe entrega o poder sobre a própria vida.
«Como escrever, se está sol lá fora e as roseiras têm sede?»
Uma frase belíssima, que não precisa de explicação. As roseiras têm sede. Há sempre alguma coisa a precisar de atenção, uma tarefa que não pode esperar, uma responsabilidade que se sobrepõe ao desejo de escrever. E assim, aquilo que importa fica, tantas vezes, para depois.
«Escrevo não sobre o que vivi, mas sobre o que fui pensando acerca do que estava a viver.»
É também aqui que o ensaio encontra a sua força. Catarina Barros não se limita a narrar acontecimentos: regressa a eles, interroga-os e procura compreender o que fizeram dela. As referências e citações de outras autoras e obras literárias entram nesse diálogo, ampliando a reflexão e mostrando como uma experiência individual pode encontrar eco na literatura.
A escrita é fluida, envolvente,reflexiva e com tom confessional. É um primeiro livro que revela uma autora com muito para dizer e uma forma própria de o fazer.
«A minha obra é o meu curriculum vitae.»
Labor levanta questões sobre quanto da vida é determinado pelas escolhas e quanto é condicionado pelas circunstâncias, pelas responsabilidades e pela necessidade de garantir o sustento.
Porque sobreviver também ocupa uma vida. E nem sempre sobra espaço para a viver como se gostaria.
Labor tornou-se um favorito! Catarina Barros, uma autora a seguir.
Pensei em pré-comprar, depois pensei: e se eu esperasse para, no próprio dia, o ir buscar em mãos à livraria mais próxima? E se arriscasse a possibilidade de? Decido arriscar. No dia, dia 5, feriado, vou à Almedina e peço encarecidamente à livreira que veja se já chegou. Diz-me que não está nas prateleiras mas que tem lá dentro umas caixas da Penguin e promete que, se lá estiver, são só cinco minutos. Espero os cinco minutos enquanto a minha filha se agarra a um puzzle e rasga o invólucro que o protege. Penso que não estava a contar gastar tanto dinheiro mas esqueço-me disso quando a livreira volta com o livro na mão, triunfante. Esqueço-me de lhe perguntar o nome, queria agradecer-lhe, reconhecendo-a; falho. Em casa, horas depois, já o puzzle foi desarrumado e arrumado dezenas de vezes, já a bebé dorme, os dedinhos com ar de inocentes, nenhum invólucro à vista, leio o livro de uma assentada. É uma da manhã e preciso de escrever sobre isto. Agora que sei aquilo porque esperaria, agradeço também a mim mesma por ter visão. A visão é o mais importante. Fica a recomendação.
Um livro de não ficção. Ensaio autobiográfico duma vida de labor. Maternidade e precariedade são temas transversais em toda a narrativa, numa escrita reflexiva sobre o desejo de escrita. Escrever exige tempo e dinheiro. Um livro que tem tanto de crítica social num modelo de vida também ele em avaliação com a culpa e a solidariedade. Intimo e confessional numa escrita cuidada e acutilante. Um livro que faz eco no leitor, principalmente um que reconheça as muitas referências literárias. Diferenciado em bom.
Quis ler este livro pela ligação que a palavra «labor» estabelece entre a maternidade e o trabalho. Trabalho foi algo que não faltou à Catarina, em muitos sítios e nas mais variadas áreas. A precariedade que a acompanhou durante uma grande parte da vida é-me próxima. Há algumas reflexões e observações sobre o mercado de trabalho, a meritocracia, os privilégios e a vida de quem está longe de os ter que gostei de ler e nas quais reconheci vivências minhas.
Em relação à maternidade, há o sentimento de culpa, de não ser suficiente, de ter de esperar que o filho cresça para voltar a ser mulher, para voltar a ser ela própria. Até lá, é apenas mãe, a tentar sobreviver.
«Labor» abarca ainda o processo de escrita da autora, as inseguranças, a falta de tempo, a falta de vontade e o cansaço que não lhe permitia escrever quando queria. Fazer nascer um livro pode ser semelhante a fazer nascer um filho. É um processo laborioso, e a autora entrega-o ao mundo tal como uma mãe entrega um filho, depois de o criar. E, tal como Woolf o descreveu, para escrever é preciso dinheiro e que quem escreve tenha um tempo e um espaço só seu.
É uma leitura curta, mas marcante. Com ecos de Ernaux, diria que tive sempre a sensação de estar a ler algo bastante semelhante. Aliás, Ernaux é mencionada algumas vezes e há várias outras referências literárias que a autora encadeia nas suas reflexões. A narrativa segue uma linha temporal, mas embora haja algumas viagens no tempo, não é de todo confusa e a escrita pareceu-me direta, sem grandes sentimentalismos, apesar de haver momentos algo líricos. Ainda que tenha achado certas descrições talvez um pouco forçadas e de ter torcido o nariz a uma situação, não por uma questão de julgamento, mas simplesmente porque não fez sentido para mim, gostei da leitura. E refletindo sobre isso, concluo que a vida é da Catarina e que o leitor está apenas a vê-la de fora. A vida é de quem a vive.
Que boa surpresa. Completamente rendida. Que livro fantástico. Que escrita!
“À medida que o meu filho cresce, sinto-me usada. O meu corpo, criatividade, capacidade de concentração, silêncio — tudo terra queimada. Nada é meu, fui espoliada. Entreguei o meu tempo à necessidade de prover e cuidar. Presto os mais variados serviços ao patrão que eu própria fiz. Quando o meu filho sair de casa, mais ou menos acabado, não vou ser promovida. Não há, para mim, prémio de carreira; não darei a última lição. Não espero fitas nem medalhas.“
“Testemunhar a relação da minha mãe com a sua própria morte tornou-a, contrariamente ao que ela desejava, imortal. Quanto mais ameaçava tirar a própria vida, menos eu acreditava que ela pudesse, de facto, morrer. Habituei-me às palavras dela como nos habituamos a viver em casas com baratas, ou à solidão. Ao princípio, domina-nos o medo, julgamos não ser capazes, choramos na soleira da porta, esperando ajuda. Quando ninguém vem, sabemos o que temos de fazer.”
Uma reflexão interessante e bem escrita sobre trabalho, precariedade e maternidade. Sublinhei e anotei imensas frases. Gostava que o último capítulo tivesse sido dividido ao meio e que essa segunda parte tivesse o título “escritora”.
Não sou e, por isso, não vou conseguir escrever sobre "Labor", de Catarina Barros. É um livro de 144 páginas, encomenda da qual não recebi e-mail e por isso, sem tracking e, claro, data de entrega.
É assim a minha vida, um improviso para com situações sem resolução à vista. Isto não foi nada e o livro chegou. E se sou suspeita porque admiro a autora, mais suspeita serei porque me surpreendo, ainda assim.
A Catarina disse (escreveu!, que incrível) que não estou sozinha. A Catarina, mesmo sem saber, consolidou a minha (não) solidão e agradecer-lhe estará por vir.
Sim, a Catarina falou de mim.
Separa-nos grandemente a maternidade, no entanto, a "maternidade" é deveras complexa e, por isso mesmo, extensa a outros fóruns, meios, afectos e identidades.
A Catarina falou por mim e não foi pouco, foi muito - foi tudo.
Disseram-lhe para não utilizar o plural numa autobiografia. Ora pois bem, Catarina, aqui estou eu a empregar o "nós".
A precariedade financeira, amorosa, intelectual, criativa, tal como ela (as) descreve. A precariedade em ser, em estar. A precariedade a ser ela mesma precária no lugar que tem o nome de ser nosso mas que não é - disseram-nos ou passámos a acreditar em mentiras? Não é o sempre que é muito tempo, é o nunca.
Não se trata de vitimização, é a consciência, por vezes difusa, de que vestimos uma inaptidão pontual, renovável, excruciante. Uma pressa demasiado lenta que nos descreve o passado, penteia o presente e circunscreve o futuro, esse falso profeta - somos a própria queda. Foi assim que nos ensinaram, foi assim que aprendemos, é assim que praticamos a religião do cair e levantar sem pensar muito no assunto. Temos outros assuntos, como sobreviver. Talvez tenhamos aprendido sozinhas, sem ensinamento, somos animais.
A Catarina não me traz representatividade, seria redutor colocar isto assim. Aliás, se há algo nesta tentativa de escrever sobre este livro, é a arrogância de querer equiparar a minha vida à de alguém que descreve coisas das quais passo os dias, aparentemente, alheada. No entanto, aqui estou eu, sem forma de lhe dizer, justamente, que falou por mim. Que falou de mim e que tenho o livro todo sublinhado, rabiscado, anotado, por forma a não me esquecer que o "eu" (não) sou eu, em dependência de contextos e circunstâncias, escolhas e decisões. É, temos essa tendência, a do esquecimento. A calendarização minuciosa de quem gostaríamos de ter sido ou de vir a ser algo que nos é interdito em sede própria.
Queria muito partilhar todos os excertos, indicações, citações. Seria, uma vez mais, redutor. Eu não sou ninguém a par de ser alguém que tenta tanta coisa sem grande sucesso.
Quem me dera ser outras coisas - eu mesma, por exemplo.
(esta é uma carta de amor a Catarina Barros - a que não foi, a que não é, a que não será)
#2
Ainda sobre o texto anterior.
Não, desculpem, vou recomeçar.
Isto não é sobre o texto anterior, é sobre a Catarina (e a beleza de matar fascistas? não, a Barros) e o seu livro, "Labor".
Também é sobre mim, o que seria do meu ego sem o meu ego, não é?
É sobre a dissonância cognitiva onde estamos imersas para que possamos ocupar a persona. Qual? A ficcionada, a da nossa projecção completamente irrealista, ou a realista e completamente desfasada do que é o termo "realização pessoal em processamento", esse aviso laranja em auto-estradas onde não passamos, o que seria passarmos onde quer que fosse.
A não pertença e os seus sintomas, a cândida forma de não caber, a impossibilidade, a impermeabilidade, a desfaçatez com que, adivinhem, não somos. Não somos, percebem? É um género de puzzle mas ao contrário, é para desmontar, perder peças e ignorar que existe, algures num canto da casa. Qual casa? Uma qualquer.
Um eu creditado mas inviabilizado, Nós, mulheres pobres, pobres mulheres, como nos vêem, como nos vemos, fazemos a cama lavada de restos. E até esse fazer vem em forma de alucinação - não é um oásis, é em forma de medo. Vivemos do e para o medo, não consigo dar outro nome a este estado constante de vigília. Talvez seja outra coisa, mas de coisas está o inferno cheio e cá estamos nós, a viver nele.
Talvez me surjam novamente coisas para dizer (escrever é dizer, não é? não percebo nada disto). Estas vieram enquanto tentava adormecer, imersa em água, paralisada na rotunda com e sem saídas - sim, com e sem saídas.
Onde há entrada, nem sempre há saída. E quando há, nem sempre é uma emergência, é só uma sinalética sem significado, mal parado, mal estacionado, mal empregue.
Tenho dúvidas sobre autoficção. É literatura? É um outro género? É arte, enfim? Há momentos em que as dúvidas se dissipam. Quando li Yoga de Emanuel Carrère ou Monique se liberta de Edouard Louis, por exemplo. E quando li Labor de Catarina Passos. Comprei este último num impulso. Mas assim que iniciei a sua leitura já não o consegui largar. A autora leva-nos pela sua mão, acompanhamos as muitas profissões que teve, como se viu e como foi vista nelas, o trabalho que dá criar um filho a solo num contexto de precaridade laboral. Não é só ver cerca de 20 anos de vida (mais umas analepses) em menos de 150 páginas. Isso já seria muito, pois o que recortar e colar na caderneta existencial? Como distinguir o privado do íntimo ou o essencial do acessório quando fazemos da nossa vida matéria-prima da escrita? Já é muito esse trabalho. Mas há ainda a escrita luminosa no seu rigor descritivo e reflexivo. Palavras escolhidas para exporem dúvidas e certezas, que nos convocam a pensar também sobre os nossos preconceitos. Um livro belo e duro que certamente marca o ano editorial no nosso país.
Senti muitas vezes que me estaria a ler, nos meus cadernos, nas páginas deste livro. A Catarina escreve sobre si e sobre a sua vida, mas onde cabe também a minha e certamente a de muitas outras mulheres. Isto não torna a escrita familiar mas sim precisa, a vida com a precisão de estarmos à procura de ser quem sentimos que somos.