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Labor

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104 pages, Kindle Edition

Published October 5, 2026

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Catarina Barros

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Profile Image for Leonor.
97 reviews56 followers
October 19, 2026
Labor, de Catarina Barros, é um ensaio autobiográfico que parte da experiência de uma mulher para construir uma reflexão sobre maternidade, trabalho, precariedade e escrita. A história é pessoal, mas há questões que levanta que são sociais.

«Quando uma pessoa engravida aos vinte e um, ninguém lhe dá os parabéns.»

Esta é a premissa do livro: uma gravidez inesperada. A frase expõe o preconceito associado à maternidade considerada precoce. Se a mesma mulher interrompesse a gravidez e ninguém soubesse, talvez continuasse a ser aceite sem que lhe apontassem o dedo. Ao levar a gravidez até ao fim, torna-se alvo de julgamento e vê o seu percurso condicionado de uma forma que não acontece da mesma maneira ao pai. Os estudos, o trabalho e as possibilidades de futuro podem ser afetados. A sociedade parece reservar à mulher o peso da decisão, mas também o da penalização.

«Naquela época, eu vivia uma vida quase sem testemunhas. (...) Quando batiam à porta, nunca sabia quem ia aparecer, não do lado de fora, mas de dentro, quando eu a fosse abrir.»

Há uma solidão profunda nestas palavras. Uma mãe também mulher e jovem, mas as responsabilidades parecem não lhe deixar espaço para ser mais nada. É uma mulher sem escolhas e uma jovem sem quereres. A vida vai-se organizando em torno daquilo que tem de ser feito, enquanto a pessoa que existe para lá das obrigações corre o risco de ficar esquecida.

São vinte os trabalhos mencionados, e cada capítulo tem o nome de uma função desempenhada. Esta escolha dá forma a um percurso marcado menos pela vocação do que pela necessidade de ganhar dinheiro. Não há um caminho profissional a construir, mas trabalhos a aceitar, contas a pagar e uma vida a assegurar. A precariedade não se resume ao salário: está também no tempo e na energia que faltam para fazer outras escolhas.

«A minha história não fazia sentido, a minha carreira não era verosímil e o que eu chamava de percurso era tudo menos um caminho. Se ao longo de todos esses anos eu sempre tinha querido escrever, que significado tinha, para mim, o verbo querer?»

O que significa querer quando as circunstâncias deixam tão pouco espaço para concretizar aquilo que se deseja? E o que acontece aos sonhos quando são sucessivamente adiados pelas exigências da vida?

«O problema do trabalho não era o que eu tinha de fazer, mas o que ele me ia fazendo a mim.»

O trabalho ocupa um lugar central neste ensaio, não apenas como meio de subsistência, mas como força que molda a identidade, consome energia e condiciona o futuro. A crítica não se dirige simplesmente ao ato de trabalhar, mas a uma realidade em que a necessidade de sobreviver pode afastar uma pessoa daquilo que gostaria de ser e fazer.

«O meu filho escapa-me. Ao insistir em ser outro, recusa ser o produto do meu empenho (…) A despeito da sua vontade, e em absoluto segredo, tornei-o narrador da minha história, autor da minha vida. Estou à espera que decida o meu fim.»

Talvez não haja uma mais sentida declaração de amor do que esta. Um amor que deseja a felicidade do filho, mesmo sabendo que não pode determinar o seu caminho, e que lhe entrega o poder sobre a própria vida.

«Como escrever, se está sol lá fora e as roseiras têm sede?»

Uma frase belíssima, que não precisa de explicação. As roseiras têm sede. Há sempre alguma coisa a precisar de atenção, uma tarefa que não pode esperar, uma responsabilidade que se sobrepõe ao desejo de escrever. E assim, aquilo que importa fica, tantas vezes, para depois.

«Escrevo não sobre o que vivi, mas sobre o que fui pensando acerca do que estava a viver.»

É também aqui que o ensaio encontra a sua força. Catarina Barros não se limita a narrar acontecimentos: regressa a eles, interroga-os e procura compreender o que fizeram dela. As referências e citações de outras autoras e obras literárias entram nesse diálogo, ampliando a reflexão e mostrando como uma experiência individual pode encontrar eco na literatura.

A escrita é fluida, envolvente,reflexiva e com tom confessional. É um primeiro livro que revela uma autora com muito para dizer e uma forma própria de o fazer.

«A minha obra é o meu curriculum vitae.»

Labor levanta questões sobre quanto da vida é determinado pelas escolhas e quanto é condicionado pelas circunstâncias, pelas responsabilidades e pela necessidade de garantir o sustento.

Porque sobreviver também ocupa uma vida. E nem sempre sobra espaço para a viver como se gostaria.

Labor tornou-se um favorito! Catarina Barros, uma autora a seguir.
Profile Image for Raquel Dias da Silva.
84 reviews8 followers
October 5, 2026
I

Pensei em pré-comprar, depois pensei: e se eu esperasse para, no próprio dia, o ir buscar em mãos à livraria mais próxima? E se arriscasse a possibilidade de? Decido arriscar. No dia, dia 5, feriado, vou à Almedina e peço encarecidamente à livreira que veja se já chegou. Diz-me que não está nas prateleiras mas que tem lá dentro umas caixas da Penguin e promete que, se lá estiver, são só cinco minutos. Espero os cinco minutos enquanto a minha filha se agarra a um puzzle e rasga o invólucro que o protege. Penso que não estava a contar gastar tanto dinheiro mas esqueço-me disso quando a livreira volta com o livro na mão, triunfante. Esqueço-me de lhe perguntar o nome, queria agradecer-lhe, reconhecendo-a; falho. Em casa, horas depois, já o puzzle foi desarrumado e arrumado dezenas de vezes, já a bebé dorme, os dedinhos com ar de inocentes, nenhum invólucro à vista, leio o livro de uma assentada. É uma da manhã e preciso de escrever sobre isto. Agora que sei aquilo porque esperaria, agradeço também a mim mesma por ter visão. A visão é o mais importante. Fica a recomendação.
Profile Image for Vera Sopa.
851 reviews88 followers
October 11, 2026
Um livro de não ficção. Ensaio autobiográfico duma vida de labor. Maternidade e precariedade são temas transversais em toda a narrativa, numa escrita reflexiva sobre o desejo de escrita. Escrever exige tempo e dinheiro.
Um livro que tem tanto de crítica social num modelo de vida também ele em avaliação com a culpa e a solidariedade. Intimo e confessional numa escrita cuidada e acutilante. Um livro que faz eco no leitor, principalmente um que reconheça as muitas referências literárias. Diferenciado em bom.
Profile Image for Andreia Machado.
272 reviews35 followers
October 11, 2026
Quis ler este livro pela ligação que a palavra «labor» estabelece entre a maternidade e o trabalho. Trabalho foi algo que não faltou à Catarina, em muitos sítios e nas mais variadas áreas. A precariedade que a acompanhou durante uma grande parte da vida é-me próxima. Há algumas reflexões e observações sobre o mercado de trabalho, a meritocracia, os privilégios e a vida de quem está longe de os ter que gostei de ler e nas quais reconheci vivências minhas.

Em relação à maternidade, há o sentimento de culpa, de não ser suficiente, de ter de esperar que o filho cresça para voltar a ser mulher, para voltar a ser ela própria. Até lá, é apenas mãe, a tentar sobreviver.

«Labor» abarca ainda o processo de escrita da autora, as inseguranças, a falta de tempo, a falta de vontade e o cansaço que não lhe permitia escrever quando queria. Fazer nascer um livro pode ser semelhante a fazer nascer um filho. É um processo laborioso, e a autora entrega-o ao mundo tal como uma mãe entrega um filho, depois de o criar.
E, tal como Woolf o descreveu, para escrever é preciso dinheiro e que quem escreve tenha um tempo e um espaço só seu.

É uma leitura curta, mas marcante. Com ecos de Ernaux, diria que tive sempre a sensação de estar a ler algo bastante semelhante. Aliás, Ernaux é mencionada algumas vezes e há várias outras referências literárias que a autora encadeia nas suas reflexões.
A narrativa segue uma linha temporal, mas embora haja algumas viagens no tempo, não é de todo confusa e a escrita pareceu-me direta, sem grandes sentimentalismos, apesar de haver momentos algo líricos.
Ainda que tenha achado certas descrições talvez um pouco forçadas e de ter torcido o nariz a uma situação, não por uma questão de julgamento, mas simplesmente porque não fez sentido para mim, gostei da leitura. E refletindo sobre isso, concluo que a vida é da Catarina e que o leitor está apenas a vê-la de fora. A vida é de quem a vive.
Profile Image for Daniela Santos.
35 reviews1 follower
October 17, 2026
Que boa surpresa. Completamente rendida. Que livro fantástico. Que escrita!


“À medida que o meu filho cresce, sinto-me usada.
O meu corpo, criatividade, capacidade de concentração, silêncio — tudo terra queimada. Nada é meu, fui espoliada.
Entreguei o meu tempo à necessidade de prover e cuidar.
Presto os mais variados serviços ao patrão que eu própria fiz. Quando o meu filho sair de casa, mais ou menos acabado, não vou ser promovida. Não há, para mim, prémio de carreira; não darei a última lição. Não espero fitas nem medalhas.“

“Testemunhar a relação da minha mãe com a sua própria morte tornou-a, contrariamente ao que ela desejava, imortal. Quanto mais ameaçava tirar a própria vida, menos eu acreditava que ela pudesse, de facto, morrer. Habituei-me às palavras dela como nos habituamos a viver em casas com baratas, ou à solidão. Ao princípio, domina-nos o medo, julgamos não ser capazes, choramos na soleira da porta, esperando ajuda. Quando ninguém vem, sabemos o que temos de fazer.”
Profile Image for Claudia.
7 reviews4 followers
October 18, 2026
Uma reflexão interessante e bem escrita sobre trabalho, precariedade e maternidade. Sublinhei e anotei imensas frases. Gostava que o último capítulo tivesse sido dividido ao meio e que essa segunda parte tivesse o título “escritora”.
Profile Image for Patrícia  Ricardo.
3 reviews
October 12, 2026
#1

Quem me dera ser critica literária.

Não sou e, por isso, não vou conseguir escrever sobre "Labor", de Catarina Barros. É um livro de 144 páginas, encomenda da qual não recebi e-mail e por isso, sem tracking e, claro, data de entrega.

É assim a minha vida, um improviso para com situações sem resolução à vista. Isto não foi nada e o livro chegou. E se sou suspeita porque admiro a autora, mais suspeita serei porque me surpreendo, ainda assim.

A Catarina disse (escreveu!, que incrível) que não estou sozinha. A Catarina, mesmo sem saber, consolidou a minha (não) solidão e agradecer-lhe estará por vir.

Sim, a Catarina falou de mim.

Separa-nos grandemente a maternidade, no entanto, a "maternidade" é deveras complexa e, por isso mesmo, extensa a outros fóruns, meios, afectos e identidades.

A Catarina falou por mim e não foi pouco, foi muito - foi tudo.

Disseram-lhe para não utilizar o plural numa autobiografia. Ora pois bem, Catarina, aqui estou eu a empregar o "nós".

A precariedade financeira, amorosa, intelectual, criativa, tal como ela (as) descreve. A precariedade em ser, em estar. A precariedade a ser ela mesma precária no lugar que tem o nome de ser nosso mas que não é - disseram-nos ou passámos a acreditar em mentiras? Não é o sempre que é muito tempo, é o nunca.

Não se trata de vitimização, é a consciência, por vezes difusa, de que vestimos uma inaptidão pontual, renovável, excruciante. Uma pressa demasiado lenta que nos descreve o passado, penteia o presente e circunscreve o futuro, esse falso profeta - somos a própria queda. Foi assim que nos ensinaram, foi assim que aprendemos, é assim que praticamos a religião do cair e levantar sem pensar muito no assunto. Temos outros assuntos, como sobreviver. Talvez tenhamos aprendido sozinhas, sem ensinamento, somos animais.

A Catarina não me traz representatividade, seria redutor colocar isto assim. Aliás, se há algo nesta tentativa de escrever sobre este livro, é a arrogância de querer equiparar a minha vida à de alguém que descreve coisas das quais passo os dias, aparentemente, alheada. No entanto, aqui estou eu, sem forma de lhe dizer, justamente, que falou por mim. Que falou de mim e que tenho o livro todo sublinhado, rabiscado, anotado, por forma a não me esquecer que o "eu" (não) sou eu, em dependência de contextos e circunstâncias, escolhas e decisões. É, temos essa tendência, a do esquecimento. A calendarização minuciosa de quem gostaríamos de ter sido ou de vir a ser algo que nos é interdito em sede própria.

Queria muito partilhar todos os excertos, indicações, citações. Seria, uma vez mais, redutor. Eu não sou ninguém a par de ser alguém que tenta tanta coisa sem grande sucesso.

Quem me dera ser outras coisas - eu mesma, por exemplo.

(esta é uma carta de amor a Catarina Barros - a que não foi, a que não é, a que não será)


#2

Ainda sobre o texto anterior.

Não, desculpem, vou recomeçar.

Isto não é sobre o texto anterior, é sobre a Catarina (e a beleza de matar fascistas? não, a Barros) e o seu livro, "Labor".

Também é sobre mim, o que seria do meu ego sem o meu ego, não é?

É sobre a dissonância cognitiva onde estamos imersas para que possamos ocupar a persona. Qual? A ficcionada, a da nossa projecção completamente irrealista, ou a realista e completamente desfasada do que é o termo "realização pessoal em processamento", esse aviso laranja em auto-estradas onde não passamos, o que seria passarmos onde quer que fosse.

A não pertença e os seus sintomas, a cândida forma de não caber, a impossibilidade, a impermeabilidade, a desfaçatez com que, adivinhem, não somos. Não somos, percebem? É um género de puzzle mas ao contrário, é para desmontar, perder peças e ignorar que existe, algures num canto da casa. Qual casa? Uma qualquer.

Um eu creditado mas inviabilizado, Nós, mulheres pobres, pobres mulheres, como nos vêem, como nos vemos, fazemos a cama lavada de restos. E até esse fazer vem em forma de alucinação - não é um oásis, é em forma de medo. Vivemos do e para o medo, não consigo dar outro nome a este estado constante de vigília. Talvez seja outra coisa, mas de coisas está o inferno cheio e cá estamos nós, a viver nele.

Talvez me surjam novamente coisas para dizer (escrever é dizer, não é? não percebo nada disto). Estas vieram enquanto tentava adormecer, imersa em água, paralisada na rotunda com e sem saídas - sim, com e sem saídas.

Onde há entrada, nem sempre há saída. E quando há, nem sempre é uma emergência, é só uma sinalética sem significado, mal parado, mal estacionado, mal empregue.
Profile Image for Carla Coelho.
Author 6 books31 followers
October 7, 2026
Tenho dúvidas sobre autoficção. É literatura? É um outro género? É arte, enfim? Há momentos em que as dúvidas se dissipam. Quando li Yoga de Emanuel Carrère ou Monique se liberta de Edouard Louis, por exemplo. E quando li Labor de Catarina Passos. Comprei este último num impulso. Mas assim que iniciei a sua leitura já não o consegui largar. A autora leva-nos pela sua mão, acompanhamos as muitas profissões que teve, como se viu e como foi vista nelas, o trabalho que dá criar um filho a solo num contexto de precaridade laboral. Não é só ver cerca de 20 anos de vida (mais umas analepses) em menos de 150 páginas. Isso já seria muito, pois o que recortar e colar na caderneta existencial? Como distinguir o privado do íntimo ou o essencial do acessório quando fazemos da nossa vida matéria-prima da escrita? Já é muito esse trabalho. Mas há ainda a escrita luminosa no seu rigor descritivo e reflexivo. Palavras escolhidas para exporem dúvidas e certezas, que nos convocam a pensar também sobre os nossos preconceitos. Um livro belo e duro que certamente marca o ano editorial no nosso país.
Profile Image for Marta Nunes.
72 reviews4 followers
October 19, 2026
Senti muitas vezes que me estaria a ler, nos meus cadernos, nas páginas deste livro. A Catarina escreve sobre si e sobre a sua vida, mas onde cabe também a minha e certamente a de muitas outras mulheres. Isto não torna a escrita familiar mas sim precisa, a vida com a precisão de estarmos à procura de ser quem sentimos que somos.
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