No final do século XVIII e início do século XIX, a onda de revoltas de negros escravizados resultou num clima generalizado de histeria antinegro nas colônias, do qual nem as metrópoles brasileiras escapariam. Mas a principal inovação nesse período foi o envio de negros “indesejáveis” de volta à África, para que não perturbassem a ordem escravista. A maioria dos escravos expulsos do Brasil era composta por negros alforriados antes da abolição da escravidão no Brasil (1888). Os que retornaram do Brasil tiveram certamente muitos motivos, mas não é possível esquecer, entre eles, a violenta repressão à Revolta dos Malês (1835). Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política que, lá, conseguira o que a aristocracia agrária e escravista lhes negara nas Américas. Escrito pelo dramaturgo e escritor togolês Kangni Alem, Escravos conta a história dos primeiros afro-brasileiros. No início do século XIX, o tráfico negreiro fez a fortuna dos senhores de escravos e seus aliados no continente africano. O único que se atreve a falar contra a escravidão, o rei Adandozan, é deposto. Seu súdito mais fiel, um jovem mestre de rituais, é vendido para um comerciante Inglês e enviado como escravo ao Brasil. Kangni Alem narra a saga desse personagem que, depois de 24 anos como escravo e de participar de inúmeras revoltas, retorna à África para honrar a memória do seu rei, morto no esquecimento, para um país que o tornara estrangeiro.
Kangni Alem is a Togolese writer, translator and literary critic . He is also a playwright and director, who in 1989 founded the "Atelier Théâtre de Lom" (" Theatre Workshop of Lomé "). In 2003, he received the Great Literary Prize of Black Africa for his book, Cola Cola jazz. Also of note is his short story collections such as La gazelle s'agenouille pour pleurer.
O melhor romance que li sobre o período escravista brasileiro. O livro mostra ficcionalmente os bastidores da Revolta dos Malês, as suas condições sociais de existência e as formas e métodos de relações entre os escravizados que foram utilizadas para a insurreição. Romanceia sobre como as pessoas que foram escravizadas lidavam com o dilaceramento de suas vidas e de como elas procuravam se reconstruir e continuar vivendo, apesar de tudo. Longe de uma atitude passiva, o que se vê é uma revolta cuidadosamente planejada ao longo de décadas.
É interessante notar como o traficante de escravos Chachá é retratado: alguém sem muito escrúpulo que saiu fugido do Brasil para trabalhar num forte na costa africana. O livro traz também como os tecidos sociais internos aos reinos africanos bem como as relações entre os povos foram severamente abaladas pela escalada massiva da escravização e do tráfico. Desse modo, o romance consegue, de uma parte, retratar os dramas pessoais dos escravizados e, de outra, trazer a estrutura sociais nos dois continentes.
A vida de um sacedorte feito escravo e enviado para o Brasil, depois de intrigas que levam a destituição do rei de Daomé que defendia o fim da captura de africanos com destino às Américas, e que depois de passar duas décadas como escravo no Recife e na Bahia, retorna a Africa degredado após a repressão e derrota da revolta dos Malês, na qual se envolve. Uma boa história em um romance não tão bem encorpado como outros que tratam dos mesmos temas (captura e escravização, intriga e disputa em domínios africanos, revoltas escravas no Brasil e o papel dos "retornados" a Africa.).