Eu, como romântica incurável, procuro sempre ler histórias comoventes e avassaladoras, com um amor mais forte que a própria vida – um amor que apesar de todos os obstáculos consiga sobreviver e romper com os estigmas impelidos pela sociedade. Ao descobrir este pequeno grande livro escondido na estante percebi que este era o seu momento de “brilhar”.
Num Mississípi dos anos 50, a hipocrisia e o preconceito reinavam. Esta discriminação não foi exclusiva dos negros, como o fenómeno literário “As serviçais” fielmente retractou. As mulheres que não seguissem à regra as tradições e condutas sociais aceitáveis ou que correspondessem ao que se esperava delas – boas donas de casa, tal como leais e submissas ao marido e à família – eram condenadas e “postas de parte” por toda a comunidade. Foi com extrema admiração que vi Elizabeth Harvey superar esta barreira e lutar pelo seu verdadeiro amor, contra tudo e todos!
“Elizabeth, com vinte anos, estava informada em relação aos pássaros e às abelhinhas – afinal de contas, eram tempos modernos -, mas, para senhoras solteiras da sua classe social, a região da anatomia feminina discretamente mencionada como «a flor da feminilidade» era território terminantemente interdito aos membros do sexo oposto e até, à excepção da higiene básica, à própria mulher. Houvera alguns progressos desde a era dos espartilhos que a sua mãe vivera na juventude, mas, para uma jovem, ser conhecida como «fácil», mesmo em 1951, era quase tão ruinoso como ter a fama de incendiar automóveis.” p.25
Enquanto as duas irmãs e suas filhas, Sarah e Emily, desfolham as páginas do diário da mãe, os leitores são transportados para uma história de um grande amor, perante uma mulher indecisa entre dois homens. Às páginas do diário, junta-se a narração dos próprios acontecimentos como se acontecessem hoje mesmo, criando, assim, uma ligação mais forte com todo o enredo. Serpenteando por entre os pensamentos de Elizabeth, AJ e as duas irmãs vamos desvendando todos os segredos escondidos por detrás deste misterioso diário.
Escrito com emoção e simplicidade, mantendo o estilo de narrador na primeira pessoa, Eileen Goudge faz-nos mergulhar no enredo, que considero estar muito bem delineado, de uma forma tão profunda que não conseguimos parar de ler por um instante que seja, onde rimos e choramos com as personagens que se tornam tão queridas para nós.
“ – Amo-te, Elizabeth Harvey. Aconteça o que acontecer, nunca te esqueças disso.
- Não me esquecerei. – Ela sorriu contra o ombro dele, um sorriso secreto, só seu.
Acontecesse o que acontecesse, lembrar-se-ia sempre deste Natal. Para o resto da sua vida, guardá-lo-ia junto do coração, como AJ estava neste momento. Seria o sopro silencioso no centro de cada pensamento, a nota muda entre cada batimento do coração da vida. Um dia, quando tivesse filhos, desejaria o mesmo para eles: um momento no tempo em que o amor fosse tudo o que importasse.” P.160
Lê-se num par de horas e mal chegamos perto das últimas páginas, deparamo-nos com um final verdadeiramente maravilhoso e estonteante. Consegui adivinhar o final, pelas várias pistas deixadas ao longo dos capítulos, todavia, esta foi uma história que muito me surpreendeu e deixou no meu coração uma marca profunda. Passado algum tempo ainda consigo sentir a sua essência…
+ O formato pequeno (como um verdadeiro diário) e a capa belíssima transmitem acessibilidade e um encantamento impossível de resistir
+ Embora não seja um romance histórico, faz um óptimo retracto daquela época
+ A autora é capaz de descrever muitas informações em poucas páginas
+ As intrigas conseguem pôr o leitor sempre a pensar no que acontecerá a seguir
Independentemente dos gostos ou da idade este é um livro que consegue agradar a todos. Esta história comprova que não é preciso um livro ser avultado para ser fantástico, capaz de agarrar os seus leitores e de os inspirar! Sem dúvida que o voltarei a ler!