Muitos anos antes do 25 de Abril Manuel Alegre escreveu sobre o País de Abril, Maio e os cravos vermelhos.
Nesta antologia há muitos poemas que falam de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio, em Praça da Canção, editada em 1964, e em O Canto e as Armas, de 1967. Em O Canto e as Armas há, por exemplo, aqueles quatro versos de «Poemarma» que, decerto, anunciam o primeiro comunicado da Revolução:
«Que o poema seja microfone e fale uma noite destas de repente às três e tal para que a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal».
Mas, também, em «Lisboa perto e longe», a estrofe que canta, sete anos antes, Lisboa na rua, de cravo vermelho na mão, no Primeiro de Maio de 1974:
«Lisboa tem um cravo em cada mão tem camisas que Abril desabotoa mas em Maio Lisboa é uma canção onde há versos que são cravos vermelhos Lisboa que ninguém verá de joelhos.»
MANUEL ALEGRE nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Fez os estudos secundários no Porto, altura em que fundou, com José Augusto Seabra, o jornal Prelúdio. Do Liceu Alexandre Herculano, do Porto, passou a Coimbra, em cuja Universidade foi estudante de Direito, de par com uma grande actividade nas áreas da política, da cultura e do desporto. Destacado elemento dos movimentos estudantis, fez parte da Comissão da Academia que apoiou a candidatura de Humberto Delgado a presidente da República; foi um dos fundadores do Centro de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra (CITAC) e membro do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), foi ainda director do jornal A Briosa, redactor da revista Vértice e colaborador da Via Latina; praticante de natação, representou a Académica em provas internacionais.
Em 1962, foi mobilizado para Angola, tendo aí participado numa tentativa de revolta militar, pelo que esteve preso no forte de São Paulo de Luanda, cárcere onde conheceu Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Libertado da cadeia angolana, foi desmobilizado e enviado para Coimbra em regime de residência fixa. Em 1964, exilou-se para Argel, onde viveu dez anos. Ali seria dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), presidida por Humberto Delgado, e principal responsável e locutor da emissora de combate à ditadura de Salazar, A Voz da Liberdade. Após o 25 de Abril, regressou a Portugal, passando a dedicar-se à política no seio do Partido Socialista de que é membro da Comissão Política. Foi Secretário de Estado da Comunicação Social e Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro para os Assuntos Políticos do I Governo Constitucional (1976-1978), deputado à Assembleia da República (1976-2009) e membro do Conselho de Estado, do Conselho das Ordens Nacionais e do Conselho Social da Universidade de Coimbra. Em 2006 foi candidato à Presidência da República, obtendo 20,7% dos votos, tendo-se recandidato em 2011, onde obteve 19,7% dos votos.
Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.
Como poeta, começa a destacar-se nas colectâneas Poemas Livres (1963-1965), publicadas em Coimbra de par com o «Cancioneiro Vértice». Mas o grande reconhecimento dos leitores e da crítica nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), logo apreendidos pelas autoridades, mas com grande circulação nos meios intelectuais. Começando por tomar por base temática a resistência ao regime, o exílio, a guerra de África, logo a poesia de Manuel Alegre evoluiria num registo épico e lírico que bebe muito em Camões e numa escrita rítmica e melódica que pede ser recitada ou musicada. Daí ser tido como o poeta português mais musicado e cantado, e não só em Portugal, mas também, por exemplo, na Galiza (Grupo «Fuxan Os Ventos») e na Inglaterra (Tony Haynes, BBC). Daí Urbano Tavares Rodrigues: «Os dois grandes veios que alimentam a poesia de Manuel Alegre, o épico e o lírico, confluem numa irreprimível vocação órfica que dele faz o mais musical (e o mais cantável) dos poetas portugueses contemporâneos.»
Estreando-se na ficção com Jornada de África, em 1989, Manuel Alegre não deixa de arrastar para a prosa e pela prosa a sua vocação fundamental de poeta. «A poesia é a sua pátria», lembra Marie Claire Wromans, e confirma-o a prosa de A Terceira Rosa.
Para além das revistas e jornais já citados, Manuel Alegre tem colaboração dispersa por muitos outros jornais e revistas culturais, de que destacamos: A Poesia Útil (Coimbra, 1962), Seara Nova, o suplemento do Diário Popular «Letras e Artes», Cadernos de Literatura (Coimbra, 1978-), Jornal de Poetas e Trovadores (Lisboa, 1980-) e JL:
O País de Abril (...) fica na mágoa de o sabermos tão presente Que nos torna doentes sua ausência
TROVA DO VENTO QUE PASSA
"(...) mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça Há sempre alguém que semeia canções no vento que passa Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão Há sempre alguém que resiste Há sempre alguém que diz Não🌹
[Calhou estar a ouvir este audiobook, de excelente locução, e ver as imagens da série documental "Rumo à Liberdade", da RTP 1. Bonita coincidência.
De uma beleza arrepiante, esta antologia é o retrato poético de um país sombrio e da esperança inabalável em transformá-lo. É a glorificação e louvor da liberdade trazida por Abril, sobretudo em oposição à repressão e angústia impostas pelo regime. Consegue ainda conter uma desilusão com a estagnação do progresso desencadeado pela revolução e a previsão de um retrocesso. A inércia e comodismo portugueses parecem querer reiniciar o ciclo.
Uma antologia poética mais do que adequada à época do ano.
Para lá da "Trova do Tempo que Passa" , que provavelmente funciona como aquecedor de coraçõezinhos a qualquer pessoa (ex-)estudante de Coimbra, esta antologia revela a maestria de Manuel Alegre com as palavras, de forma mais subtil mas nem sempre.
"Estes barcos que partem com homens e armas não já para colher além do mar a terra mas para levar além do mar a guerra.
E naufragar de novo. E de novo perder além do mar o que se deixa em terra. (Porque o mais é espuma.) Alcácer-Quibir é ir morrer além do mar por coisa nenhuma."
Para lá dos poemas pré e peri revolução, no final do volume há também textos mais recentes, que elucidam o facto de pouco se ter aprendido com o que aconteceu, o saudosismo de alguns por tempos de ditadura, a amargura do presente.
"Vinte anos depois novos censores alguns profundamente intelectuais"
Goste-se ou não, concorde-se ou não com as posições políticas de Manuel Alegre, a forma como o autor expõe em poema o que lhe vai na alma faz dele, de certo, um dos grandes escritores da sua geração. E deixar impresso em papel as vivências próprias e de um país é, ainda hoje, construir e imortalizar a História.
"Não há dúvida que temos um passado Talvez de mais Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro"
Este livro tem três poemas fantásticos, um deles entrou de imediato na lista dos meus poemas favoritos. Tudo o resto, é uma repetição de palavras bué batidas no campo poético (como assim também rimas "flores" com "amores"?!) e são devaneios de quem acha que ser poeta é roubar palavras à natureza e prendê-las com arame ao papel. Aborrecido exceto por esses três magníficos poemas.
Este livro surpreendeu-me, porque, pelo título, tinha assumido que fosse uma homenagem à revolução que decorreu em Abril de 1974, mas não é! O poema que deu o seu nome à antologia foi escrito em 1965! Mas o poeta teve um papel ativo na luta contra a ditadura, portanto aquele espírito revolucionário permeia a sua obra, quer durante aqueles anos escuros, quer nos poemas escritos após o estabelecimento da democracia. Portanto, eu não estava assim tão longe da verdade!
uarenta anos volvidos sobre a Revolução dos Cravos, Manuel Alegre reuniu numa antologia, à qual chamou “País de Abril”, um conjunto de 29 poemas, extraídos dos seus livros “Praça da Canção”, “O Canto e as Armas”, “Atlântico”, “Chegar Aqui” e “Livro do Português Errante”, e ainda dois poemas, um publicado na Nova Renascença e outro no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias. São poemas de Abril, no país de Abril. Poemas que sabemos de cor, alguns deles mil vezes escutados na voz, sobretudo, de Adriano Correia de Oliveira. Poemas que têm na resistência o seu sentido e na defesa dos valores de Abril a sua linha de combate e de acção. Poemas que exaltam a igualdade, a solidariedade e a justiça, que se fazem sentir no sentido das palavras. Poemas que nos falam de gente que não sabe ler os avisos secretos do poema e que nos dizem quão triste pode ser Abril no País de Abril. Mas que não nos negam a esperança, em cravos acesos na boca e trovas a florir (“verdes folhas verdes mágoas”), crianças a rir na madrugada e mãos que são o canto e são as armas.
São inúmeros os aspectos a valorizar nesta Antologia, nomeadamente a força que emana de cada poema e que é um traço que os une de forma indelével. Mas aquilo que mais chama a atenção e, no meu caso, permanece fonte de admiração (e algum desconcerto), é o facto de encontrar aqui poemas que falam de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio. “Poemarma”, do livro “O Canto e as Armas”, anuncia, com sete anos de antecedência, os primeiros comunicados do Movimento dos Capitães: “Que o poema seja microfone e fale / uma destas noites de repente às três e tal / para que a lua estoire e o sono estale / e a gente acorde finalmente em Portugal.” Mais antigo ainda, o poema “Nós Voltaremos sempre em Maio”, antecipa em dez anos um momento de enorme felicidade, quando Manuel Alegre regressa ao nosso País, em Maio de 1974, após um longo período no exílio.
Saber ler os sinais do tempo é um dos mistérios do poema. Talvez por isso a poesia soe de uma maneira tão intensa e arrebatadora. Se dúvidas houvesse, “Vinte Anos Depois” estaria aí para as dissipar. Poema dedicado ao 25 de Abril e publicado na Primavera de 1994, vem-nos dizer: “Vinte anos depois a história escreve-se ao contrário / Abril é uma data do avesso e os tanques / estão a voltar em marcha-atrás a Santarém. / se por acaso alguém dissesse É a Hora / verias que ao redor ninguém ninguém.” Mais trinta anos passados e o desencanto não cessa de crescer. Termino com uma nota muito pessoal e que tem a ver com a circunstância de, pela primeira vez na vida, ter declamado poemas perante um público. Foi no Centro de Reabilitação do Norte na tarde de ontem, “a pedido de várias famílias”, e o facto de ter comigo esta Antologia fez com que dela escolhesse, para celebrar Abril e os 50 anos em liberdade, “Poemarma”, “Letra Para um Hino” e “As Mãos”. Uma de muitas escolhas possíveis de um todo intenso, vivo e livre.
Li este livro no dia 25 de Abril, no comboio que ia a Lisboa, em que estava a anticipar o fervor patriótico que lá iria encontrar, sobretudo nos 40 anos da revolução, e depois no comboio que voltava de Lisboa, depois desse tal dia que cumpriu as suas promessas patrióticas.
Gostei bastante dos poemas deste livro, mas até neste contexto de leitura que descrevi acima (afinal estava a ler de cravo na mão), não foi o suficiente para dar mais de três estrelas. Porquê? Nem sei bem. Se calhar estava a esperar demasiado que abrisse o livro e que ele me começasse a cantar, se calhar estava à espera de mais fervor, mais gana... Não sei bem. Certo é, preferi o Nada está escrito, que também é muito mais recente, e não trata de todo do mesmo assunto.
Uma coisa que se calhar deva mencionar para os que estão interessados em ler este livro, é que se trata de uma colectânea de poemas tratando do 25, ou seja que não foram escritos na mesma altura. Alguns são inéditos, outros não.
São poemas na sua grande maioria curtos, e que nos trazem o país oprimido pela ausência de liberdade de expressão e os ventos da guerra (como a famosíssima “Trova do Vento que Passa”). De todos, talvez nos mereça especial destaque, neste ano que se comemoram os 40 anos desta revolução, o último poema da obra, publicado em 1992 no Jornal de Letras, e dedicado a Salgueiro Maia.