3,5*
Até agora, só tinha lido "Os Maias" e lembro-me de gostar bastante mais da escrita do que da história. Neste livro, tal voltou a acontecer e descobri contos muito bons e outros que não me interessaram quase nada.
Assim, os meus favoritos são aqueles em que tanto a história, como a escrita estão no seu melhor nível. Para mim, "Civilização" e "A Perfeição" são os melhores contos do livro e valem, por si só, a leitura da obra.
A personagem principal de "Civilização" ilustra um contraste muito interessante entre o burburinho, a modernidade e o sufoco da cidade e a tranquilidade e vitalidade das serras, algo que gostei muito de ler. Mais tarde, Eça de Queiroz expandiu este conto para dar origem ao conhecido livro "A Cidade e as Serras", o qual quero muito ler.
Não estava à espera de encontrar, em "Perfeição", uma narração da história de Ulisses na ilha de Calipso e adorei! Dos escritos de Homero, Ulisses sempre foi o meu favorito, pelo que ler este episódio da sua vida na excelente escrita de Eça de Queiroz foi muito bom.
Também gostei de "Singularidades de uma Rapariga Loura" e "O Tesouro", sendo que este último é um exemplo de um conto bastante curto, mas muito bem executado.
No entanto, muitas vezes, alguns contos caíam no ridículo pela história/personagem ou terminavam um pouco abruptamente (por exemplo "No Moinho", "José Matias" - este com direito a uma personagem especialmente patética...) de forma a eu não me importar muito com o que estava a ler.
"O Defunto" parecia alongar-se em demasia num marido ciumento e romance não correspondido, para depois introduzir, de surpresa, elementos do fantástico. Vale por isso!; "Frei Genebro" estava a ser muito aborrecido, até se tornar repentinamente bárbaro (gráfico em crueldade animal, algo que dispenso sempre) e acabar da melhor forma com o frei castigado. Continuo a não gostar do conto, mas apreciei a forma como terminou.
O pior conto, para mim, foi "Adão e Eva no Paraíso", pois pesou demasiado em descrição e tornou-se muito longo e francamente aborrecido. Curiosamente temos uma luta entre ictiossauros e plesiossauros (este último sai vencedor, pelo que Adão tem a oportunidade de provar a carne do ictiossauros...), contando ainda com a presença de iguanodontes e pterodáctilos... e, sinceramente, foi a única parte que me fez sorrir, porque o resto não me conseguiu cativar.
"Um Poeta Lírico" tem uma frase de que gostei particularmente: "...e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo—porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem pão fresco." Achei genial o pormenor "o volume... que trouxera para almoçar comigo" e não "o volume que trouxera comigo para almoçar". São estas pequenas maravilhas que tornam a escrita de Eça adorável.
No entanto, o conto em si foi uma desilusão. Estava a gostar inicialmente, até que a personagem principal reage com horror quando o amigo com quem almoça lhe diz que o poeta do hotel era grego. O narrador tinha estado muito curioso com a personagem, mas aí o "interesse sumiu-se como a água que a areia absorve", pois os gregos tinham mau carácter e eram larápios. No entanto, parágrafos antes, teceu de mil elogios o seu amigo que era, basicamente, um pedófilo: "tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a catorze anos" (o texto procede a narrar a forma como a personagem explora crianças para gratificação pessoal). Caiu-me mal este contraste e já não consegui achar piada a mais nada.
Para concluir, recomendo esta leitura a quem quer explorar mais a obra de Eça de Queiroz, pois tem contos mesmo muito bons que acabam por fazer com que a leitura valha a pena (contos que irei reler, até, no futuro e me incentivaram a ler mais do autor).
Se, como eu, também apreciaram mais a escrita do que a história de "Os Maias" (só um exemplo), acho que irão encontrar bons contos aqui (e para todos os gostos, a julgar pela diversidade de reviews individuais dos contos que já li no goodreads...).