Nome do Livro em Português: "Filha do Tibete"
Quotes:
"Os chineses invadiram o tibete em 1950, incentivados pelo zelo revolucionário de Mao Zedong, para nos libertar, disseram, do "veneno da religião" e das nossas "maneiras feudais e retrógadas". O processo foi iniciado de modo razoavelmente pacífico,mas na altura em que cheguei ao mundo tinha aumentado de intensidade e eles ansiavam por deitar abaixo os nossos antigos mosteiros, transformando os textos sagrados do budismo em papel higiénico, reduzindo os nossos instrumentos de culto a pedras de calçada e prendendo, torturando e matando milhares de monges, monjas e todos quantos se lhes atravassavam no caminho. O medo e terror espreitavam a cada canto da minha terra."
"Tinham sido ensinados a acreditar que os seres humanos eram acima de tudo unidades sócioeconómicas úteis para alcançar uma sociedade materialista bem sucedida. Para os tibetanos a espécie humana e, na realidade, todas as coisas vivas são essencialmente sagradas e estão neste mundo para aperfeiçoar a sua natureza espiritual."
"As mulheres usam permanentemente todas as suas peças de joalharia para realçarem tanto a sua beleza como o seu estaturo social."
"O Vale Yarlung, onde cresci, era o berço da civilização tibetana e a residência dos seus primeiros reis. Podemos subir do vale até à caverna na Montanha de Cristal onde, segundo a lenda, o deus da compaixão tomou a forma de um macaco para acasalar com uma orga branca e criar a raça tibetana. A história conta que o deus da compaixão, que, obviamente, era pacífico e contemplativo, ouviu o choro lamentoso da ogra, que estava colérica e com um insaciável apetite sexual. Estava só e queria um macho. Piedosamente, o deus da compaixão transformou-se num macaco, foi ter com ela, e da sua união nasceram seis filhos, os primeiros tibetanos".
"Maio traz o Saka Dawa, o ponto mais alto do calendário budista, quando comemoramos a iluminação, o nascimento e a morte de Buda."
"Muitas vezes desejava actuar nos festivais da aldeia, mas o meu pai proibia-me, dizendo que actuar publicamente era coisa de classe baixa - pior do que ser uma prostituta ou um macaco de circo".
"O Tibete que nunca conheci - o Tibete que perdi por muito pouos anos - tinha sido extraordinário. Uma terra tão rica e tão excepcional como a do Antigo Egipto, como uma cultura estribada numa espiritualidade esotérica e avançada. Fora também um lugar altamente secreto. Nenhum estrangeiro apresentava condições para palmilhar o seu solo sagrado, e desgraçado de qualquer estranho que tenha tido uma visão, mesmo se fugaz, da "Cidade Proibida", Lhasa. O que tão zelosamente guardávamos era, naturalmente, a nossa religião. Era demasiado preciosa para corrermos o risco de a expor aos "bárbaros". Fechado por detrás da fortaleza gelada dos impenetráveis Himalaias, o meu país tornou-se conhecido como a terra da magia e do mistério. Abundam as lendas extraordinárias. No Tibete, diz-se, os lamas podem voar, caminhar através das paredes, esconjurar demónios e espíritos pela vontade, secar lençóis enrolando-os no corpo enquanto estão sentados na neve pela projecção do seu "calor interior", fazer acalmar saraivadas mortais ou viver apenas do ar. No Tibete, diz-se, podemos encontrar o reino oculto de Shambhala se conseguirmos descobrir a passagem secreta dissimulada numa das muitas encostas da montanha."
"Somos por natureza uma raça forte, reistente e com um fantástico sentido de humor. Adoramos brincar e animarmo-nos uns aos outros - até mesmo os nossos lamas - e isto ajudou imenso naqueles tempos terríveis."
"Mais que qualquer outra coisa, no entanto, foi a fé que nos manteve. Nada, nem mesmo a raiva fanática e destrutiva dos invasores Chineses, nos conseguiu roubar o sentido do divino ou os mais profundos princípios do budismo. Fomos ensinados a ter compaixão para com todos, especialmente os nossos inimigos. Agora era a altura de praticar o perdão. Sabíamos que, se respondêssemos com hostilidade, o conflito nunca mais teria fim. Buda disse que a ira não pode ser vencida com mais ira - apenas pode ser dominada com paciência e amor."
"No Tibete somos educados a obedecer aos nossos pais. As crianças não têm direito a escolher nem a responder."
"No Tibete, por causa da altitude, até a simples tarefa de ferver água é um trabalho épico. Com um ar tão rarefeito, os líquidos demoram horas a entrar em ebulição."
"... o mantra da compaixão do Dalai Lama, om mani padme hum, que significa "salve a jóia no lótus", uma metáfora para a compaixão que existe no interior de todos os seres sensíveis."
"Quando o Karma de uma vida se esgota, nós morremos e começamos outra vida. Desta forma, damos voltas e mais voltas pela roda da vida, provando um tipo de existência atrás de outro, até termos aprendido todas as lições kármicas e alcançado, assim, a iluminação. Nunca me ocorreu questionar nada do que o lama dizia - para mim, tal como para todos os budistas, a reincarnação é um facto da vida, tão inevitável como as estações do ano. Acreditamos que todas as coisas vivas, humanos, animais, insectos, pássaros, peixes, bem como seres de outros planetas e esferas da existência, são constituídas por duas coisas, o corpo e a mente, à qual também chamamos consciência ou entendimento. As duas encontram-se ligadas, mas são de naturezas muito distintas. O corpo é de índole material, a mente é não material. Todos os nossos pensamentos, emoções, sentimentos, percepções e ideias ocorrem na categoria da mente - mas a mente é infinitamente mais vasta e mais misteriosa. Quando morremos é a nossa consciência, de carácter não material. que se separa do nosso corpo e viaja para a nossa próxima existência."
"O Karma é tudo o que importa - colhemos o que semeámos. Assim sendo, acreditamos que somos os únicos responsaveis pelo tipo de vida que temos, e não um deus transcendente. Nós fazemos, literalmente, a nossa própria vida. A nossa realidade exterior reflecte a nossa realidade interior."
"O Karma é tudo o que importa - colhemo o que semeámos. Assim sendo, acreditamos que somos os únicos responsáveis pelo tipo de vida que temos, e não um deus transcendente. Nós fazemos, literalmente, a nossa própria vida. A nossa realidade exterior reflecte a nossa realidade interior."
"Não havia zangas nem discussões, nenhum problema, apesar da tensão em que nos encontrávamos. Porque haveria de haver? Os Tibetanos não estão habituados a pensar: "Não gosto dele, não posso com ela." Não somos apanhados por esse tipo de psicologia, as nossas mentes são flexíveis, abertas. Em tibetano não há palavras para "precisar de atenção"; temos pessoas más e pessoas mesmo muito más, mas, no Tibete, não existem coisas como a neurose. Creio que uma das razões é o facto de não termos tempo. O esforço para nos mantermos vivos mantém-nos fisicamente ocupados da alvorada ao escurecer, por isso não há tempo para jogos mentais. A simples tarefa de preparar uma chávena de chá demora duas horas!"
"Para mim, como para quase todos os Tibetanos, o Dalai Lama é mais do que apenas um homem bom, inteligente e afável. É uma divindade viva - a emanação do Buda da Compaixão, cremos, que caminha nesta terra - e representa a alma do Tibete."
"É uma característica curiosa da nossa cultura que, apesar de as nossas mulheres serem famosas pela sua independência e determinação, nos recusemos a discutir os pormenores do nascimento. Na nossa sociedade, isso simplesmente não se faz."
"Sempre acreditei que não devemos julgar os outros pela aparência, pois nunca sabemos quem realmente são. A pessoa mais humilde da rua pode ser um Buda."
"Quando vivemos encerrados numa batalha diária pela comida, pelo abrigo e pela alimentação dos filhos; quando sofremos de anos de perseguição, como os Tibetanos, endurecemos por dentro."
"Na Ásia não interessa quão educada uma mulher é, pois está sempre limitada por regras sociais. Tem de estar sempre a vigiar-se a si mesma e não pode dizer ou fazer o que quer. Na Índia, por exemplo, eu não podia conversar com os pobre sem ser eu própria considerada de baixo estatuto social. Em Dharamsala não podia jantar a sós com um homem sem ser considerada prostituta. Se somos bonitas e nos vestimos bem, como eu e a Dolma costumávamos fazer em Manali, somos consideradas raparigas fáceis."
"No Oriente, a imagem e a "face" são tudo. Somos julgados tal como nos apresentamos em público."