Quando se vê diante da perda de (supostas) certezas, uma jovem publicitária se lança em uma viagem sem objetivos claros e sem rota definida. Entre cidadezinhas arenosas do Peru e uma mina de estanho na Bolívia, ela atravessa fronteiras e se permite descobrir novos caminhos e pessoas, carregando na mochila um passado que ainda pesa.
Julia Dantas nasceu em Porto Alegre, em 1985. Formou-se em jornalismo, estudou crítica de arte em Buenos Aires, atuou como tradutora e hoje se dedica à edição de livros. Faz mestrado em escrita criativa na PUCRS, tem contos publicados em antologias e foi finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária com este Ruína y leveza.
Conheci o trabalho da Julia Dantas por "Ela se chama Rodolfo" (2022), um livro mais leve e de humor ligeiro, cheio de pequenas graças ao tratar de temas como gênero e relacionamentos enquanto desenvolvia a trama. Talvez por isso tenha estranhado a mão pesada no drama de "Ruína y leveza" (2015). Tem uma parte que eu gostei bastante, porém, passada no Peru, em que a autora fala de machismo no país e dos impactos da construção de uma hidrelétrica na comunidade local e nas florestas. Em seguida, comenta que por estímulos do governo a diversidade de alpacas cinza, beges e marrons foi sendo reduzida a alpacas brancas, porque esse fio seria mais valorizado pelo mercado.
A parte que não me atraiu tanto foi a dos relacionamentos da protagonista, não pelos fatos em si, mas por tudo levar um grande drama. Um chifre tem um enorme peso que parece nunca se diluir. Namorar um cara mais novo que faz tudo por ela se torna um "não saber ser amada" que leva a duas semanas de depressão, e por aí vai. É um tom geral da história que encontra mais equilíbrio quando a narradora para de falar de si mesma e passa a falar do entorno, como é o caso do Peru, embora em várias situações tente arrumar correlatos na própria vida, numa personalidade meio narcisista.
Há também o fato de que a narradora é uma pessoa desagradável, algo comum em certa escola literária, um tipo de protagonista muito cultuado no trabalho de Michael Chabon, por exemplo, e que só funciona comigo quando acompanhado de certa patetice, como é o caso em "Ela se chama Rodolfo". Acho que a patetice é um truque simples que humaniza esse tipo de personagem e que poderia ter ajudado a protagonista de "Ruína y leveza" a mostrar camadas para além do excesso de importância que dá a si e tudo que passou. São escolhas narrativas que não comprometem a qualidade da prosa do livro, mas que acabaram por me distanciar de algumas situações apresentadas na construção da história.
Adorei a consistência da escrita, a história de Sara, que viaja para se encontrar (destaco que ela não foi uma protagonista dessas que se acha superior às pessoas que ela encontra; é uma curiosidade genuína, um desejo de descobrir as coisas mas principalmente de se encontrar).
Me senti viajando com ela enquanto desbravava os acontecimentos que a levaram a sair da sua bolha.
nunca tinha ouvido falar desse livro, mas o encontrei por acaso na feira do livro da USP e gostei da premissa. Principalmente por eu ter ido viajar pra Argentina esse ano, achei que seria interessante ler uma história de uma moça que vai passar um tempo no Peru meio que "sem motivo". Não achei que fosse gostar tanto do livro, na verdade do começo até a metade estava achando legal, mas nada que me encantasse tanto. Foi depois de conhecer mais a personagem e de me encantar pela escrita da autora que fui percebendo que tinha algo a mais ali. Acabei o livro dando uma choradinha, o que pra mim é bem raro kkkkk Minha parte preferida foi o final, tão verdadeiro e delicado, senti muitas coisas nos últimos 2 capítulos.
A diferença entre viajantes e turistas é que turistas voltam para casa com malas mais pesadas, viajantes voltam com mais leveza, dirá o argentino Lucho a Sara ao final de sua jornada. Em sua competente estreia, Julia Dantas demonstra que não é nenhuma turista no país da escrita, mas duvido que algum leitor voltará apenas mais leve após acompanhá-la por sua bela viagem pelas páginas literárias. Talvez o título do romance seja ainda mais feliz por isso: antes de qualquer sensação de alívio, ele vai te arruinar lindamente. E não tem nada melhor que um livro te possa fazer hoje em dia que te arruinar com alguma beleza.
pensei ter encontrado esse livro na biblioteca, em meio a tantos outros, um interesse pelo título, eu que tanto venho pensando sobre ruína e sobre leveza, mas agora vejo que foi o livro que me encontrou. ou talvez os dois, afinal, as coisas podem ser meio acaso e meio escolha. é engraçado saber que todas as palavras estavam antes dentro, palavras que poderiam ter saído de mim, mas, não tendo, deram um jeito de me achar. sigo acreditando no poder do encontro.
terminei esse em janeiro. como alguém que sonha em mochilar, adoro ver o feio e dolorido das viagens. a julia sempre fala de forma tão simples de temas que literalmente dilaceram nossa alma. te amo julia dantas
O enredo é bom, mas o que me encantou mesmo foi a escrita da autora. Em alguns momentos tive que parar para digerir as reflexões e tentar absorver a sabedoria de vida ali presente.
Me fez refletir muito sobre como ainda tenho dificuldade em me ver como pessoa latino-americana, como nós, brasileiros, temos um distanciamento tão grande da cultura e da história dos países vizinhos.
Ruína y Leveza conta uma história já um tanto conhecida. Dos perdidos do cotidiano e da jovem-adultez - nós, pequeno-burgueses, inventamos essa palavra pra tentar nos justificar -, surge uma vontade, quase uma necessidade, de fugir. Colocar uma mochila nas costas e ir viajar, como dizem as canções. Ao contrário da maioria, a personagem principal e narradora arruma uma mochila e vai pra América Latina. Às vezes o relato em primeira pessoa soa meio atrapalhado, mas a gente perdoa como perdoamos as faltas de coerência de quem conta um segredo. Até lembrar que esse não é um relato, é um livro, escrito por uma autora. E a atrapalhação acaba por virar grandeza. No fim das contas, isso é literatura. "[...] - Mesmo quem viveu não conhece realmente uma história até que a tenha contado."
Me emocionei com esse livro! :) Muito bem escrito e inspirador. Me peguei rindo várias vezes, me identifiquei com a protagonista e admirei sua simplicidade. Adorei a construção, que me prendeu bastante. Tem sutilezas deixadas pro leitor sacar, e outras reflexões mais evidentes. Terminei ele hoje e tô com uma sensação gostosa de ter visto um filme lindo e estar levantando da poltrona com a alma abastecida.
ótima leitura de verão. Um livro pra se identificar (se você é uma mulher, brasileira na faixa dos 30 anos, como eu) e relembrar de situações vividas e imaginar outras que poderiam ter sido.
Aventura e corações partidos. Orgulho da minha latinidade. O primeiro perigo é que você queira colocar a mochila nas costas e se mandar pro Peru, com covid e tudo. Eu estou num pé e noutro, quero viver minha "aventurazinha burguesa". O segundo perigo é que o mochilão "de verdade" não seja tão empolgante quanto o que Julia inventou no livro. Difícil a realidade rivalizar com a boa literatura.
A história de Sara e Henrique é a história da minha vida não vivida. Se algum dia eu traísse ou fosse traída, aconteceria como está escrito no livro. Eu li o capítulo 7 exaltada: meu deus, caramba, eu faria a mesma coisa, eu pensaria a mesma coisa, meu deus, meu deus. Quando uma pessoa que eu não conheço e que mora no extremo oposto do país adivinha o meu futuro com tamanha exatidão, é preciso respeitar e agradecer.
***** Sobre outro negócio:
Julia Dantas organizou um diário para documentar a pandemia em Porto Alegre (diariodapandemia.blogspot.com). A primeira entrada é da própria Julia, e as demais (mais de duzentas) são colaborações espontâneas de outras pessoas. Em 18.3.2020, Julia escreveu: "As coisas às vezes parecem muito normais, às vezes muito estranhas, e essa oscilação já é, em si, um estranhamento gigante." Assustador que, quase um ano depois, a frase permaneça tão atual.
Eu cogitei abandonar a leitura porque não me identifiquei em nada com a personagem principal: uma jovem adulta privilegiadinha de m- cuja voz vem do auge do melodrama característico dos vinte e poucos anos. A vontade era de chacoalhar a moça pra ver se as coisas entravam em perspectiva e deixavam de ter aquela proporção ridícula.
Comecei o livro por causa dos relatos sobre a América Latina e continuei lendo por causa disso. Ainda bem que não desisti. Eu amei "conhecer" cada cidade com a Sara, me interessei pelas pessoas com quem ela cruzou e teria lido muito mais páginas sobre o assunto. Apesar de ser ficção, a gente acredita que ela estava realmente lá, e que senhorinhas como Rosa, a avó da Carmen, existem na vida real.
Além de tudo, o livro é muito bem escrito. Mesmo quando as reflexões são sobre as imaturidades de quem chegou à vida adulta mas ainda foge dela, não deixam de ser considerações profundas. E é aí que a história consegue envolver quem lê.
Gostei demais e recomendo! Leiam, se interessar, e prestigiem nossas autoras brasileiras.
A escrita precisa e delicada de Julia Dantas nos leva em um "mochilão" pelos Andes e pelo interior de Sara, a personagem porto-alegrense de vinte e poucos anos que traz em si tanto de tantas outras mulheres de tantos outros lugares e tantas outras idades, e ao mesmo tempo é tão diferente de tantas outras mulheres. Essa viagem identitária vem carregada de reflexão e referências, num texto gostoso nas suas descrições exatas e nunca cansativas. A coragem de se reconhecer e de se estranhar; a delícia e o cansaço de se conhecer novos lugares e novas pessoas; a vontade, nem sempre consciente, de escapar de uma vida moribunda: ruína y leveza (e só agora eu me dou conta da beleza que é este "y" no título).
Apenas uma moça latino americana... Aquele clichê "fugir,viajar ,para se encontrar" aparentemente, pois na verdade é pra se perder,a personagem Sara não busca se descobrir, mas a morte ,o rompimento com um estilo de vida,ambiente,amizades ao que não se encaixa mais. Ela ruma ao Peru com um andarilho artista Lucho,o que oferece ao leitor e à ela um mergulho cultural e social de pessoas que habitam o mesmo continente mas tão distantes de nós , um espelho que reflete as semelhanças e diferenças. A América Latina das desigualdades sociais e econômicas do machismo e religiosidade enraigada,das mulheres que lutam. Nada mais simbólico do que o início e o fim do livro seja nas profundezas de uma mina,da terra. Uma Sara que morre e ressuscita. Enfim "começar sozinha".
[Storytel] Eu escutei este livro e a forma como foi contado foi realmente fantástica. Parece-me uma história contada de forma única e que te deixa pensando nos detalhes por muito tempo. A produção de Storytel foi fantástica, assim como aqueles que emprestaram sua voz para produzi-la. Recomendo para quem quer mudar sua história, ou para quem quer se encontrar. A escritora fez um trabalho maravilhoso.
"Essa é a diferença entre viajantes e turistas. Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza."
Ao longo da leitura, não achei que fosse amar. Mas amei. O final me entregou tudo o que eu precisava desse livro. Se tivesse que associar com alguma música que tenho ouvido muito seria Saigon do Luke 🥺
“[...] é normal que os viajantes percam coisas. Chaves de quartos de hotel, cartões de memória fotográfica, meias soltas debaixo da cama, um punhado de ilusões, uma pilha de preconceitos, alguns amores, e, por fim, também, os colares de pedras que não são ágata.”
O livro assim como a escrita são incríveis. A forma como a história é entregue nos faz viajar junto pelos lugares, e compartilhar dos mesmos anseis e incomodos da Sara. E no final perceber que depois de tanta aflição ela acabou encontrando o que tanto buscava, que acho que era ela mesma.
Grande surpresa! Livro super envolvente, gostoso por se passar em um cenário que reconheço (tanto o de Porto Alegre quando as sensações internas de viajante), profundo. Gostei muito.
O livro é ótimo. A leitura flui muito bem. O formato que muda cenas do futuro e do passado deixa a gente curioso. Porém, por conta disso tudo, esperava mais do final...
Que livro maravilhoso! Me pergunto porque demorei tanto para chegar até ele. Crise dos 30, amores complexos, uma grande viagem, não tem como dar errado! Favorito do ano, recomendo demais!