O trabalho de Benedetti, sob as lentes de Javier, o protagonista deste romance, me parece algo sintomático da situação das esquerdas até hoje. Incapaz de refletir sobre e transcender as derrotas que sofrera no século XX, as revoluções malogradas e a queda do socialismo real, tal campo tornou-se letárgico e fora integralmente cooptado pelo establishment político, abandonando seu caráter disruptivo e as utopias que uma vez lhe balizaram.
É com esta melancolia que Javier volta a olhar para seu país após seu desexílio. Seus colegas de militância, uns ainda convalescidos das torturas sofridas, outros descobertos como informantes do regime militar, o recebem com a reticência de quem oscila entre a nostalgia do reencontro e o ressentimento por Javier não ter enfrentado os castigos que lhes foram impostos.
As relações de amizade e familiares de Javier me parecem as mais bem exploradas pelo autor, que revela bem esse caráter de estranhamento. Todavia, é quando Javier tece comentários críticos acerca de Montevideu, do capitalismo, da imprensa e do sistema político que a coisa desanda. Benedetti recai sobre vulgatas e superficialidades que, quando muito, ressoam apenas para convertidos.
Talvez a forma que o autor impõe ao romance também colabore para a sensação de superficialidade. Ele trabalha com pequenos capítulos que denomina de andaimes, sob a premissa de serem pequenas estruturas que vão se acumulando para a construção de algo maior. Os andaimes têm entre 3 e 4 páginas aproximadamente, o que também não favorece reflexões de maior fôlego. Ainda que a brevidade não seja em si um problema, ela tampouco parece ajudar aqui.
Costumo ter uma predileção por romances em que o aspecto político não está deliberadamente colocado, mas surge, em potência majorada, não apenas do contexto das personagens, mas de suas próprias contradições internas. Muitas vezes é interessante levar ao limite as posições políticas e ideológicas das personagens, mas isto pressupõe que o próprio autor seja implicado, exponha suas fragilidades e os limites de seu pensamento. Aqui, Javier não tem contraponto com quem discutir, é raso e parece ser a perfeita reflexão das visões do próprio autor, que não se implica na obra, ambos continuando livres da alteridade em suas clausuras.