“Houve um tempo em que se usava/ nos livros/ papel de seda para separar/ as palavras e as imagens.” Tais versos, como muitos outros deste O livro das semelhanças, expõem com o wit e a delicadeza característicos da autora esse tatear entre as palavras e as coisas. Em outro poema, significativamente intitulado “Não sei fazer poemas sobre gatos”, a autora admite - com graça e um certo veneno - que as palavras “soltam-se ou/ saltam/ não capturam do gato/ nem a cauda”, para depois concluir, com autoironia devastadora: “sobre a mesa/ quieta e quente/ a folha recém-impressa/ página branca com manchas negras:/ eis o meu poema sobre gatos”. Pois graças a esses e a outros textos, esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa - sempre temerária, mas também desafiadora - de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático - e de igualmente fascinante. Dividido em quatro seções (“Livro”, “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e “O livro das semelhanças”), esta obra desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Do amor à percepção de que há um espaço - geográfico, quase - para o lugar-comum, do entendimento da precariedade do nosso tempo no mundo à graça (mineira, matreira) proporcionada pela memória: eis uma poeta que nos fala diretamente. Ou, como diz em um de seus versos: “Ainda que não te fossem dedicadas/ todas as palavras nos livros/ pareciam escritas para você”.
Nasceu em Belo Horizonte, em novembro de 1977. Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, é mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Comparada pela mesma universidade. Em 2007, ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria “Poesia — autor estreante”, e, em 2008, recebeu novamente o mesmo prêmio, na categoria “Poesia”.
Para muitos, assim como para mim, a poesia pode assustar um pouco. Acho que é a nossa tendência de querer racionalizar tudo, compreender as palavras de uma forma palpável. E foi conversando com muitos apaixonados pela poesia aqui pelo @book.ster que passei a entender que a mágica desse gênero literário está justamente na possibilidade de não precisar compreender tudo de forma tão objetiva. A leitura pode ir muito mais solta, na direção das sensações.
É muito mais sobre o sentir do que sobre o compreender.
E depois de pedir muitas dicas de livros para iniciantes, acabei escolhendo esse livro incrível da autora mineira Ana Martins Marques - que me foi muito bem recomendado. E, realmente, a obra me permitiu desapegar dessa necessidade constante de racionalização de uma forma gradual, já que a autora tem uma linguagem mais acessível e constrói poemas menos “abstratos”. Tanto isso é verdade que logo na primeira parte, Ana nos leva para uma viagem poética por meio do objeto livro, por suas partes que nos são tão bem conhecidas. É lindo demais!
Ao final, senti que estava mais próximo da Poesia e com muita mais vontade de me tornar um companheiro rotineiro desse gênero que vem encantando gerações há tanto tempo.
Bora ler mais poesia? Para aonde devo continuar nesse meu caminho?
Adorei Ana Martins Marques! Já há algum tempo que não me identificava tanto com a poesia de alguém. Talvez desde que li Filipa Leal, no ano passado. A escrita da autora é despretensiosa, mas incisiva. "Quebrar o silêncio e depois recolher os pedaços testar-lhes o corte o brilho cego"
Também é apaixonada, sem ser lamechas. "Amar profundamente mas testar volta e meia se ainda dá pé"
É melódica, sem ser previsível. "Esperar junto àqueles que caíram em si que caíram na risada que caíram no ridículo que caíram do cavalo que caíram das nuvens que a noite caia"
Não será poesia para intelectuais esmiuçarem, é poesia de pôr na mesa e comer com um sorriso nos lábios.
Vou só deixar um poema dela aqui, pra juventude que acha que quebra de linha = verso aprender como é que faz:
Aqueles que só conheceram o mar pelo rumor que [faz um livro quando tomba os que só sabem da floresta o que ensina o farfalhar [das páginas os que veem o mundo como um grande volume [ilustrado no entanto sem legendas sem índices remissivos [sem notas explicativas os que conhecem as cidades apenas pelo nome e acham que cabem no nome muitas coisas inclusive certas ruas vazias de madrugada as casas prestes a serem demolidas os mesmos talvez que pensam que um corpo pesa [tanto na cama quanto no pensamento aqueles como nós para quem o desejo não é prenúncio mas já a aventura os que se reconhecem na tristeza das piscinas vazias à beira-mar
Não sei bem como definir poesia, ou o que penso dela, mas acho que se tratam os poetas com uma reverência algo desnecessária. Fazer poesia deveria ser sobre encontrar um ritmo e uma beleza próprias, e ainda que muito difícil, ainda é escrita, ainda é uma arte entre as artes. Talvez por isso os escritos de Ana Martins soem tão agradáveis: porque parecem ser frutos de uma poeta em diálogo vivo com sua criação e condição, frutos de alguém que não se esconde atrás de um misticismo cansado. São composições sobre escrever, ler, existir, e as coisas que se escondem no meio destas três. Talvez o melhor poeta seja o que não se leva a sério. // I'm not sure how to define poetry, or even what I think of it, but I feel like poets are treated with a somewhat unnecessary reverence. To create poetry should be about finding a rhythm and beauty of its own, and although very difficult, it's still writing, it's still an art among the arts. Perhaps this is why the writings of Ana Martins sound so pleasant: because they feel likee the fruit of a poet in living dialogue with his creation and condition, the fruit of someone who does not hide behind a tired mysticism. They are compositions about writing, reading, existing, and the things that hide in the middle of those three. Perhaps the best poet is the one who does not take himself seriously.
É inacreditável o tanto que a Ana Martins Marques é boa em combinar observação sensível do cotidiano, metalinguagem e autoindagação dos sentimentos. Um clássico instantâneo.
A Ana Martins Marques é um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea e O Livro das Semelhanças foi a minha primeira incursão pelo seu mundo poético — e o resultado foi muito, muito positivo. Nos últimos meses, tenho me dedicado intensamente a poesia e é fantástico encontrar um autor que tenha uma voz poética e uma temática que combinam tão bem comigo e com o meu momento.
O livro é dividido em 4 partes [Livro, Cartografias, Visitas ao Lugar Comum e O Livro das Semelhanças]. Se a primeira parte, dedicada às partes de um livro, não me chamou tanto a atenção, a segunda, que explorava as relações cartográficas e as proximidades humanas, me arrebatou. No mesmo ritmo, mas em um tom diferente, a terceira parte engata em um jogo de palavras de divertidas reflexões sobre algumas expressões cotidianas comuns, como 'perder a hora e encontrá-la depois'. Ao fim, na seção que carrega o nome do livro, Ana fala sobre o amor, as lembranças e a passagem do tempo, me deixando com dificuldades para escolher um poema favorito entre tantos.
'E então você chegou como quem deixa cair sobre um mapa esquecido aberto sobre a mesa um pouco de café uma gota de mel cinzas de cigarro preenchendo por descuido um qualquer lugar até então deserto."
Uma leitura recomendadíssima mesmo para aqueles que não tenham muita intimidade com a poesia.
a autora usa metapoesia em excesso e o faz com imagens previsíveis demais. ao invés de expandir a imagem, ela simplesmente explora o sentido usual das coisas. achei que fosse curtir mais.
Juro que tento gostar de poesia, mas não sei se que escolho mal os livros ou se eu só não tenho sensibilidade de entendê-los. Alguém tem alguma sugestão de livro de poesia para uma iniciante?
Anotei uma frase num caderno encontrei-a algum tempo depois pareceu-me uma boa ideia para uma poema escrevi-o rapidamente o que é raro logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno parecia uma citação pensei me lembrar que a copiara de um poema pensei me lembrar que lera o poema numa revista procurei em todas as revistas são muitas não encontrei pensei: se eu não tivesse me lembrado que a frase não era minha ela seria minha? pensei: se eu me lembrasse onde li todas as frases que escrevi alguma seria minha? pensei: é um plágio se ninguém nota? pensei: devo livrar-me do poema? pensei: é um poema tão bom assim? pensei: palavras trocam de pele, tanto roubei por amor, em quantos e quantos livros já li histórias sobre nós dois pensei: nem era um poema tão bom assim
Nem sempre é fácil ser otimista, na verdade consegue ser bem difícil. Principalmente quando olho à volta e vejo os poetas de hoje, viro um quase completo velho ranzinza. Mas é aí que, depois de muito ouvir da Ana, decido pegar um livro seu e saio destes poemas sem palavras. O livro das semelhanças me ganhou, me pegou pra si. Isso que é um grande poeta.
Eu já estava querendo muito ler esse livro depois que li alguns poemas soltos pelo Instagram. Uma amiga reforçou a recomendação e comprei animada. Quando chegou, li inteiro no mesmo dia. Eu amei. Tem alguns poemas que nunca vou me esquecer. É todo muito lindo e original.
Ainda que não te fossem dedicadas todas as palavras nos livros pareciam escritas para você"
Leitura rapidinha e fluida, mas que exige um pouquinho mais de atenção. Os poemas são interessantes e cheio de significados, principalmente os da parte "cartografia", que contém a maioria dos meus poemas favoritos do livro. A ausência de vírgulas, ao mesmo tempo que da um arzinho inovador, faz com que o leitor se perca nos significados que a autora busca sugerir e pode tornar a compreensão dos poemas um pouco mais complicada. Contudo, a escrita rica em metalinguagem e intertextualidade fazem com que o leitor não se entedie com os poemas, muito pelo contrário, fazem com que ele tenha ainda mais apego ao livro e ao modo de escrever da autora que te deixa com aquele gostinho de modernismo na boca
Escrevi este poema no último dia depois disso não nos vimos mais a princípio trocamos telefonemas em que você sempre parecia estar prestes a perder o trem enquanto eu sempre parecia ter acabado de perdê-lo escrevi este poema depois do primeiro telefonema você falava sobre vistos e repartições e sobre como para conseguir um documento sempre é necessário um outro que no entanto só se pode obter de posse daquele eu falava sobre as noites perdidas na companhia de alguém que nunca era você depois aos poucos você deixou de ligar escrevi este poema no segundo domingo em que você de novo não telefonou ao redor do poema como em volta de um acidente juntou-se muita gente para ver o que era