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O Hóspede de Job

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Prémio Camilo Castelo Branco. Fábula que evoca o Alentejo feudal dos anos 50, que cortava com o neorrealismo dominante na literatura portuguesa da época. Foi escrita entre 1953 e 1954, "um romance destinado unicamente a ilustrar uma legenda, uma moral ou um clima humano, para lá de qualquer imediatismo de tempo e de lugar histórico". José Cardoso Pires dedicou a obra a seu irmão, que morreu num acidente de aviação em cumprimento do serviço militar, como protesto contra a guerra fria e a colonização militar.

119 pages, Kindle Edition

First published November 1, 1963

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About the author

José Cardoso Pires

41 books122 followers
JOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.

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Displaying 1 - 22 of 22 reviews
Profile Image for Luís.
2,500 reviews1,611 followers
September 28, 2022
This work is a fable that evokes the feudal Alentejo of the 50s, which cut with the dominant neorealism in Portuguese literature. It had written between 1953 and 1954, "a novel intended solely to illustrate a legend, a moral or a human climate, beyond any immediacy of time and historical place".
Profile Image for Ritinha.
712 reviews139 followers
November 4, 2021
A escrita social e politicamente empenhada pode ser magistral. A escrita do José Cardoso Pires é sempre magistral. Com JCP o neorealismo não fica mal servido e, no caso vertente, bebe de absurdo sem redenção, como usa fazer o povo trabalhador, ainda que agora de modo mais suave (por vez da absoluta miséria, é considerado madraço se exige pouco mais que salários de miséria).
Ao invés de se acompanharem sempre as mesmas personagens, em «O Hóspede de Job» vamos lendo recortes de realidades humanas que se ligam mas não comungam de qualquer salvação conjunta, porque o Deus que permite a punição de Job nunca quis mais do que exibição narcísica perante o Adversário e não guarda o Reino dos Céus para ninguém (isso é fábula da operação de marketing Novo Testamento). O omnipotente verdugo YHWH é aqui o Estado Novo, que a tanto neofacho ainda fascina, caracterizado com quase fofinho pelo cronista que o Público mantém para nos lembrar que até o menos capazes de nós podem opinar na imprensa séria (desde que transmitam certas cartilhas).
Mas o Estado Novo, tal como YHWH, foi implacável. Exercendo os piores efeitos sobre os mais frágeis, a todos chegando desde que miseráveis e/ou não coniventes com o poder.
Como as supurações comichosas de Job, as provações são terríveis e por isso expostas na prosa escorreita e cristalina de JCP, restando o absurdo final: a inutilidade do sofrimento face aos caprichos de um poder infinitamente superior e arbitrário, um «acidente» para repasto voyeur de parasitas (hóspedes) que se nutrem bem nas estruturas do poder e por ele passam incólumes.
Profile Image for Thomé Freyre.
205 reviews8 followers
April 19, 2019
Remetendo de alguma forma para o imaginário neo-realista, não tem a crueza de Redol, nem, por outro lado, a mordacidade de Saramago em "Levantado do chão".
Profile Image for Sofia Lima.
Author 4 books129 followers
Read
January 7, 2024
Há uma coisa muito curiosa em ler histórias passadas em meios rurais: todas me parecem soar próximas, mesmo que não sejam do meio rural de onde eu venho. Mais curioso ainda é quando não são contemporâneas e, ainda assim, não deixam de soar próximas, reconhecidas.
Profile Image for João Mendes.
330 reviews21 followers
April 4, 2024
Escreve muito bem, mas história não prende. Ao contrário da PIDE, como esta história bem demonstra. O Alentejo profundo durante a ditadura e o efeito do fascismo nas populações. Valeu por isso.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews40 followers
August 11, 2021
Dedicado à memória de António Nuno Pires Neves, irmão de José Cardoso Pires, morto num acidente de aviação em cumprimento do serviço militar quando o Harvard T6 em que treinava se incendiou em pleno voo acabando por cair e explodir, “O Hóspede de Job” tem com ele a força das verdades que importa que sejam ditas. Trata-se de um livro que arrasta consigo uma urgência, a da denúncia das relações de poderio entre aqueles que tudo possuem e os que nada têm, sejam eles patrões e servos, governantes e governados, países ricos e países pobres. Assimetrias por demais evidentes num Portugal com os cofres exauridos pela Guerra Colonial e vergado ao poderio norte-americano no seio da Aliança Atlântica, a ditadura salazarista alinhada com a meia dúzia de “figurões” que detêm o monopólio económico, o pobre e explorado a desesperar por trabalho e por pão.

Assumindo o combate político por intermédio de uma escrita vincadamente realista, ao encontro dos fracos e desprotegidos e daqueles que os oprimem e humilham, José Cardoso Pires lega-nos, com este “O Hóspede de Job”, o retrato contundente de um Portugal provinciano, profundamente atrasado e retrógrado, marcado pela soberba de uns quantos face à pobreza dos demais. Nos grandes latifúndios alentejanos enxameados de “ratinhos” a ceifar de sol a sol por uma côdea, nas rondas da guarda que do alto dos seus cavalos impõem a sua prepotência, nos pides que perseguem, torturam e matam, nas crianças e nos velhos que, alheios ao perigo, recolhem o metal nas carreiras de tiro ou no cágado que segue na algibeira e que, à falta de melhor, será cozido e comido, é com um autêntico breviário da submissão e da fome que o leitor se depara.

Para além deste desassombro e desta coragem de confrontar o Estado Novo com os seus dislates e contradições, “O Hóspede de Job” oferece ao leitor uma espécie de jogo, ao encontro de elementos recorrentes na obra já publicada, tanto figurativos como de estilo. João Portela e o tio Aníbal parecem duas personagens saídas desse extraordinário conto inaugural que é “Os Caminheiros”. Podemos ver estes ambientes de conspiração e revolta em “O Render dos Heróis”. Corre-se atrás de um perdigoto em “O Anjo Ancorado”, como se corre aqui atrás de um coelho. E depois há toda uma série de recursos estilísticos, com particular ênfase no discurso directo e na linguagem terra-a-terra que nos são familiares. Uma vez mais, entre o povo oprimido, não há heróis. É assim “O Hóspede de Job”, um enorme livro, de um enorme escritor, testemunho de tempos e lugares que marcaram a nossa História. E continuam a marcar.
Profile Image for Andreia Morais.
513 reviews33 followers
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April 21, 2025
O Hóspede de Job não se esconde em subterfúgios. Gostava de ter ficado a saber mais sobre a vida de algumas personagens, ainda assim, o que me marcou nesta narrativa foi mesmo a necessidade de denunciar os constantes jogos de poder e de colocar a nu que o sofrimento de um povo fica esquecido perante os caprichos de quem governa.

Opinião completa aqui: https://andreiapmorais.blogspot.com/2...
Profile Image for Paulo Teixeira.
1,006 reviews14 followers
April 4, 2019
(PT) "O Hóspede de Job" é um dos primeiros romances de José Cardoso Pires. Antes de o publicar, em 1963, tinha escrito contos e peças de teatro. A sua ação passa-se no Alentejo, e conta a história de três pessoas: o tio Anibal e o seu amigo Leandro, que vão a Cercal para o quartel, no intuito de pedir a dispensa do filho de um deles. Depois temos a Floripedes, presa por razões não explicadas no livro, mas tem a ver com a politica, e o capitão e sargento americanos, que estão em Portugal para umas manobras militares.

A narrativa é curta e seca, daí se ler rapidamente. As descrições do Alentejo são fidedignas e realistas. Aliás, a escrita é realista, mas não cai nas armadilhas do realismo. Há uma certa contenção que se pode confundir com pudor. De resto, é algo do qual é interessante de se ler, caso queiram descobrir o autor.
Profile Image for Carolina.
401 reviews9 followers
July 21, 2023
Agora que olho para a capa do Goodreads, eu acho que já tinha lido este livro, mas não devo ter percebido nada na altura. Neste momento já percebi melhor, o que significa que me tornei mais esperta com o tempo, viva!

Este romance fala dos exercícios militares no Alentejo profundo, precisamente quando a soldadesca se está a preparar para mais da guerra colonial, e das consequências que esta "invasão militar" tem na vida das pessoas que vivem na zona.

A escrita é muito directa e por isso este livro é muito fácil de ler, apesar de o tema ser um pouco difícil, e de acontecerem uma série de tragédias enroladas umas nas outras que tornam a condição humana destes personagens em algo muito complicado.

Ainda assim gostei, mas acho que não me vai ficar na memória.
Profile Image for Rumagoso.
115 reviews29 followers
October 14, 2021
Duro de ler por vezes pelo que descreve do Alentejo de outrora. Gostei de como envolve e interpela o leitor de quando em vez e da riqueza do Português. Gostava de ter sabido mais de Floripes e das personagens principais na sua demanda por trabalho. Os militares... A escrita lembrou-me a espaços Mário de Carvalho. E, ainda mais espaçado, Saramago.
Creio que pela mesma sensação de domínio do Português, que discorre fluido como uma conversa entre amigos de longa data ao envolver-me na história, pois estes três escritores são bem diferentes.
Profile Image for Sílvia.
67 reviews
Read
October 15, 2021
ficção portuguesa de escrita mordaz e estilo meio realista com passagens sarcásticas sobre a ditadura/abuso de poder/sociedade >>>>>>>>>>
Profile Image for Inês.
29 reviews4 followers
April 24, 2020
“Diante do baralho, mas sem mexerem uma carta, os camponeses conferenciam no tom dos conspiradores em segredo. Não falam dos guardas porque já venceram a realidade que eles são. Discutem, para longe dessas presenças e desses cavalos, o futuro de Cimadas – isto é, um balde, um largo com vida, aquilo que tem de permanecer.”


Coloca José Cardoso Pires, simbolicamente, na figura de um balde a preocupação de um grupo de homens imóveis sentados à volta de um baralho de cartas. Lá fora, guardas dão de beber aos cavalos no poço. Os homens, dentro de uma taberna e de costas para esta cena, sentem isto como uma afronta.

Esta é uma das disputas que se passa dentro de O Hóspede de Job, livro escrito pelo autor, entre Março de 1953 e Maio de 1954, em memória do seu irmão mais novo, morto em consequência de um acidente de aviação enquanto cumpria o serviço militar, em 1953. A obra seria editada pela primeira em 1963.

O Hóspede de Job remete-nos para o Alentejo dos anos 50. Lá, o cabo ferreiro Três-Dezasseis entra em disputa com um comboio, mulheres marcham sobre a vila a pedir pão para casa e trabalho para os homens, o balde do poço é um bem precioso e em risco, uma prisioneira ajuda um guarda a estudar, um camponês é levado algemado a um polícia-rapaz até uma esquadra que antigamente era uma sacristia, um moço (João Portela) e um velho (Aníbal) fazem-se ao caminho com esperança (dois, entre tantos, que procuram trabalho de terra em terra). No meio disto, Job, a terra de extrema pobreza, recebe o hóspede rico, o americano Capitão Gallagher (o especialista em armamento e em guerras, que aí ensaia as suas máquinas, à custa da colonização militar). No fim, uma das personagens materializa-se em Job, ficando como símbolo da miséria vivida neste período.

“Havendo esta estranheza perante o sofrimento, e não desprezo, os militares do conto de Aníbal não vêem na morte a razão do ofício ou a justificação natural do inimigo. («Inimigo? Que é dele, o inimigo?», acudiria aqui o cabo ferrador Três-Dezasseis no seu discurso da taberna do homem de luto.)
Não vêem, não aceitam. Mas Gallagher escrevia o seu relatório sem os ouvir. Devorando cigarros, correndo folhas sobre folhas, compunha o elogio dos bons soldados e a vitória das armas.
A páginas tantas, bebeu uma golada de whisky e veio à janela tomar alento. Lá em baixo, pregado num muro de cicatrizes, Job contemplava, com olhos mudos, o cair da tarde e os pássaros que saltitavam à sua volta.”
Profile Image for Fábio Duarte.
19 reviews11 followers
April 19, 2014
Cardoso Pires oferece-nos a radiografia de um Alentejo (perdão, um Portugal) chamuscado pela seca, fome, desemprego, revolta e angústia, onde os homens têm de ser bichos errantes e se levantar do seu poiso, que seria eterno, para procurar o alimento e a sorte. Dá-nos imagens poderosas na sua escrita de pedra, amarga, que não demonstra felicidade, mas morte, desespero, solidão.
Histórias entrecruzam-se: há Floripes, mulher que encabeça uma revolta de mulheres, que pedem por pão, trabalho para os maridos e por consideração e direitos, levando com a bofetada de militares acossados que as oprimem à boa maneira Salazarista; há Aníbal, velho pobre que habita em utopias dos folhetos que compra e que sonha com honrarias patrióticas por seu filho ser um soldado, que se aventura com João Portela, moço minado pelo sífilis congénito, em busca de trabalho, recebendo apenas a mutilação do corpo , o desespero e um bom cabaz de quilómetros vazios; Gallagher, americano que é o bisturi que, com as suas máquinas de guerra, rasga corpos apenas pelo espetáculo que isso produz e é repórter que é vaiado e enxovalhado pela população.
Tem o seu quê de neorrealista mas não é demasiado comunista e disseca, sem nojo, esta pátria de quartel e sacristia e nos demonstra que a coragem e a perseverança sempre vingam, ainda que não afastem totalmente os fantasmas, os fumos.
Profile Image for Carla.
194 reviews25 followers
March 9, 2014
Não gostei particularmente deste livro, achei-o entediante e a sua leitura deixou-me uma sensação de vazio porque não acrescenta nada de relevo.

Apenas considerei interessante as histórias entrecruzadas de várias personagens, como por exemplo, a do velho Aníbal e do seu amigo João Portela, um na busca de trabalho e outro na busca do filho soldado no aquartelamento em Cercal Novo, sonhando com a atribuição de uma eventual pensão, das manifestações de homens e mulheres camponeses pela falta de trabalho na aldeia de Cimadas e a consequente prisão da jovem Floripes, mas sobretudo a pobreza, a fome, a falta de trabalho e a consequente exploração dos trabalhadores pelos lavradores no Alentejo dos anos cinquenta.

Impressionou-me também as crianças que junto ao paiol de Cercal Novo, onde se efetuavam exercícios de tiro e de experimentação de novas armas de guerra, iam apanhar destroços de granadas para vender e ganhar dinheiro, tendo inclusivé vendido ao fornecedor americano das respetivas armas. Aliás, nesta parte, o autor poderia ter explorado muito melhor a história.
Profile Image for Sonia Almeida Dias (Peixinho de Prata).
707 reviews33 followers
March 11, 2016
Este foi mais um daqueles livros que, sem ser documental, faz um retrato duma época e dum local. Muitas vezes quase conseguimos visualizar o Alentejo desértico e abrasador, a pobreza sem possibilidade de revolta. Gostei muito. Aconselhado a todos os que gostam de bons livros, fáceis de ler e enriquecedores.
Profile Image for César Lasso.
367 reviews102 followers
September 24, 2012
O livro está bem escrito -aliás, é um livro premiado- mas não despertou o meu interesse.
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