Quando Fernando Bonassi terminou de escrever Luxúria, a ascensão da nova classe C parecia anunciar um futuro de plena prosperidade no Brasil e a crise do abastecimento de água nas metrópoles do país soaria como ficção. Agora, no entanto, esta fábula contemporânea, sobre uma família comum, com ambições comuns, mas cujas escolhas aos poucos a leva a um cenário apocalíptico, parece anunciar os impasses desse Brasil em que progresso significa consumo.
Inebriados pelo crédito fácil neste “momento histórico de prosperidade”, como alardeiam as propagandas do governo, a família de um metalúrgico – que mora em uma casa financiada, com carro financiado e eletrodomésticos financiados – decide construir uma piscina no quintal de casa. Porém, como afirma um dos personagens, “Há tempos a água não significa pureza: é a mãe de todas as guerras”, e essa decisão aparentemente banal vai expor as bases instáveis em que se assenta a normalidade da classe média, num equilíbrio fraco entre a pobreza e o bem-estar, entre a família feliz e a tragédia.
Livro forte, realismo cru em tom de fábula, com uma permanente sombra de tragédia. Há humor também, alivia um pouco. Infelizmente, como diz o próprio autor, baseado em fatos verdadeiros. Excelente antídoto contra a pasmaceira. uma cusparada na decadência do país. E muito bem escrito!
Não gostei O livro, assim com o autor, tem excelentes reviews, o tema é interessante, o plot da história é muito bom, mas foi um fardo a leitura do livro (que só terminei por insistência, talvez quase um masoquismo: na verdade só terminei porque ele vai melhorando um pouco e o plot e conceito do livro são realmente muito bons). O livro retrata uma família de classe média baixa (classe C) dos anos 2010 de subúrbio de alguma cidade industrial (provavelmente metropolitana), não nominada, com personagens não nominados, com repetições e aliterações, que são engraçadinhas nas primeiras 8 ou 10 vezes que são feitas, mas depois só são chatas mesmo. O estilo pretensamente tem alguma função estética no texto, mas torna-o de difícil digestão não pelo tema, mas pelo pedantismo da redação. O pai (que não recebe nome) é um experiente torneiro mecânico, que trabalha em uma grande empresa e que tem um cargo médio de ferramenteiro na estrutura hierárquica bem delineada de uma antiga empresa alemã que foi comprada por brasileiro, mas mantida a mesma dinâmica formal, estrutura e organização de meados do sec XX. Adquiriu uma posição de distinção (muito explorada com a história do aquário com ar condicionado dentro da fábrica, bastante explorada na narrativa), e seguindo o brasilian way do início dos 2000's (na crítica do autor, uma clara versão mal feita do american way dos anos 1950s) de crescimento da classe C. Comprou uma casa em conjunto do suburbio, tem uma mulher (também não nominada) com problemas de depressão e que (mal) tratada por médicos do SUS, se entope de ansiolíticos e vive como um zumbi; e um filho adolescente com sérios problemas de integração social e que vive em situações de bulling na escola. É uma espécie de poder que surge do desenvolvimento econômico que o governo gera aos cidadãos, e embute uma crítica ao ambiente brasileiro do governo Lula I e II. Mas um poder frágil, que no homem encobre enormes fragilidades, manifestas na mulher e filho.
O plot do livro se baseia em uma ida da mulher ao dentista e o homem acompanha e se confronta com alguém de uma 'casta superior' e é tomado por ciúmes e tenta demonstrar superioridade inventando que iria comprar uma piscina, porque tinha visto a mulher folhar a revista com modelos de piscina na recepção. Isso gera um momento de excitação entre ambos, mas os desdobramentos levarão à completa desordem e caos na vida. O autor desenvolve os problemas que ocorrem na vida particular da família, envolvendo os problemas de uma sociedade pautada na falta de ética, problemas de relacionamento e falta de proteção social a partir disso na vida da família. Aborda também uma linha de exploração do homem na fábrica e como ele se imagina do outro lado com os trabalhadores que instalam a piscina na casa - mas com resultados bem diversos.
A ideia e o enredo são bastante interessantes, mas o autor mistura análise social com análise caricata, tentando reforçar um ponto do 'pobre homem explorado pelo sistema', criando contextos bobos e superficiais. Ao mesmo tempo, cria um relato enrolado, repleto de super-descrições forçadas e bestas, com repetições e comentários desconexos, que parecem o discurso descarrilando de paciente com problema mental, que aloooooooooonga demasiadamente a narrativa, sem desenvolver o texto. Até cerca de 2/3 do livro tem essa dinâmica, lenta, vagarosa, que não anda. Depois no terço final, parece que estava com pressa de entregar o texto ao editor e chega a fazer transformações descontextuaizadas e por vezes sem sentido. Enfim: a ideia do livro é interessante, a discussão e o debate são bastante relevantes, mas a execução da forma que foi desenvolvida no livro, tornam-no um tanto chato e desequilibrado. Poderia ser bem melhor...