Melhores trechos: "...Existia o passado, dizia, mas sempre em relação com o futuro; o presente não era senão uma passagem para o futuro, e o hoje só era interessante por causa do amanhã. Se não houvesse amanhã, perguntava, para que fazer qualquer esforço? Melhor fora vegetar, ou levar a plácida existência de uma vaca... A mente tem pavor a este desconhecido e por esta razão foge para o saber, para as teorias, as esperanças, a imaginação; e justamente este saber constitui um obstáculo à compreensão do desconhecido. Pôr de parte o saber é abrir a porta ao medo; negar a mente, o único instrumento de compreensão que possuímos, é tornar-se acessível ao sofrimento e à alegria. Mas não é fácil pôr de parte o saber. Ser ignorante não é ser destituído de saber. A ignorância é falta de autopercebimento; e o saber é ignorância, quando não há compreensão das atividades do eu. A compreensão do eu é a libertação das prisões do saber... O desejo de repetição de uma experiência, quer nossa, quer de outrem, leva à insensibilidade, à morte. A repeti ção de uma verdade é mentira. A verdade não pode ser repetida, não pode ser propagada nem usada. O que se pode usar e repetir não tem vida em si, é mecânico, automático... Procura-se o esquecimento de si mesmo, interior e exteriormente: uns, na religião, outros, no trabalho e na atividade. Mas não há possibilidade de se esquecer o eu. O barulho que se faz, interior ou exteriormente, poderá abafar a voz do eu; este, porém, não tarda a ressurgir, sob forma diferente, com outra máscara; pois tudo o que se reprime tem de achar um meio de libertar-se. O esquecimento de si mesmo pela bebida ou pelo sexo, pela devoção ou pelo saber, leva à dependência, e tudo de que dependemos cria um problema... Se não pode achar uma conclusão satisfatória, a mente consciente desiste da busca e toma-se quieta; e nessa mente superficial, agora tranqüila, o inconsciente faz surgir, subitamente, uma solução. A mente superficial e a mente mais profunda não são dissimilares; ambas se constituem de conclusões, memórias, e são, uma e outra, produto do passado. Podem fornecer uma solução, uma conclusão, mas são incapazes de dissolver o problema. Este só se dissolve quando tanto a mente consciente como a inconsciente estão em silêncio, não mais projetando conclusões positivas ou negativas. Só há libertação do problema quando a mente está totalmente quieta, cônscia do problema, sem fazer escolha alguma; porque só então deixa de existir o criador do problema... O ciúme é uma das maneiras de se prender o homem ou a mulher, não é verdade? Quanto mais ciumentos somos, tanto maior o nosso sentimento de posse. Possuir uma coisa faz-nos felizes; chamarmos qualquer coisa, até um cachorro, exclusivamente nossa, aquece-nos e conforta-nos. A posse exclusiva faz-nos confiantes e seguros. Ser dono de uma coisa faz-nos importantes; a esta importância é que nos apegamos. E pensar que possuímos, não um lápis ou uma casa, mas um ente humano, nos faz sentir fortes e extraordinariamente satisfeitos. O ciúme não é por causa do outro, mas por causa do valor e da importância de nós mesmos... O medo é a incerteza, buscando a certeza... É difícil não condenar, porque o nosso condicionamento está baseado na rejeição, na justificação, na comparação, e na re núncia. Este é o nosso fundo (background), o condicionamento com que nos abeiramos de todos os problemas. Este próprio condicionamento cria o problema, o conflito..."