Laurentino Gomes, nascido em 1956, é jornalista e escritor além de pós-graduado em administração pela USP.
No entanto, já a algum tempo, têm-se destacado enquanto escritor especializado em escrever livros que procuram dissecar momentos-chave de nossa história. Extremamente estudioso e criterioso o autor tornou-se best-seller com a trilogia “1808”, “1822” e “1889” em que relata de forma bem fluida a história do Brasil a partir de fatos icônicos de nossa trajetória histórica. A partir de 2019 passou a discorrer sobre um tema por demais espinhoso porém vital – a escravidão – numa trilogia, também sucesso de vendas, que se encerrará nesse ano de 2022.
O sucesso de Laurentino Gomes costuma despertar críticas dos historiadores “especialistas” que o acusam de banalizar os temas que aborda com uma linguagem por demais coloquial mais perto da proposta jornalística do que dos tratados de história elaborados com linguagem acadêmica. Mas, por outro lado, a aceitação do trabalho do autor tem sido cada vez mais maior. Afinal de contas ele está sendo bem sucedido em divulgar temas históricos para um público amplo através de livros que propiciam uma leitura por demais prazerosa, muitas vezes em ritmo de thriller. Jurandir Malerba, um dos grandes historiadores da atualidade, acerca do trabalho de Laurentino Gomes afirmou, com muita propriedade, que:
“Laurentino Gomes trouxe a eficácia do texto jornalístico para o campo minado da historiografia. Sua escrita tornou-se referência de sucesso de comunicação – e esse talvez seja um elemento a mais de sua importância para a historiografia brasileira contemporânea, tão ciosa da necessidade de os/as profissionais treinados na academia romperem a torre de marfim, buscarem ocupar maior protagonismo neste momento sensível de nossa história, de proliferação de negacionismos e abusos ideológicos perversos do passado. [...]”
“1822” lançado originalmente em 2010, em função da “efeméride” propiciada pelos 200 anos de emancipação política brasileira cujo evento tão icônico quanto idealizado é o “Grito do Ipiranga”, foi relançado, nesse ano de 2022, numa edição revista e ampliada que merece uma boa conferida.
A estrutura básica da edição original está toda lá. O autor esmera-se em demonstrar com dados e fatos que a tal “independência” esteve longe de ser uma realidade para a imensa maioria da população brasileira submetida ao autoritarismo de uma elite “ilustrada”, masculina, branca e proprietária, que manejou os acontecimentos de forma a manter intactos os seus interesses em detrimento das mulheres, dos índios, da população negra forra e, ou escravizada e de propostas consideradas inviáveis como a república ou a emancipação dos cativos. Merecem atenção especial a desconstrução de certos mitos que se consagraram e impedem um real entendimento de nossos processos históricos e a incômoda sobrevivência de problemas que já existiam 200 anos atrás como muito bem afirma o autor no trecho reproduzido a seguir:
“Para entender o Brasil de hoje, é preciso olhar o passado. A história nos ajuda a compreender nossas raízes mais profundas – africanas, indígenas e portuguesas – e a jornada que nos trouxe até o presente, com suas aspirações, lutas, vitórias e seus fracassos. Uma efeméride, muito além de ocasião de festas e celebrações ufanistas, é uma preciosa oportunidade de estudo e reflexão. O Brasil chega ao bicentenário da Independência com perguntas incômodas e desafiadoras pairando em seu horizonte. Os sonhos e promessas de 1822 eram grandiosos, porém, transcorridos duzentos anos, poucos se realizaram”.
Excelente e esclarecedora leitura principalmente neste momento em que os 200 anos de nossa emancipação política exigem uma série de reflexões que são imprescindíveis para um entendimento a contento de nossas mazelas econômicas e sociais e para o estabelecimento de relações claras entre o Brasil de 07/09/1822 e o Brasil de 07/09/2022. Afinal de contas os grupos excluídos duzentos anos atrás – mulheres, indígenas, negros, pobres, comunidade LGBTQI+ - continuam, em pleno século XXI, com dificuldades para alcançar a plena cidadania, sinais mais do inequívocos de que os dilemas e exclusões de duzentos anos atrás estão longe de ser superados.
Para fechar com “chave de ouro” essa edição revista e ampliada foram incluídos três ensaios a cargo de nomes consagrados de nossas ciências humanas: Heloisa Murgel Starling, historiadora e cientista política, que discorre sobre os desafios que ainda enfrentamos para consolidar a nossa frágil e contestada democracia, Jean Marcel Carvalho França, professor e pesquisador, que aborda o interessante tema do “olhar estrangeiro” sobre a nossa “independência” e Jurandir Malerba, doutor em história, que discorre sobre o tema “Comemorar para conhecer nossa trajetória e projetar nosso futuro”, o melhor dos ensaios que complementam essa obra de onde tiro o trecho abaixo para encerrar com classe essa resenha:
Esse talvez seja um dos principais legados das efemérides que atravessamos: a oportunidade de pensarmos como chegamos ao lugar histórico onde nos encontramos e como se fabricaram mitos dessa saga ao longo dos tempos: [...] de que a ruptura com Portugal foi pacífica, de que o brasileiro é um povo ordeiro e acomodado, de que o agronegócio gera riqueza para todos ao brasileiros, de que os “brasileiros" são uma entidade única, com os mesmos interesses e projetos. Ora, o desenho de Estado-nação instituído no pós-independência não podia ter sido mais excludente. Aquele foi um projeto de e para homens, machos, brancos e proprietários. [...]
Mas as elites nacionais continuam, em seu projeto de perpetuação de privilégios para si e exclusão do povo do gozo da cidadania, a criar e reproduzir mitos. As efemérides são uma oportunidade única para conhecermos melhor nossa história de outros pontos de vista que os das elites. Tempo propício para derrubar mitos”.
Leia e reflita bastante sobre o momento histórico que estamos atravessando.