Todos os caminhos da obra de Autran Dourado levam a um mesmo e mítico local. Uma geografia que combina a Minas Gerais profunda, onde o autor nasceu em 1926, e o universo tão imaterial e ao mesmo tempo palpável da linguagem, trabalhada das mais variadas formas, do romance ao conto, passando pelo ensaio e a novela. Publicada em 1964, Uma vida em segredo é uma das mais prestigiadas obras do autor. A novela conta a história de Biela, uma moça desajeitada, encolhida e feia, que nasceu e cresceu na roça. Um dia, após a morte do pai, ela chega à cidade, com um vestido antiquado, para viver com o primo Conrado, seu testamenteiro e tutor. Tímida, taciturna, Biela não é apenas uma personalidade discreta, mas alguém que quer preservar sua intimidade, seu mundo pequeno e sereno. Um mundo do qual captamos poucas revelaçőes. Sua vida pacata transcorre, assim, subterrânea, em sua vocaçăo de freira sem claustro, de renúncia às pompas e circunstâncias. Fora um noivado frustrado, muito pouco acontecerá na vida de Biela. Trabalho esmerado de Autran Dourado, recriação inventiva dos modos e linguagem da gente do interior, Uma vida em segredo é uma jóia do novelário brasileiro, frequentemente comparada a Um coração singelo, de Flaubert. Autor vencedor do Prêmio Camões (2000) e do Prêmio Machado de Assis (2008).
Waldomiro Freitas Autran Dourado (1926 – September 30, 2012) was a Brazilian novelist.
Dourado was born in Patos de Minas, state of Minas Gerais. Going against current trends in Brazilian literature, Dourado's works display much concern with literary form, with many obscure words and expressions. Minas Gerais is the setting for most of Dourado's books, resembling the early to mid-20th century regionalist trend in Brazilian literature. Most literary critics consider Dourado's work to have similarities to Baroque literature.
In 1981, Dourado won the prestigious Goethe Prize.
In 2000, Dourado won the Camões Prize, the most important literary prize in the Portuguese sprachraum.
Poucas vezes vi, no mundo literário, a habilidade que tinha Autran Dourado de nos colocar na cena. Consigo sentir o cheiro dos ambientes, a temperatura nos cômodos, ver a poeira sendo sacudida e se espalhando no ar; a mecha de cabelo que se solta do coque, o olhar para o chão. Tudo como se eu estivesse ali.
Quando o pai, Conrado, numa das primeiras cenas, chega à soleira da porta e diz “Vai entrando, a casa é sua”, já senti o frescor de entrar naquela casa arejada, após ter cavalgado debaixo do sol, a sala de pé direito alto, com móveis de jacarandá, as amplas janelas e o perfume de alfazema da limpeza. Dá um alento isso, traz um passado bom. E ele fazia isso sem ser excessivamente descritivo, ele só dava uma pista, o resto ficava com nossa imaginação.
Aqui temos a história de Biela, a prima de Conrado, este morador de uma casa na cidade, onde vive com a mulher Constança e os cinco filhos. Biela acaba de ficar orfã de pai, aos 18 anos; a mãe morrera quando ela ainda era pequena. Apesar de ter herdado propriedades e muito dinheiro - cujo tutor é Conrado -, ela “despreza o dinheiro, a posição, o mando, as pompas do mundo”. E, naturalmente, por ser mulher, - e não ter alcançado a maioridade civil, que na época era de 21 anos - seu destino é decidido por outros; ela vai morar com a família do tutor.
Sua chegada à casa causa muito estranhamento em todos: a moça não é nada do que esperavam: é sem graça, mal vestida, tímida, muito quieta; prefere passar os dias no quarto a conviver com a família, com exceção dos empregados, com os quais adora passar um tempo na cozinha. Tem um andar desengonçado, não tem modos à mesa, um fiasco. Claro que eles vão tentar consertá-la, especialmente Constança, que não quer que Biela a envergonhe. Mas Biela tem um mundo particular, feito das lembranças de bons tempos: sua mãe sentada no canapé, alisando seus cabelos e cantando para ela; o barulho do monjolo e da água do riacho correndo… é lá que se refugia deste novo mundo estranho onde ela tem que atuar, tem que ser sociável e boazinha. Todos a acham tão boazinha! Mas embora aparentemente ela seja sempre aquela figura apagada e inofensiva, há sentimentos conflitantes dentro dela!
Após uma situação que a favoreceu aos olhos da comunidade, para em seguida, levá-la à compaixão coletiva, Biela “via-se nos olhos dos outros, na amargura dos outros, na pena que os outros tinham dela. Como se tivesse um grande defeito físico que tornasse diferente de todas as outras mulheres da cidade. Vendo-a, ninguém podia imaginar o que se passava de trás daqueles olhos miúdos e sem brilho. Daí todo mundo achar que prima Biela não ligou muito, tão boazinha ela era”.
Mas as pessoas conheciam realmente Biela? Ou melhor: queriam conhecê-la? Isto me leva a uma reflexão que fiz recentemente lendo A morte e a morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado: nós gostamos das pessoas pelo que elas são ou pelo que representam? Se seguem caminhos que não aprovamos, deixamos de gostar delas? Gostamos menos?
SOBRE A COMPARAÇÃO COM A PERSONAGEM DE FLAUBERT
Logo em seguida eu li Um coração simples, do Flaubert, porque várias pessoas compararam Biela à Félicité, a protagonista da novela francesa. Aliás, nesta seara do retrato de uma vida comum, lembrei também de Stoner, de John Williams; mas para mim, a semelhança termina aí. Enquanto Stoner e Félicité são resignados com suas vidas, Biela faz sua revolução. A “boazinha”, a “pancada”, a “bicho do mato”, com seu jeitinho tímido, sem muitas palavras, em certa altura se revolta com sua situação, decide não mais se submeter aos desejos dos outros e passa a viver sua vida como quer viver. Ela deixa de ser uma moça passiva e conquista o seu lugar. O que pode fazer as pessoas associarem Biela à Félicité é não acreditarem que alguém optaria por ter uma vida como a de Biela, se ela tinha tanto dinheiro. A personalidade de Biela é complexa.
Por fim, um dado muito interessante é que Autran Dourado tinha uma prima, uma curatelada do avô, que era uma personagem tão apagada que ele nem se dava conta dela. Pois foi essa prima que lhe apareceu em sonho e inspirou a história de Biela.
Autran Dourado tinha, sim, várias inspirações para escrever os seus romances, como ele mesmo descreveu: “em geral as minhas narrativas nascem, não iguaizinhas, quase sempre de uma ideia súbita (…), é um cheiro, uma lembrança, um fiapo de pensamentos sonhoso, uns olhos azuis ou negros, verdes também sobretudo, uma frase, um verso, um personagem, um título, um risco geométrico, um nome, um não-sei-que-mais, a semente, o detonador da obra futura”. E sim, acho que a obra de outros escritores puderam lhe servir de inspiração também, como A rose for Emily, de Faulkner, para criar Ópera dos Mortos. Mas Dourado tinha sua própria escrita, seu próprio desenvolvimento, em muitos casos, inclusive superior, como aqui, neste Uma vida em segredo.
O livro me transportou para a vida de Biela, uma jovem que parte da isolada Fazenda do Fundão rumo à casa de seu primo Conrado. Desde os primeiros capítulos, fui confrontada com sua fragilidade e a dificuldade em se integrar à nova família. O contraste entre sua simplicidade rural e as dinâmicas sociais que a cercavam despertou em mim uma profunda empatia. As risadas e comentários ácidos de seus primos, juntamente com a figura quase maternal de Constança, criaram um universo onde Biela parecia um "bicho do mato", perdida em meio a um mar de expectativas e alienação. A jornada de Biela tece uma complexa tapeçaria sobre pertencimento e identidade. Fui cativada pela forma como, apesar das desilusões e desafios, ela consegui encontrar um novo lugar, especialmente ao se aproximar de Mazília e experimentar a efemeridade do amor com Modesto. Sua transformação e eventual decisão de afastar-se das convenções sociais culminaram em uma nova vida, ainda que marcada pela tristeza e solidão. Ao final da leitura, foi impossível não sentir a melancolia do destino de Biela, cuja busca por um lugar no mundo pareceu se entrelaçar com os segredos que a rodeavam, conferindo uma aura trágica à sua existência.
Após a morte do pai, Biela fica órfã. Assim o primo Conrado vem resgatar a jovem ao fim do mundo para a levar para a cidade, onde vai viver junto com sua família.
Biela que é herdeira de uma grande fazenda e tem dinheiro, é uma pessoa simples e deixa os negócios ao cuidado do primo. Este, casado com Constança, pai de cinco priminhos de Biela, faz o melhor que pode pra cuidar dela.
A história conta como por vezes as pessoas se habituam ao seu mundo e dispensam evoluir. Cada um tem a sua natureza, e por vezes a pessoa é mais feliz tendo uma vida mais doída, simples, rudimentar; a vida a que foi habituada quando criança e que não mais consegue escapar.
meio doído, muito bonito. é fácil apontar como doido aquele que tendo todos os meios para o luxo, prefere levar a vida mais simples possível — só assim sendo feliz. biela me ensinou várias coisas.
"a literatura que podia ter sido e não foi", eu comentei aqui ao terminar sei lá qual releitura de Um coração simples, provavelmente meu conto favorito de todos, pace Borges. Essa novela, quanto a isso, me pegou desprevenido: tem horas que quase parece que foi sim.