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Incesto

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«Mas havia mais. Em Paris, à noite, sozinho no seu quarto, antes de adormecer, não se lhe esboçara nas trevas, defronte da imagem puríssima de Leonor, a imagem sensual de Júlia toda desnudada sobre um leito de rosas?... E a roupa íntima da desaparecida que ele beijava sofregamente?... E o episódio das Folies? Essa prostituta de carne à mostra, de seios pintados, recordara-lhe a filha... Por isso a mandara sentar-se junto dele, ah! e por isso se esfregara, ignobilmente se esfregara, sobre o seu corpo debochado!...
Infâmia. Infâmia. Tinha-se consumado há muito o incesto... durava desde a morte da filha!... O quê!? Só desde a sua morte?... E a ponta do seio a enfolar a blusa? E a noite de luar? a noite de luar!?... Agora é que compreendia — ele agora compreendia tudo.»

80 pages, Paperback

First published January 1, 1912

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About the author

Mário de Sá-Carneiro

94 books177 followers
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.

Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo.

Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.

O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.

Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.

Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Marta Xambre.
254 reviews29 followers
June 5, 2021
Mais uma obra de Mário de Sá Carneiro merecedora de ser lida e de ser analisada, permitindo ao leitor uma viagem reflexiva sobre a mente e as relações humanas.
Os sentimentos e as relações são de facto o amparo para o amor, a perda, a culpa, a obsessão,...
A escrita do autor é de tal forma arrebatadora que nos envolve despercebidamente naquela manifestação permanente do Eu descontente, do Eu desesperado, do Eu alienado, do Eu insatisfeito,...
Também na obra O Incesto, Sá-Carneiro enleva o leitor através do seu enigmatismo e das suas metáforas.
É um livro pequeno, que se lê rápido, mas que aborda magistralmente a vulnerabilidade humana, a sua condição e o seu mistério.
Profile Image for Tere.
79 reviews
April 24, 2018
Leí dos líneas y supe que nos íbamos a llevar muy bien. Tremendo.
Profile Image for Klissia.
854 reviews12 followers
November 18, 2021
Estava a sentir falta de uma dose de desespero e solidão humana,a beira da loucura, por lugares escuros do coração e mente, envolto em excelente literatura do Senhor Mário de Sá Carneiro.
Sua obsessao por mulheres mortas continua...
Displaying 1 - 4 of 4 reviews

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