Propércio confere o tom. Para ele, Cleópatra era uma sedutora dissoluta, "a rainha meretriz", mais tarde "uma mulher de sexualidade insaciável e cobiça insaciável (Dio), uma pecadora carnal (Dante). "a meretriz dos reis orientais" (Bocacio), o amor ilícito personificado (Dryden). Propércio afirma que ela fornicava com os escravos. Um romano do século I afirmaria (falsamente) que "os escritores antigos falam repetidamente da insaciável libido de Cleopatra". Num relato antigo, ela é tão insaciável que "muitas vezes fazia de prostituta". (É igualmente tão bela e tão tóxica que "muitos homens compravam noites com ela pelo preço das suas vidas".) Na avaliação de uma mulher do século XIX, ela era "um deslumbrante artifício de bruxaria". Florence Nightingale referiu-se a ela como "essa repugnante Cleópatra". Oferecendo-lhe o papel no filme, diz-se que Cecil B. DeMille perguntou a Claudette Colbert: "Gostaria de ser a mulher mais pérlida da História?" Cleópatra protagoniza mesmo um livro de 1928, chamado Sinners Down the Centuries. Na luta entre a mulher e a lenda, a mulher não tem hipóteses.
O mito de Cleópatra atravessou barreiras geográficas e temporais, e sobreviveu melhor do que a maioria dos mitos da antiguidade. A razão é simples: Cleópatra alimenta um imaginário de poder feminino que é daninho às instituições e mentalidades patriarcais. Assim, a sua lenda tem vindo a alimentar referenciais de perigos femininos a combater, ora associados à sexualidade, ora à inteligência, ora à bruxaria. De nada Cleópatra escapou, - a sua vida entrelaça-se com a de três homens poderosos que reescreveram a história em seu proveito - nunca seria fácil preservar o seu discurso no meio de três outros discursos de poder masculino.
Apesar disso, Stacy Schiff faz um esforço tremendo para trazer à luz do dia uma figura obscura, magnética e mítica como Cleópatra - e consegue-o de forma impressionante!
Com a tomada de posse de um reino aos dezoito anos (juntamente com o irmão-marido de dez anos), Cleópatra abre caminho a uma história sem precedentes no ocidente, mas Schiff esforça-se por nos mostrar aquilo que a história ocidental imperial romana tanto fez por ocultar - um passado em que as rainhas se sucediam e as mulheres prosperavam - no Egipto de Cleópatra as coisas eram muito diferentes daquilo que os romanos se esforçavam por implementar em casa:
Cleópatra atingiu a maioridade num país que albergava uma singular definição do papel das mulheres. Muito antes dela e séculos antes da chegada dos Ptolomeus, as mulheres egípcias desfrutavam do direito de decidir acerca dos próprios casamentos. Ao longo do tempo, as suas liberdades haviam-se expandido a um grau sem precedentes no Mundo Antigo. Tinham direitos iguais à herança e possuíam bens independentemente. As mulheres casadas não estavam sujeitas ao controlo dos maridos. Gozavam do direito de se divorciarem e de serem sustentadas após um divórcio. Enquanto o seu dote não lhe fosse devolvido, uma ex-mulher tinha direito a residir na casa que escolhesse. As suas propriedades continuavam a pertencer-lhes por direito: não deviam ser esbanjadas por um marido perdulário. A lei protegia a mulher e os filhos se o marido agisse contra os seus interesses. Os Romanos admiravam-se por, no Egipto, as crianças do sexo feminino não serem abandonadas à morte; um romano só era obrigado a criar a primeira filha. As mulheres egípcias casavam também mais tarde do que as dos países vizinhos, e só cerca de metade delas com a idade de Cleópatra. Emprestavam dinheiro e exploravam barcaças no Nilo. Oficiavam como sacerdotisas nos templos do país. Instauravam acções no tribunal e contratavam flautistas. Na qualidade de esposas, viúvas ou divorciadas, possuíam vinhedos, adegas, pântanos de papiros, navios, negócios de perfumes, equipamentos de fiação, escravos, casas, camelos. É possível que um terço do Egipto ptolemaico tenha estado nas mãos de mulheres.
A história de Alexandria está assim profundamente associada à personalidade de Cleópatra. O Egipto era, por esta altura, uma capital de cultura e ciência onde a igualdade de género imperava, um lugar místico onde a divindade e a humanidade se confundiram, e um mundo aberto a um futuro de abundância e perpétua evolução:
Foi em Alexandria que a circunferência da Terra foi medida pela primeira vez, o Sol fixado no centro do sistema solar, os mecanismos do cérebro e do pulso esclarecidos, os fundamentos da anatomia e da fisiologia estabelecidos, as edições definitivas de Homero produzidas. Foi em Alexandria que Euclides codificou a geometria. Se fosse possível dizer que toda a sapiência do Mundo Antigo se concentrava num lugar, esse lugar seria Alexandria. Cleópatra foi sua beneficiária directa. Sabia que a Lua influenciava as marés, que a Terra era esférica e girava em torno do Sol. Conhecia a existência do equador, o valor de pi, a latitude de Marselha, o comportamento da perspectiva linear, a utilidade de um pára-raios. Sabia que era possível navegar de Espanha à Índia, uma viagem que só seria empreendida 1500 anos mais tarde, embora ela própria houvesse de ponderar realizá-la em sentido inverso.
Todavia, dois anos após a ascensão de Cleópatra, os romanos ancoravam no porto da capital. Cleópatra e Ptolomeu XIII (o irmão-marido) guerreiam pelo governo do Egipto. César está prestes a levar a ditadura longe demais, mas, por ora, conta com grandes exércitos. Cleópatra, por seu lado, dispõe de grandes riquezas. Inteligentes, calculistas e engenhosos, nenhum dos dois teme morrer ou matar, os dois são aliados perfeitos, e a aliança que criam ditará o futuro da rainha do Egipto para o resto da eternidade:
A relação de César e Cleópatra era invulgar não só pelas suas diferenças nacionais, mas porque Cleópatra se envolveu nela por sua própria vontade. Nenhum parente do sexo masculino a obrigou. Para um romano, este facto era muito desconcertante. Se, em vida, o pai a tivesse casado com César (uma impossibilidade por várias razões), ela teria sido vista de forma completamente diferente. O que inquietou aqueles que escreveram a sua história foi a sua independência intelectual, o seu espírito de iniciativa.
O historial, todavia, não deixa margem para dúvidas, o poderio nas mãos da rainha Cleópatra após a derrota do irmão-marido, a par da sua sageza, faz dela uma das figuras maiores da sua época, cujo eco apenas se encontra nas figuras dos homens (generais e Césares) que cruzaram o seu caminho:
A estranha e terrível História ptolemaica não deve toldar dois factos. Se as Berenices e Arsínoes eram tão pérfidas como os maridos e os irmãos, tal devia-se, em larga medida, a serem imensamente poderosas. (Tradicionalmente, também eram relegadas para segundo plano em relação a esses maridos e irmãos, uma tradição que Cleópatra ignorou.) Mesmo sem uma mãe reinante, Cleópatra podia seguir o exemplo de uma série de mulheres, suas antepassadas, que construíram templos, reuniram frotas, travaram campanhas militares e, com os respectivos consortes, governaram o Egipto. Pode dizer-se que ela tinha modelos femininos mais poderosos do que qualquer outra rainha da História.
Apesar das múltiplas fontes (quase nenhuma fidedigna), Schiff é rigorosa com os dados. Com personagens míticas é fácil resvalar no sensacionalismo, é fácil tropeçar na calúnia e no exagero, e cair nos muitos buracos que compõem a narrativa:
À equipa de historiadores extraordinariamente tendenciosos, acrescente-se um acervo de documentos extraordinariamente lacunar.(...)As lacunas são tão sistemáticas que parecem deliberadas; quase existe uma conspiração de silêncios.(...)É dificil dizer o que mais falta.(...) E na ausência de factos, insinua-se o mito, a erva daninha da História.
Embora jogando com dificuldades, a biógrafa não hesita - as suas descrições são impecáveis, certeiras, relevantes. Alexandria ganha vida pelas suas palavras, os meandros da política e do sistema económico são encarados de forma pragmática, dando contexto a uma narrativa preciosa e detalhada:
O sistema ptolemaico tem sido comparado ao da Rússia soviética; figura entre as economias mais controladas da História.(...)as terras pertenciam, na sua maioria, à coroa. Como tal, os funcionários de Cleópatra determinavam e supervisionavam o seu uso.(...) Ninguém abandonava a sua aldeia durante a estação agrícola. Nem abandonava os animais de criação. Todas as terras eram inspeccionadas, todo o gado inventariado(...) Os teares eram verificados para garantir que nenhum estava inactivo e que a contagem dos fios estava correcta.(...) O cervejeiro apenas funcionava mediante licença e recebia a sua cevada - com a qual se comprometia a fabricar cerveja - do Estado. Assim que vendia a sua mercadoria, entregava os lucros à coroa, que deduzia das receitas os custos das matérias-prima e das rendas. Cleópatra tinha, assim, a garantia de um mercado para a sua cevada e dos lucros das vendas do cervejeiro. (...) Durante este processo, eram particularmente e com frequência exortados a disseminar por todo o Egipto a reconfortante mensagem que "ninguém está autorizado a fazer o que deseja, mas tudo está organizado pelo melhor".
À luz destes pormenores, Cleópatra ganha nova vida. A Alexandria fundada por Alexandre Magno era sinónimo da convergência entre dois mundos - apesar do seu frenético sincretismo, apesar do cosmopolitismo de Alexandria - abordar um alexandrino era abordar um etíope ou um cita, um líbio ou um cilício -, havia duas culturas paralelas instaladas>. Governar Alexandria não era tarefa menor e estava nas mãos de uma mulher.
A sua história com César é sumarenta, todos julgamos saber. Porém, é também breve. Cleópatra consegue, através dela, o título de rainha vassala (o que, supostamente, a protegeria da violência expansionista de Roma) - e, pelo meio, um filho reconhecido pelo ditador e uma série de homenagens, de certa forma fora de caráter, para um homem cuja imagem sanguinária e intransigente a história perpetua. O que mais Cleópatra esperava retirar daqui não podemos opinar:
Sem dúvida, Cleópatra contribuiu para a queda de César, embora não haja indícios de desígnios imperiais da sua parte ou da dele, de traição ou, já agora, de qualquer paixão cega e fatal. É discutível o alcance do papel dela. Apesar dos seus talentos de persuasão, era improvável que se tivesse imiscuído muito na política interna de um modo significativo. Estaria a conjecturar juntamente com César uma monarquia conjunta? Possivelmente, mas não nos ficaram provas.
Por outro lado, após a morte de César, a sua relação com Marco António é amplamente debatida, muitas vezes sem qualquer pudor:
Ouvimos mais sobre a conquista de António do que sobre a de César, pela simples razão de que os cronistas se sentiam tão ávidos em discorrer sobre um como se sentiam relutantes em discorrer sobre o outro. Como António devia parecer um homem inferior, Cleópatra torna-se uma mulher mais poderosa.
O seu caráter leviano, a personalidade efusiva e a decadência da sua reputação permitem aos autores que se ocupam da sua história um bocadinho menos de retraimento. A própria Schiff perde algum tempo no retrato do estratega - e face a Cleópatra, Marco António perde todo o vigor:
António faz o que qualquer pescador que se preza faria: secretamente ordena aos seus servos que mergulhem na água e prendam ao seu anzol uma série de peixes previamente apanhados. Puxa estas pescarias, uma atrás da outra, um pouco triunfantemente de mais, um pouco regularmente de mais: é um homem impulsivo que tem algo a provar, pouco dado à contenção. Cleopatra raramente deixa escapar um truque e não deixa escapar este. Finge admiração. O seu amante é um homem extremamente hábil! Mais tarde, nesse dia, tece-lhe louvores perante os amigos que convida a assistirem pessoalmente ao seu talento.
No dia seguinte, uma grande frota faz-se ao mar em conformidade. No momento da partida, Cleópatra emite algumas ordens furtivas pessoais. António lança a linha com resultados instantâneos. Sente um grande peso e puxa a pescaria perante salvas de gargalhadas. Do Nilo extrai um arenque salgado e importado do mar Negro. Cleópatra aproveita a artimanha para provar a sua superior inteligência.(...) "As vossas presas", lembra ela a António, "são cidades, reinos e continentes". Um cocktail habilmente misturado de lisonja, que correspondia, na perfeição, à definição de Plutarco: "Pois uma reprimenda destas é exactamente como as ferroadas de uma mulher devassa; excita e provoca e agrada, apesar de causar incómodo."
O que nos traz à fama promíscua e selvagem de Cleópatra - afinal, casada com dois irmãos, a rainha do Egipto vem a ter quatro filhos de dois romanos casados (um general, um imperador):
Também no Mundo Antigo as mulheres maquinavam enquanto os homens definiam estratégias; havia um grande fosso, elementar e eterno, entre o aventureiro e a aventureira. Havia, igualmente, um fosso entre virilidade e promiscuidade: César deixou Cleópatra em Alexandria para dormir com a mulher do rei da Mauritânia. António chegou a Tarso logo a seguir a um caso com a rainha da Capadócia. Consorte de dois homens de voraz apetite sexual e inúmeras conquistas sexuais, Cleópatra passaria à História como a cilada, o engano, a sedutora. Mencionar a sua habilidade sexual era, evidentemente, menos desconcertante do que reconhecer os seus dons Intelectuais.
A realidade é que a sua estratégia é deveras inteligente. Cleópatra joga com os dados que tem - a maternidade, sobretudo no Mundo Antigo é um pau de dois gumes, mas, se pensada como ferramenta política (que ainda o é!) pode fazer ou desfazer impérios:
Perante a maneira come acumulava sucessores, Cleópatra estava, possivelmente a fazer mais para unificar o Oriente e o Ocidente do que qualquer outra pessoa desde Alexandre Magno.(...)Não precisava de difundir a ocorrência dos sensacionais nascimentos. A notícia de que a empreendedora rainha do Egipto dera à luz um filho chamado Alexandre - cujo pai era Marco António e cujo meio-irmão era um filho de César - constituía uma parangona em 39 a.C. Era o suficiente para fazer de Cleópatra, para adoptar uma frase muito posterior, um alvo de má-lingua para o mundo inteiro.
Com isto, Cleópatra consegue (a partir de 37 - tinha 32 anos) governar praticamente toda a costa mediterrânica oriental, desde a actual Líbia, em África, até ao sul da Turquia, passando por Israel, Líbano e Síria, exceptuando pequenas extensões da Judeia(então mas mãos do famigerado Herodes):
Em 37, portanto, tudo vai bem para Cleópatra - Cesarião, filho de César, será o herdeiro de um dos maiores impérios do mundo; os filhos de Marco António ficarão encarregados de diversas províncias - incluindo terras ainda não conquistadas.
Porém, a jactância do general, e o otimismo da rainha, não têm em conta o crescente apoio que Octaviano (filho adotivo de César - na realidade, um seu sobrinho) vem a conquistar em alguns meses. Octaviano, mais tarde César Augusto, tem, ao contrário de António, e como muitos dos seus concidadãos, ideias muito firmes sobre o papel das mulheres no mundo e na política:
Como Lucano formulou o grito de guerra um século mais tarde: "Há-de uma mulher - nem sequer romana - governar o mundo?" A lógica era simples. A rainha egípcia subjugara António. Roma, advertiu Octaviano, viria a seguir. No final de Outubro, declarou guerra - a Cleópatra.
Augusto virá a ter o mais longo reinado entre todos os Césares. As riquezas do Egipto (dinheiro, produção, cultura) alimentarão um império esfomeado como o era Roma no século I a. C. Depois de conseguir que Marco António capitule (e se suicide), os seus olhos estão virados para a rainha.
O cinema, o teatro, até a música são pródigos a oferecer o retrato dos últimos momentos de Cleópatra, mas o que aconteceu realmente? Se Cleópatra era a grande feiticeira que testava venenos nos seus escravos e prisioneiros, porquê recorrer a uma cobra; onde a encontrar (Cleópatra barricara-se no mausoléu); porquê sofrer desse destino e não doutro mais fiável?
"A verdade dos factos", anunciou Plutarco a séculos de orelhas moucas, "ninguém sabe." Ignorada durante quase duzentos anos, a serpente agarra-se tenazmente à história. A áspide de Cleópatra é a cerejeira da História Antiga, uma conveniência, um símbolo, acima de tudo uma dádiva a pintores e escultores ao longo dos séculos. Fazia sentido poético e era boa arte. (Como o seio nu, que também não fazia parte da história original.) E a serpente multiplicou-se imediatamente (...)
é fácil ver o que alguém está a tentar comunicar quando associa uma senhora a uma serpente. (...) Antes dela, temos Eva, Medusa, Electra e as Erínias;, quando uma mulher se alia a uma serpente, há algures uma tempestade moral à espreita.
Como seja, as fontes replicam a teatralidade da morte de Cleópatra à exaustão. A verdade estará a meio caminho do sensacionalismo e da banalidade. Só a grandiosidade de Cleópatra permanece inalterada em todos os discursos - mesmo aqueles que tentam mascarar a realidade:
Os criadores de mitos alinharam todos de um lado. Durante o século seguinte, a influência oriental e a emancipação das mulheres manteriam os satíricos ocupados (...)Sempre foi preferível atribuir os sucessos de uma mulher à sua beleza e não ao seu cérebro, reduzi-la à soma da sua vida sexual. Contra uma sedutora poderosa, não há argumentos, Contra uma mulher que envolve um homem na espiral da sua Inteligência serpentina nos seus colares de pérolas - devia haver, pelo menos, um tipo de antídoto. Cleópatra perturba mais como sábia do que como sedutora; é menos ameaçador acreditar nela como fatalmente atraente do que fatalmente inteligente.
O reinado de Cleópatra durou vinte e dois anos. A rainha morreu com trinta e nove. A geração que se segue (com o nascimento de Cristo) reinicia os calendários para o ano 1. O Nilo nunca mais será o mesmo. A época clássica fica marcada pelo final do reinado de Cleópatra, abrindo caminho ao Império de César Augusto, à Pax romana, à Eneida - é um novo mundo que nasce com a morte do velho:
Visto à distância, o reinado dela equivale a uma suspensão de pena e, no essencial, a sua história chegou ao fim antes de começar - embora, claro, não fosse assim que ela via a questão. Com a sua morte, o Egipto passou a ser uma província romana. Só viria a recuperar a autonomia no século XX.
À biografia assinada por Schiff não fica a faltar nada - a não ser talvez uma capa menos manhosa. À parte isso, é um elogio indispensável à história clássica e uma prova irrefutável de que o júri dos prémios literários nem sempre é cego ao verdadeiro talento.