Acabo de terminar O Tempo e o Vento, do Érico Verissimo. Este livro, que não é um senão tantos (3), me acompanhou pelos últimos 2 anos. Quando tudo na minha vida mudou, língua, idade, localização, ele ficou firme e impávido, como o Sobrado resistindo a uma daquelas noites de minuano, que tendem a soprar tragédia para dentro da vida.
O Tempo e o Vento é justamente o que seus muitos títulos descrevem. Tendo como cenário o Continente que é o Rio Grande do Sul, se traça um Retrato da sua história, através do olhar das várias gerações dos Terra-Cambará, mas sem ignorar o Arquipélago humano de personalidades, histórias e vidas que compõe uma sociedade complexa, que é o fruto da mistura de índio, bandeirante, missionário, português, castelhano, italiano, japonês, alemão e sobretudo, brasileiro. Tentar descrever sua profundidade e escopo não só seria tamanho ato de presunção, como insensível e indecorosa atividade.
Por isso o que me resta é este elogio fúnebre, com tom de enterro, onde reverencio o defunto e enterro meus pensamentos na cova do livro fechado na estante. Nesta formal solenidade, me despeço da pletora de personagens e de uma parte de mim mesmo, pois me vivi e me pensei nas palavras do Érico nestes últimos 2 anos.
Mas será mesmo a literatura essa experiência fadada ao esquecimento? Quantos grandes autores e títulos já li, quantos personagens icônicos já conheci, para depois esquecer seus nomes e ensinamentos? O quer mesmo foi que eu aprendi naquele livro? Como foi mesmo aquela tal epifania?
Não sei se é assim mesmo, ou se algum resquício submerso fatalmente carrego, mas pelo menos
Quando a solidão da noite
Vem me procurar,
E o vento
Sussurra uma tristeza nostálgica
Aos meus ouvidos,
Me vejo a observar o vazio
E como o Liroca Velho de Guerra,
Solto um suspiro ao murmurar:
‘Eta mundo velho sem porteira!’