Mario de Andrade e Carlos Drummond de Andrade se conheceram em 1924, durante viagem do paulista a Minas Gerais. Mario ja era uma figura de proa do movimento modernista, ao passo que o mineiro ainda nao havia estreado em livro. A correspondencia entre os dois poetas tomaria corpo pelos vinte anos seguintes, ate as vesperas da morte de Mario, em 1945.
As cartas, reunidas pelo proprio Drummond, sao o testemunho luminoso de uma amizade entre dois autores fundamentais do Brasil. Entre conversas sobre a natureza da poesia, o dia a dia mais prosaico e comentarios sobre o que e ser artista no Brasil, os dois poetas travam, com afeto e inteligencia, uma conversa que ilumina e emociona.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
É feio ler a correspondência dos outros, dizia minha Avó, mas graças a Deus ignorei essa reprimenda e li essas cartas (ainda que eu acredite que à essas ela não teria ressalvas).
A correspondência mais importante que eu jamais recebi foi a primeira carta que Mário de Andrade escreveu para Drummond, foi essa a leitura que me salvou nos anos finais da Universidade, todas as vezes que me sentia perdido e desgostoso eu retornava à carta, um hábito que ainda mantenho. Parece ter sido eu o verdadeiro recipiente da mensagem escrita em 1924. Me vejo no interior de Minas, distante da capital e ansiosamente aguardando por notícias para ajudar-me a navegar meus 20 e poucos anos.
Minha única ressalva é que durante a leitura parte de mim ficou renitente pelo desenvolvimento da amizade entre os dois. Na medida em que a correspondência se arrasta, Mário deixa de ser um mentor e passa a ser um amigo. Foi egoísmo de minha parte, eu sei, mas as lições se rareiam e são cada vez mais particulares. Parece menos que as cartas de Mário são endereçadas a mim... A única coisa que posso sentir é inveja de Drummond, agora não pela sua habilidade como poeta, mas pelo amigo que esteve ao seu lado em todos os momentos que Itabira, Belo Horizonte e o Rio ficaram pequenos demais.
As cartas de Mário abrem tantos campos para se pensar que torna-se tudo nebuloso, e a única certeza, a única clareza que não se esvai, é a da grandeza desde missivista profícuo.
As cartas do autor de Macunaíma continuam exercendo o mesmo papel que tiveram para Carlos Drummond nos anos em que foram originalmente escritas: guiar e orientar jovens escritores por um lado e criar um pensamento genuinamente brasileiro por outro.
Aqui não é espaço para me alongar sobre isso. As cartas falam por si só. E caso necessário, o brilhante posfácio de André Botelho põe tudo às claras.