Antes da minha humilde resenha vale a pena ler alguns exemplos da "fortuna crítica" em torno do livro "Cidades Mortas".
“A roça, as suas paisagens não são coisa de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela. Ele começa com o pincel, pensando em todas as regras do desenho e da pintura, mas bem depressa deixa uma e outra coisa, pega a espátula, os dados e tudo o que ele viu e sentiu sai de um só jato, repentinamente, rapidamente”.
Lima Barreto (1881/1922), escritor e jornalista em texto presente na quarta capa.
“Monteiro Lobato, crítico de arte, escritor, editor arrojado, intelectual envolvido com as questões fundamentais do país, nacionalista e admirador das doutrina fordista americana, defensor da nacionalização do petróleo, criador da literatura infantil entre nós, atravessa os tempos como expressão da situação dicotômica entre a inovação e o conservadorismo que continua constituindo o nosso país.
Indispensável ler seus contos pra compreender nosso país e conhecer a verdadeira história do modernismo no Brasil”.
Beatriz Resende, professora titular do departamento de letras da UFRJ, na apresentação.
“Requeremos leituras como a de “Cidades Mortas”. Livros que não peçam dicionários, nem uma paciência de Jó. Um livro leve, perfumado, airoso, de uma simplicidade perfeita, uma crítica irresistível aos costumes, uma ironia delicada, flexível, cortante, que sibila, que voa e que fere brilhando. [...] “Cidades Mortas” é um livro para ser lido nas horas calmas da sesta, amorável, humorístico, delicado. Quando terminei a leitura tive a impressão de ver um imenso lago tranquilo e sereno, todo azul, onde a malícia da Frase, de leve passa, e de leve esfrola”.
Luís da Câmara Cascudo (1898/1986), historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado e jornalista brasileiro, em sua crítica ao livro “Cidades Mortas”.
O paulista, natural da cidade de Taubaté, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882/1948) é uma das expressões máximas de nossa literatura. Escritor, crítico de arte e editor corajoso (foi o único no Brasil a publicar Lima Barreto quando quase ninguém nele acreditava), seu nome é quase que automaticamente ligado à literatura infantil, principalmente ao ciclo de histórias ligadas ao “Sítio do Pica-Pau Amarelo” já adaptado para várias mídias além dos livros e um grande sucesso. No entanto Monteiro Lobato, como é conhecido o escritor, tem uma produção que vai muito além de suas inegáveis contribuições à literatura infantil e vale muito a pena conferir o que existe “além do sítio”.
Desafortunadamente aquele que considero um dos grandes escritores da literatura nacional em todos os tempos, um esteta do nosso idioma, dono de um senso de humor mordaz, detentor de uma grande capacidade de observação da realidade em que ele então vivia e de um senso crítico que demolia sem dó nem piedade as instituições e tradições da época, encontra-se, hoje em dia, “cancelado” em função de um pretenso racismo que permearia as suas obras. É uma pena pois aqueles que preferem fingir que o grande escritor que Monteiro Lobato foi nunca existiu privam-se da experiência ímpar que é tomar contato com a grande literatura que ele produziu. E esse “cancelamento” torna-se mais nefasto ainda pois impossibilita até mesmo o debate, a discussão, a contextualização e a avaliação desse pretenso racismo que muitos insistem em identificar em sua obra. Creio piamente que essa “era do cancelamento” vai passar. Até lá paciência! Muita paciência!
Este livro – “Cidades Mortas” – faz parte, juntamente com “Urupês”, “Negrinha” e “O macaco que se fez homem”, de uma série de ótimos livros de contos lançados por Monteiro Lobato no período 1918/1923. Em todos eles o autor se propõe a esmiuçar a sociedade em que vivia e mostrar todas as suas mazelas com muita inteligência, muito bom humor, uma larga dose de mordacidade e largas quantidades de um arguto senso crítico que colocava em xeque as carcomidas tradições sociais, o atraso econômico e as carências educacionais e sanitárias que tristemente caracterizavam (e que ainda estão entre nós guardadas as devidas diferenças) o Brasil em que ele vivia.
Todas as narrativas são breves, dinâmicas, ótimas e de leitura obrigatória para todos aqueles que apreciam histórias bem contadas, mas destaco “Cidades Mortas” (história melancólica que descreve a morte de cidades que foram vítimas da marcha inconstante de nossos processos econômicos), “A vida em Oblivion” (conto mordaz que detalha o atraso educacional e a precária vida intelectual do interior brasileiro do início do século XX), “Cavalinhos” (cujo tema é a nostalgia da infância perdida), “O pito do reverendo” (simplesmente hilariante), “Pedro Pichorra” ( que mostra como a origem das lendas e superstições muitas vezes ocorre em função de acasos e coincidências), “Júri na Roça” (engraçadíssima história que mostra o “impacto” de um julgamento que mexe com a modorrenta rotina de uma pequena cidade), “O fígado indiscreto” (a mais engraçada das histórias que narra a desastrada “epopeia” de um tímido jovem que comparece a uma festa para fazer a corte à sua amada), “O espião alemão” (uma das mais engraçadas das histórias que mostra o impacto da eclosão da Primeira Guerra Mundial numa pequena cidade do Brasil) e “Café, café” (mordaz e melancólico conto que descreve o desastre provocado pela excessiva dependência de nossa economia em relação ao café no primeiro terço do século passado).
Apenas um senão. O grande Luís da Câmara Cascudo, numa crítica elogiosa que fez a “Cidades Mortas” afirmou que: ““Requeremos leituras como a de “Cidades Mortas”. Livros que não peçam dicionários, nem uma paciência de Jó”.
Concordo com o mestre na valorização da obra de Monteiro Lobato mas, muito provavelmente, o leitor atento de “Cidades Mortas”, nos dias atuais precisará (como eu precisei) de consultar amiúde um bom dicionário para acompanhar a contento as digressões e elucubrações do autor escritas num português impecável de mais de 100 anos atrás.
Excelente!