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124 pages, Paperback
First published July 1, 2015
O que teriam sentido os que viveram nos bairros de lata e depois nos megacomplexos de habitação social, nos subúrbios? E os que foram a salto e não puderam regressar para ver os pais? Como namoraram à distáncia os que só escreviam cartas porque era caro telefonar? O que é viver num país sem compreender uma palavra do que é dito?
Sobreviviam com dificuldade, nunca conseguiram ter dinheiro para visitar Portugal. A ligação ao país de origem perdeu-se. Ficou apenas apelido, que Erick, neto do 2.º sargento saxofonista, e os seus filhos, bisnetos do português, pronunciam com sotaque francês: "De-Su-za".
Continuam a gostar muito de Portugal - sentem-se portugueses, falam português um com o outro, com os filhos e os netos. Vivem numa casa portuguesa desde o vinho que enche os copos à mesa, até às loiças que decoram a cozinha. Mas não planeiam regressar. "Eu ainda não gosto da França, mas se os filhos e os netos estão aqui, para onde é que a gente vai?", pergunta Irene. Já que a gente não tem dinheiro para dar aos filhos, apoia a tomar conta dos netos, o Gabriel, Hugo, o Thomas e a Sarah".
"Somos porteiras assistentes sociais, psicólogas, amas, seguranças, tudo - temos o único emprego em França que faz cinco ou dez coisas ao mesmo tempo". Não é a lei que as obriga, é a consciência que não as deixa dizer que não.
Ter a mulher e mãe de família a trabalhar como porteira em Paris foi crucial para a integração dos que emigraram entre os anos 50 e 70: enquanto outros ficaram isolados nos arredores em bairros sociais, eles puderam habitar na cidade, alguns nos bairros mais exclusivos, onde ficam as melhores escolas. sem pagar aluguer do apartamento nem precisar de ama para as crianças. As mães acompanharam a educação dos filhos sem que isso as impedisse de complementarem o seu salário: tomavam conta de outras crianças, faziam limpezas e arranjos de costura, passavam a ferro.
Quando se mudou para o prédio no 8.° Bairro, muito perto dos Campos Elísios, onde ainda hoje é porteira, o filho mais novo, Ruben, tinha começado a gatinhar, Trinta anos depois, ele realizou uma comédia de homenagem aos pais e à comunidade portuguesa em França: A Gaiola Dourada foi um enorme sucesso de bilheteira nos dois países.
Em outubro de 2013, criaram no Facebook a página Gardiennes Dorées, gerida pelas duas e dedicada à comunidade das porteiras, onde todas podem falar das suas experiências e dos seus problemas.
"Estão à escuta da Rádio Alfa, a rádio para todos os portugueses da região parisiense. Se calhar estou aqui a falar para o boneco, de maneiras que se alguém estiver à escuta por favor telefone". Revelou o número e o telefone tocou. A pequena equipa rejubilou. "Eu estava convencido de que não estava ninguém a ouvir. Não queríamos replicar o que se fazia nas outras rádios da comunidade portuguesa, o que existia era um cantinho da saudade, não se tinha em conta a evolução da comunidade nem os jovens de origem portuguesa.
Os apoios institucionais não eram suficientes para manter a rádio a funcionar, explica Victor Esteves, presidente no início dos anos de 1990. Isso obrigou a estrutura a crescer. "A Alfa transformou-se numa marca identitária". Criou-se o Clube Alfa, que organizava viagens a Portugal - chegou a fretar aviões pela altura das férias ou para os ouvintes interessados em assistir a jogos de futebol -, e a Alfa Promoção, que geria a publicidade. "Depois foi preciso montar uma estrutura mais sólida, uma empresa - nasceu a Alfa Difusão".
O clube nasceu num fim de semana de 1982, quando José foi assistir a um torneio de futebol para crianças no 13.º Bairro. "Havia uns miúdos a jogar na rua, com muita agilidade e faltava uma equipa na competição". Perguntou à organização se ainda ia a tempo de inscrever um grupo. Fizeram-lhe apenas uma exigência: os jogadores tinham de ter camisolas iguais. José resolveu o problema com 70 francos (23 euros). Comprou 15 t-shirts no supermercado e colou-lhes números nas costas com um ferro de engomar. A equipa foi imparável - venceu o torneio e transformou-se no Sporting Club de Paris.
Nunca visitaram Paris. A capital fica a uma hora de comboio do sítio onde vivem. "Só em bilhetes é um dinheirão, para começar", justifica Fátima. A minha ex-patroa espantava-se por eu estar aqui há três anos e não ter visto a Torre Eiffel. Acho que é só um monte de ferro. "Já vi na televisão, chega-me". Tânia só conhece o monumento porque fez limpezas num espaço de escritórios num 4.º andar que tinha vista para a torre. "A primeira vez que a vi tirei-lhe uma fotografia. Depois nunca mais lhe liguei".