Lourenço Mutarelli, vindo de seus premiados nove livros de histórias em quadrinhos, faz sua estréia no romance. Com uma simplicidade narrativa de agradável leitura, com frases curtas e boas, aliado a uma forte descrição visual com uma prosa urbana moderníssima, O CHEIRO DO RALO, mostra com carinho a complexidade da vida do “povão” da cidade de São Paulo. Isso com uma beleza e humor que não se via na literatura brasileira desde Antônio de Alcântara Machado.
Eu tinha 16 anos quando pedi que meu pai comprasse esse livro em uma viagem que ele fez até Curitiba. Pedi pelo telefone e esperei ansioso que ele chegasse com o exemplar de capa verde. Eu não sabia nada sobre o Mutarelli, só tinha ouvido o nome do livro alguns anos antes, quando eu andava pelo finado Sebo Catatau e ouvia o dono do lugar, um misantropo rabugento que me servia de "mentor literário", me falando do texto por alto. Desde ali, o livro me trazia um certo misticismo, como toda boa literatura traz, me parecendo ser uma porta ainda não aberta que eu ansiava por destrancar e consumir tudo que ali dentro havia.
O livro chegou e eu li, não como quem o devorasse, mas com a parcimônia de apreciar cada frase repetida e cada pequeno bloco de texto curto. Aquilo parecia me afetar, as frases impactantes e a pura repetição da obra entravam na minha cabeça como um vírus. A forma de tudo ali me hipnotizava e o conteúdo me consumia.
Terminei abismado. Havia tanta coisa ali, mesmo com todos os cortes e com o minimalismo característico do Mutarelli. Tanta coisa dita em tão pouco. Ainda ressoa, ainda sou incapaz de me distanciar do cheiro do ralo, que no final é o meu cheiro. É o nosso cheiro. Cheiro das ruas das grandes cidades, cheiro dos homens escravizados pelos próprios egos, cheiro das pinturas prometidas, cheiro da história que têm todas as coisas e o cheiro de nós que não damos a mínima pra tudo isso. Cheiro meu, cheiro de enxofre, cheiro do inferno que me lembra você, cheiro de quem nunca gostou de você, de quem nunca gostou de ninguém . Cheiro das bundas, de todas as bundas platônicas que se concretizam, cheiro dos sonhos que morrem todo dia pelos buracos e pelos toques nada suaves da realidade.
isto não é um livro, é um organismo. aprecio como quem observa uma criatura alienígena. um ser vivo e sua respiração, o bater do coração, seus movimentos.
Quem diria que esse livro sobre um vendedor de loja que deixa o ralo entupir teria tantas reviravoltas emocionais que manipulariam as minhas expectativas até me drenar. Toda reverência ao Lourenço Mutarelli.
Diálogos muito rápidos em capítulos curtos, humor ácido e situações pra lá de politicamente incorretas. O livro narra o dia a dia de um avaliador de bugigangas que passa o tempo entre satisfazer seus desejos e se divertir às custas dos seus clientes. O livro não enrola, não faz análises detalhadas dos personagens e não busca dar uma lição de moral no final. Talvez esse seja o grande mérito. Leitura rápida e original.
Mutarelli escreveu esta obra com o intuito de maltratar o leitor.
O protagonista de "O Cheiro do Ralo" é uma espécie de homem do subsolo dostoievskiano que odeia tudo e todos, subjuga e objetifica os outros por prazer e, apesar de ser o maior responsável pelo futum moral, culpa e condena o mundo como algo vil e sem valor. O livro tem aroma de fritura e banheiro químico, pois o personagem principal ingere e regurgita uma série de x-tudos com refrigerante em um ciclo sem fim e, o que aumenta o desconforto da leitura, tenta tampar um vazio existencial (causado pela ausência paterna ou essa seria só uma desculpa?) que jamais será sedimentado com dinheiro, televisão ou fetiches.
A escrita é rápida e banhada por repetições que parecem manias, o que lembra até certo ponto o estilo frenético de Thomas Bernhard em "Extinção" e o tom persecutório de Chuck Palahniuk em "Clube da Luta". Confesso que quase suspendi a leitura do livro já nas primeiras páginas, pois a escatologia (antecipada pelo título da obra) e o posicionamento do leitor na cabeça de um personagem tão asqueroso (pois a obra é narrada em primeira pessoa) reviram o estômago e são convites para que leiamos algo mais fragrante. No entanto, a literatura não precisa ser bela para ser valiosa e reconheço que Mutarelli fez uma reconstrução interessante da perversão moderna.
Este livro tem dois personagens principais: o ralo e a bunda. O ralo, de onde vem toda a podridão humana, o fedor, o apodrecimento, o horror; a bunda, a tábua de salvação, redentora, perfeita. Entretanto, o fedor do ralo vem, né? Da bunda. A partir dessa dicotomia literariamente improvável, Mutarelli constrói um impressionante romance de estreia.
Eu já havia visto a adaptação cinematográfica deste livro há alguns anos, adoro o filme. Um dia, na livraria, resolvi folheá-lo e aí tive que sair de lá com o livro na mão e só sosseguei quanto terminei de ler. É muito interessante como Mutarelli representa o transtorno mental do personagens através da narrativa recortada e delirante associada a representações dicotômicas de bem/mal ligadas à escatologia e à vida urbana. A fragmentação também está presente na profissão do personagem principal, dono de uma loja de penhores que vai colecionando partes, fragmentos das vidas dos clientes. A partir desses fragmentos, ele vai, também, construindo o pai que nunca conheceu (o trecho onde ele fala sobre isso é meu preferido do livro).
Fui introduzido ao universo do Lourenço através da adaptação que o Heitor Dhalia fez deste Cheiro do Ralo. Ainda não tive oportunidade de ler nenhuma de suas hq's mas o estilo algo prolixo, marginal, sujo, confuso de sua literatura sempre me interessou bastante, ainda que não seja algo que eu procure frequentemente. 'Cheiro' é provavelmente a melhor porta de entrada para quem quer experimentar um pouc ode Mutarelli, estão lá todos os seus temas, mas talvez com uma violência estética e estilística um pouco atenuadas. A história do misantropo, racista, misógino, escroto, louco, dono de antiquário que não consegue sentir mais nada de verdadeiro e se diverte torturando os clientes necessitados até se perceber, ele mesmo, torturado pela necessidade/busca de uma imagem, de um conforto que nem o próprio consegue precisar, foi escrita há uns bons anos mas este protagonista é a cara de certo Brasil atual.
Esse livro chegou até mim de maneira muito especial. Não estava na minha curta lista. Eu costumo ler sem saber nada a respeito, ou quase nada. O autor. Que existia um filme. Mais nada. E quando comecei a leitura me incomodei. Me incomodou e ainda incomoda esse jeito de escrever falando de coisas óbvias do dia-a-dia. E ainda acho que isso podia ser amenizado. Por outro lado a construção que vai sendo feita do personagem principal é muito curiosa e como o ralo transborda do livro. Não é um livro pra qualquer um, mas quem é que gosta destes?
“O Cheiro do Ralo” é o romance de estreia de Lourenço Mutarelli, publicado em 2002. Quatro anos após o seu lançamento, foi adaptado para o cinema com Selton Mello no papel principal. Com uma prosa ágil, enxuta e dinâmica, a obra se tornou um dos meus livros favoritos da literatura brasileira contemporânea.
A estória do protagonista, cujo nome não é revelado, é relativamente simples: ele possui uma espécie de loja de penhores na capital paulista e vive sua vida medíocre negociando objetos usados com pessoas que precisam desesperadamente de dinheiro. Poder e dinheiro são, aliás, indissociáveis neste contexto.
Lourenço Mutarelli criou um personagem principal mais próximo de um anti-herói cujas características principais são o egoísmo e o sadismo intelectual. O ponto de partida do conflito é a estranha relação que ele tem com o cheiro proveniente de um ralo de banheiro. Com o decorrer da trama, ele vai se desumanizando vertiginosamente ao ponto de o leitor ficar confuso a respeito da real essência do protagonista e se questionar a respeito dos caminhos que a trama irá percorrer.
“Cheiro do Ralo” é uma obra que pode ser lida até mesmo em um dia somente e que, apesar do pequeno tamanho, nos faz refletir com profundidade sobre a miséria da condição humana. O final é catártico e poético. Já li o livro duas vezes e lerei novamente em outras oportunidades. Vale conhecer!
Estilo ágil e rápido, personagem detestável e em alguns pontos identificável. Humor bem ácido em um contexto extremamente paranoico e perturbado. Li em um dia, pois cada parte da história me intrigava para o próxima.
O livro foi escrito em 4 dias e dá pra perceber. Não diria que é muito bem escrito e tem momentos que a separação entre o que é a confusão mental do personagem (um sociopata) e a "realidade" não ficam bem amarradas, mas é um livro que não te deixa indiferente. O autor consegue te colocar dentro da obra e fazer sentir emoções (geralmente de raiva ou nojo pelo personagem principal, mas não limitado a isso). E por conta disso é preciso admirar o trabalho do autor.
Leitura rápida e uma grata surpresa. Cheiro do ralo tem um estilo próprio, um pouco diferente do habitual. Frases curtas, subcapítulos bem segmentados, humor ácido...e de certa forma lembra um pouco o House of Cards, com um protagonista cheio de defeitos para quem passamos a torcer com o decorrer da leitura. A mim, agradou em cheio
Em resumo, o livro é sobre a masculinidade frágil e tóxica de um homem hetero ilustrando a cultura do estupro e a cultura pornográfica de uma vez só. Fica difícil saber se as cenas explícitas cumprem apenas o papel de retratar o personagem como macho escroto ou se, ao contrário, foi o autor que quis agradar um público específico.
*vou compartilhar aqui parte de um trabalho sobre a obra :)
O Cheiro do Ralo (2002) é a estreia literária de Lourenço Mutarelli, quadrinista de grande relevância por cerca de duas décadas. Seguindo a sua já consolidada estética temática, a obra literária de Mutarelli é um verdadeiro desbunde - uma vez que, com a possibilidade insurgente de se fazer entender apenas a partir das palavras, o autor faz efervescer o poder literário da criação de imagens junto da flexibilidade das estruturas textuais.
A poética do distúrbio psicológico estabelecida na obra de Mutarelli é antes inferida em seus quadrinhos, cuja composição artística se dá com a utilização de traços exageradamente marcados e do acentuado uso do pigmento preto, o que faz as ilustrações serem de contrastes inerentemente barrocos. Esta estética é transferida para sua obra literária, na qual o autor descobre como transbordar o pigmento, ocupando todos os espaços das páginas, agora mentais de seus leitores. Inclusive, é possível inferir sobre a semelhança da estrutura textual de obras como O Cheiro do Ralo e seus quadrinhos - assim como nos quadrinhos, as falas e narrações se dão em blocos, sendo o único material textual a que temos acesso.
Nos quadrinhos, os cenários e composições simbológicas dadas; nas narrativas literárias, a efervescência imagética singular que, de acordo com a rápida adaptação de O Cheiro do Ralo para os cinemas, urge ser arranjada no real.
Esta prática de desnudamento do valor sentimental das coisas para que se tornem objetos e mercadorias se torna tão cotidiana para o narrador-personagem, que ele a realiza não somente com estes objetos que chegam até a loja de penhores, mas também com frases e pessoas. Nesta rede de cinismo, ao retirar o valor inicial ou próprio de cada símbolo, ele acaba por também lhes incutir novos significados para o seu bem prazer. Tornar meu o que não era meu. Tornar meu o que adquiri. (MUTARELLI, 2002). O olho, que viera até ele por outra pessoa, passa a ser o olho de seu pai; a bunda da garçonete, o seu Rosebud - com referência ao brinquedo de infância e elemento prop da narrativa de O Cidadão Kane (Orson Welles, 1941); e por fim, o ralo, espelho da sua alma.
Algumas congruências podem ser inferidas entre a obra de Lourenço Mutarelli e Arthur Schnitzler. O narrador-personagem de O Cheiro do Ralo e o senhor von Dorsday de Senhorita Else (1924) têm em determinado momento de suas narrativas o poder do veredito sobre o valor da objetificação do corpo - da garçonete e Else, respectivamente - em dois momentos similares de vulnerabilidade material.
Ao tratarem sobre temáticas congruentes em suas obras literárias, assim como, utilizarem-se de estrutura similar - o fluxo de consciência, Mutarelli e Schnitzler se aproximam. Mutarelli, assim como Schnitzler causa o despertar da vulnerabilidade no leitor, que, segundo Cerqueira Filho (2007), significa colocar o absolutismo do mesmo em crise, é a potência de fazer sofrer, como um suspiro de morte, um grito de humanidade. Ainda, Cerqueira Filho (2007) discorre: o “fazer sofrer” surge, como Schnitzler sugere, como um movimento humano por excelência, como crítica do veredicto determinista dos seres e das coisas. Em conclusão, é especialmente na crítica a este determinismo material e ao absolutismo do ego que O Cheiro do Ralo se constrói.
Neste livro, o protagonista é dono de uma loja de quinquilharias que é obcecado por um cheiro que sai do ralo do banheiro do escritório de sua loja. Eu diria também que ele é obcecado por diminuir e extorquir as pessoas que vão até sua loja na tentativa de vender itens para ele. A certa altura ele fica obcecado pelo bumbum de uma garçonete da lanchonete onde ele se obriga a comer um lanche que lhe faz mal, só para poder observar a bendita da bunda.
O personagem é bastante cruel e deve ter algum transtorno mental, visto que a certa altura ele vai ao médico e começa a tomar um novo remédio e também devido aos devaneios e piadinhas de quinta série. Esse livro tem cenas bem revoltantes, nas quais senti vontade de bater no personagem.
Dei várias risadas durante a leitura, apesar de toda a crueldade do protagonista. O autor escreve algumas reflexões do personagem de forma bem irreverente. O livro é fácil e rápido de ler, tem uma linguagem super acessível. Não acontece nenhuma grande reviravolta no final, mas achei o desfecho coerente.
Não foi um cinco estrelas, porque eu queria saber mais da sombra e dos cabelos amarelos que apareciam na casa do protagonista. Achei que poderia ser coisa da cabeça dele, mas a empregada também via.
Sobre o ralo, acho que o cheiro era da própria podridão na qual o personagem se encontrava. Ele tinha tudo, mas estava sempre infeliz, buscando algo e quando conseguia, ele voltava ao estado apático.
Esse livro é bem gostoso de ler. Indico para quem procura leituras rápidas, com pitadas de drama e humor e também para aqueles que estão tentando sair da ressaca literária.
Acredito que ando meio amargurada, e isso certamente influenciou minha leitura deste livro. Ainda assim, há incômodos que parecem intrínsecos à obra.
O Cheiro do Ralo é sobre um sujeito que compra objetos usados, muitas vezes de pessoas em situação de vulnerabilidade. É alguém que exerce poder, especialmente econômico, sobre os outros, e demonstra prazer em manter esse controle. A narrativa expõe seu olhar obsessivo por partes do corpo, sobretudo nádegas femininas, de forma repetitiva e perturbadora.
A escrita de Mutarelli é propositalmente seca, com frases curtas que às vezes beiram a aleatoriedade. Isso, no entanto, me incomodou. Muitos trechos parecem pensamentos soltos, sem nexo ou propósito claro, como se estivéssemos presos na mente confusa de alguém à beira do delírio. Não encontrei profundidade nos diálogos, nem qualquer reflexão que justificasse o mal-estar constante que a leitura provoca.
Há, sim, uma estética grotesca, que parece intencional. Mas para mim, faltou alguma camada de complexidade que desse sentido a esse desconforto. A exploração do feminino também me pareceu gratuita, mais fetichizada do que crítica.
Li até o fim movida pela curiosidade de encontrar algum ponto de virada, uma revelação, um insight, algo. Mas esse momento nunca chegou. Terminei com a sensação de que o livro provocou, mas não comunicou.