Tendo encerrado a história principal no volume anterior, Hickman e Pitarra retornam em duas edições finais para encerrar a história deste grupo insano de cientistas. A Guerra Fria se aprofunda e as alianças agora são mais maleáveis do que eram antes. O mundo está se transformando e os cientistas precisam se adaptar aos novos tempos. Mas, é claro que isso não virá sem uma boa dose de ciência insana, tripas e violência. Em histórias curtas que se conectam, vemos aonde Laika foi parar depois de ter sido enviada ao espaço. Star City é tomada pelos russos que, depois da deposição de Brezhnev, decidem tomar ações contundentes contra uma cidade inteira que pode ser usada como arma. Do lado americano, a ascensão de Kennedy pode representar um perigo aos interesses escusos de um governo que se coloca nas sombras de Washington. Hora de alguém lidar com ele: entra o agente duplo Oswald. Mentiras, segredos e conspirações continuam em mais uma edição repleta de ciência maligna.
Os volumes 5 e 6 desta série possuem histórias fix-up, ou seja, histórias curtas e rápidas com todos os personagens da série para que saibamos o que aconteceu com eles depois da última edição e o que eles estão fazendo nas próximas décadas. O roteiro é totalmente over-the-top, como a série inteira foi, e Hickman continua apresentando ideias cada vez mais bizarras para os fatos históricos. É curioso que em nenhum momento ele cria alguma inconsistência histórica ou altera algo que realmente aconteceu. A ideia é só construir algo fictício em situações reais. Nesse ponto ele consegue realizar isso com sucesso. Contudo, esse quinto volume não tem o mesmo charme de algumas das melhores histórias da série. As situações parecem forçadas e até um pouco arrastadas e falta um senso de urgência na narrativa. Para quem está acostumado com o trabalho do Hickman, Projeto Manhattan é bem diferente daquela escrita sóbria e repleta de informações que estamos acostumados em obras como Nightly News, X-men ou Vingadores Secretos. Este quadrinho nunca foi pensado para ser exatamente levado a sério, e parece mais uma caixa de areia onde o autor pode testar algumas sandices. Admito estar mais chato em relação a essa edição porque algumas das ideias que ele apresenta são meio bobas até.
Não sei se é impressão minha ou o Pitarra está ainda mais insano nessa edição. Parece até ter sido uma aposta que ele fez com alguém o quanto de bizarrice ele conseguiria colocar em cada página. Tem alienígena incorpóreo, presidente cheirando uma branquinha, prostitutas e radiação de urânio e cientistas malucos cavalgando seres esféricos. Tem de tudo um pouco. Talvez Hickman tenha ficado cada vez mais inventivo e Pitarra querendo entregar os quadros mais criativos para ver quem vencia nesse quesito. A arte não me agradou tanto assim em relação ao segundo ou ao terceiro volume, mas está ali e complementa aquilo que o roteirista desejou para a sua HQ. Se a ideia era produzir páginas insanas, está aí o resultado e com sucesso. O ponto alto da arte de Pitarra fica mesmo nos designs de personagens que são bem diferentes do que se espera. Definitivamente o artista não foi por uma abordagem convencional, preferindo formas mais curvas e imprecisas para dar um ar de caos e desordem a cada página. Nesse mundo de cientistas malucos, é óbvio que a realidade não é precisa e reta. Faltou algo na escolha de cores para essa edição. Fico tentando procurar exatamente o que é, mas a única forma que vou saber explicar é que em edições passadas o leitor parecia saber aonde o artista queria chegar com o uso do azul ou do vermelho ou de qualquer outra cor. Aqui não sabemos exatamente. Jordie Belaire não foi muito feliz nas escolhas para esta edição. As melhores partes são as que acontecem em uma Terra paralela com Einstein e Feynman. As cores são berrantes o suficiente para nos passar a ideia de uma Terra bizarra e que não se encaixa em nosso padrão de concretude.
O roteiro de Hickman é bem solto e ele parece abordar as situações de uma forma progressiva. Tanto que começamos o volume com o paradeiro de Laika e o sumiço dela está presente em todas as edições servindo como uma ligação sutil a todos os acontecimentos. Porém, achei os capítulos soltos até demais. Não parece haver uma grande trama no fundo e as coisas acontecem porque sim. Existe uma passagem de tempo longa entre os capítulos, mas a gente não sente, na história, isto se sucedendo. Para quem entende de história geral, dá para entender a ascensão de Fidel Castro e Che Guevara, a ascensão de uma nova URSS, a corrida espacial e o desastre na Baía dos Porcos. Terminamos a edição com o assassinato do Kennedy, um fato real que Hickman dá sua própria versão. Mas, temos um volume que se passa em aproximadamente quinze anos e isso não fica claro para o leitor. O roteiro também versa sobre perigos reais que estariam servindo para aniquilar com o projeto, mas em nenhum momento sentimos uma ameaça real aos personagens. Não dá para sair sempre com "eles são espertos demais para o resto do mundo". É preciso algo mais.
Um dos personagens mais interessantes neste volume é Lyndon Johnson. Hickman o introduz como um estereótipo bizarro de sulista com traços de Clint Eastwood. Está lá o vice-presidente com uma 38. , uma camisa xadrez e um chapéu de vaqueiro. Sem falar que ele não acredita em nada dessas coisas de alienígena e tecnologias estranhas. Sua fé está em um tiro bem dado no meio dos olhos. Pouco a pouco ele é integrado a esse mundo estranho e passa a atuar em conjunto com Groves e Westmoreland. Johnson é o veículo pelo qual Hickman usa para tocar suas teorias conspiratórias ao último grau. A propósito, Hickman usou e abusou da caricatura para representar sua visão dos presidentes desse período, sejam os americanos ou os soviéticos. Cada um mais absurdo do que o outro. Com direito a um Brezhnev banhado em radiação de Tunguska. As fantasias insanas de Hickman se mesclam com a realidade da segunda etapa da Guerra Fria em que o conflito entre as duas superpotências se aquece e cada decisão tomada representa um perigo real para a humanidade. Por isso, ver um Kennedy ladeado por vadias e cheirando uma branquinha coloca os nervos à flor da pele. Talvez esse seja o senso de perigo real.
É claro que existe uma crítica real do Hickman a este momento da história. No meio das estranhezas, vemos o quanto os personagens que deveriam ser os dirigentes de um mundo bipolarizado são crianças de quatro anos brincando de trenzinho. Tratou-se de um conflito tenso sem sentido e que apenas usou outras partes do mundo como joguetes para demonstrar quem tem mais ou menos poder. A disputa entre Lyndon Johnson e Brezhnev pelos dois lados do projeto é uma exemplificação clara do que foi tudo isso. Talvez o melhor momento e o mais ilustrativo deste quinto volume é quando Brezhnev pede que sua equipe de cientistas disseque o corpo do general Ustinov, um dos maiores aliados dos soviéticos em toda a série. A ideia era entender como esse cérebro flutuante funcionava. Mas, em menos de dez minutos, o presidente soviético perde o interesse e vai atrás dos outros membros do lado americano do projeto. Essa cena, representada na figura acima, mostra até onde eles iam e qual era a importância dada a essas coisas.
O outro ponto divertido deste volume é a busca de Gagarin por sua cadelinha Laika. Ele passa duas edições apenas suspirando para o ar e a gente acompanha as aventuras dela no espaço. É aqui que a narrativa toma aquele viés mais espacial da coisa com raças alienígenas estranhas, transformações e Gagarin movendo seus pauzinhos para conseguir ir atrás dela. Não há uma grande mensagem aqui, além de curtir as situações. Bom para não pensar tanto assim. Este talvez seja o ponto mais despretensioso e menos conectado à narrativa principal, mas foi a que eu mais achei divertida. Poderia ter havido mais tempo de páginas a essas histórias porque salvo o primeiro capítulo desta edição que é inteiramente voltado para as aventuras de Laika, depois temos apenas pequenas pílulas de acontecimentos com uma grande virada mais para a segunda metade deste volume. Não sei aonde isso vai dar ou como Hickman vai conectar isso à história principal.
Mesmo sem o brilho de edições anteriores, o volume 5 de Projeto Manhattan ainda nos mostra o que a mente insana de Jonathan Hickman consegue fazer com esses cientistas loucos. A arte de Pitarra busca alcançar o mesmo grau de maluquice do roteirista e consegue entregar algumas cenas criativas. Faltou um pouco mais de coesão entre as páginas, mas talvez por ser um romance fix-up, Belaire teve dificuldades em dar um ar específico aos personagens e as situações vividas por eles. Hickman foi muito feliz ao ser sutil em apresentar uma história alternativa, repleta de ciência maluca e teorias conspiratórias. No fundo, é um volume que vai oferecer aos leitores boas horas de leitura.