Após a leitura de “As Afinidades Eletivas”, escrita em 1809, ocorreu-me debruçar sobre a análise deste extraordinário romance de uma forma diferente, respondendo apenas a uma pergunta: porque Johann Wolfgang Goethe é tão atual conseguindo, no século 21, reunir tantos admiradores à volta da sua obra? E reside na pena desse notável escritor alemão a resposta:
1. “Com uma tal atitude, vós mulheres, sereis realmente invencíveis. Primeiro, razoáveis, de modo que não é possível contradizer-vos, graciosas de uma forma que nos entregamos a vós sem reservas, sensíveis, e não queremos de modo algum magoar-vos, cheias de pressentimentos e eis que nos assustamos” (pág.35). Que conhecimento da alma feminina!
2. Sobre a relação com os outros: “E essas relações serão diferentes, como diferente é a natureza dos seres. Nuns casos, encontrar-se-ão como amigos e antigos conhecidos que se juntam, se unem, sem modificarem o que quer que seja um no outro, tal como o vinho se mistura com a água. Outros, pelo contrário, persistem em manter-se estranhos lado a lado, e não se unirão, nem por mistura ou fricção mecânicas; tal como o óleo e a água que, agitados e misturados, um instante depois voltam a separar-se” (pág. 63). Quantos exemplos de (podres) uniões nossos conhecidos, não caberiam nesta última oração? Não seria melhor para o bem do casal, afastarem-se? Óleo e água nunca poderão obter a menor afinidade.
3. “Pressupõe-se a existência de capacidades que se devem transformar em competências” (pág. 69). Este aforismo, no nosso mundo laboral, consiste numa das realidades mais indesmentíveis!
4. “Não estamos nós também casados com a nossa consciência, de que muitas vezes, gostaríamos de nos livrar, porque ela para nós é mais incómoda do que um marido ou uma mulher poderiam ser?” (pág. 100). Brutal!
5. E o que dizer sobre o facto de, muitas vezes, “compensarmo-nos, em certa medida, com o nossos sucessos exteriores, aquilo que nos falta interiormente”? (pág. 109).
6. “A presença de Ottilie absorve tudo o resto; é nessa presença que ele está completamente mergulhado. Já nenhuma outra observação se lhe apresenta, a sua consciência já nada tem a dizer-lhe; tudo o que, na sua natureza, se encontrava reprimido, irrompe, todo o seu ser flui ao encontro de Ottilie” (pág. 125). Ah, o amor!!! Haverá outro sentimento tão ancestral?
7. “Ottilie, pelo contrário, perdia tudo, pode-se dizer, tudo; pois fora em Eduard que ela encontrara, pela primeira vez, vida e alegria e, na situação presente, ela sentia um vazio infinito, do qual outrora mal suspeitara, pois um coração que procura, sente bem que lhe falta alguma coisa; mas um coração que perdeu, sente que ficou vazio. A nostalgia transforma-se em descontentamento e em impaciência, e uma alma feminina, acostumada a esperar e ter paciência, gostaria agora de sair para fora da sua esfera (… ) e também fazer alguma coisa pela sua felicidade” (pág. 151). Vá, confessem, já alguma vez se sentiram assim, com o coração perdido? Aposto que sim …
8. “Para longe de mim, aqueles que têm o coração seco, os olhos secos” (pág. 156) … Vade retro!!!
9. Mais um aforismo: “Todos os laços que o destino uniu, são indestrutíveis” (pág. 157) … Creio que sim …
10. “Mas, no meio desta incerteza de vida – exclamou Eduard – entre a esperança e o temor, deixai ao pobre coração uma espécie de estrela polar, para a qual ele possa olhar, mesmo quando para ela, não se possa dirigir” (pág. 157). A poesia da esperança …
11. “No que me diz respeito, esta aproximação, esta mistura do sagrado com o que tem a ver com os sentidos, não me agrada absolutamente nada; como também não me agrada, ver que alguém se vote, se consagre a certos lugares e os enfeite, como se só assim se pudesse alimentar e manter um sentimento religioso. Nenhum ambiente, nem o mais comum, deve perturbar em nós o sentimento do divino que nos pode acompanhar por todo o lado transformar qualquer lugar num templo. O que há de mais elevado, de mais excelente, no homem, não tem forma e não nos devemos atrever a dar-lhe forma a não ser através das nobres ações” (pág. 216). A nossa relação com a divindade, íntima e subjetiva, seja ela qual for, não necessita de um lugar ou de tempo específico. Não precisamos da forma, apenas do conteúdo que ela nos poderá proporcionar.
12. “Há poucos homens que saibam ocupar-se do passado mais recente. Ou é o presente que nos retém com força, ou somos nós que nos perdemos no passado e tentamos evocar e restabelecer, conforme for possível, o que está inteiramente perdido” (pág. 227). Que extraordinário motivo de reflexão!
13. “Sob aquele céu claro , à luz daquele sol brilhante, tornou-se-lhe [a Ottilie] de súbito, evidente, que o seu amor, para atingir a perfeição, tinha de se tornar inteiramente desinteressado (…). Não desejava senão o bem do seu amigo, julgava-se capaz de renunciar a ele, de até mesmo nunca mais voltar a vê-lo, desde que soubesse que ele era feliz�� (pág. 236). Não será o cúmulo da maturidade espiritual, sabendo que, ao não poder permanecer com a pessoa amada, desejar-lhe uma enorme e intensa felicidade?
14. “Quem, com uma certa idade, quer realizar antigos desejos e antigas esperanças da sua juventude, engana-se sempre, pois cada decénio da vida do homem tem a sua felicidade, as suas próprias esperanças e as suas perspetivas. Infeliz daquele que as circunstâncias ou as ilusões obrigam a antecipar-se ou a retroceder!” (pág. 262)- Há algo mais atual do que a compreensão e mais, a interiorização, de que há um momento para tudo na vida? Que todos os nossos momentos nos trazem espécies diferentes de sabedoria?
15. “Só no sofrimento sentimos perfeitamente todas as grandes qualidades que são necessárias para o suportar” (pág. 288) …………………
Essas quinze alíneas, representam o que de mais significativo a leitura de “As Afinidades Eletivas” me trouxe. Mas também, é uma história de amor extremamente bonita, de abnegação, compreensão, sofrimento, dor e morte … exatamente, como é a vida! Hoje e sempre!