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Diário de um Fescenino
“Me llevaron al registro civil como debe ser; en mi acta de nacimiento aparecen el nombre de mi padre y de mi madre, la que me dio a luz. Mi vecina tenía tres hermanas y todas, además de viejas, estaban muy enfermas, creo que tenían una forma grave de diabetes. Me cuidaban con desvelo. Era como si tuviera cuatro madres. Dos eran muy sordas, tenían que hablar en voz alta entre sí. Las que no eran sordas también platicaban a gritos. Yo también hablaba gritando e incluso ahora lo hago, cuando estoy muy a gusto o feliz. Cuando pienso en ellas, las confundo a unas con otras, debían tener la misma edad, usaban anteojos para leer, les gustaba ver telenovelas, vivían atiborrándome de comida. Periódicamente (¿de cuatro en cuatro años?) moría una de ellas; sin embargo, quien tiene cuatro madres sufre menos cuando una de ellas muere que quien sólo tiene una. La última murió cuando yo tenía unos dieciséis años. Fue a partir de esa edad que me volví tenía cuatro madres, unas santas, y Dios las mató a todas cuando yo todavía era un niño”.
256 pages, Hardcover
First published January 1, 2003
About the author
Rubem Fonseca
102 books430 followersHe is an important brazilian writer (novelist, short story writer and screenwriter), born in Juiz de Fora, state of Minas Gerais, but he lived for most of his life in Rio de Janeiro. In 1952, he started his career in the police and became a policy commissioner. Even though, he refuses to do interviews and is a very reclusive person, much like Thomas Pynchon, who is a personal friend of Fonseca.
His writing is pretty dark and gritty, filled with violence and sexual content, and it usually happens in a very urban setting. He says that a writer should have the courage to show what most people are afraid to say. His work is considered groundbreaking in Brazilian literature, up until then mostly focused on rural settings and usually treating cities with a very biased point-of-view. Almost all Brazilian contemporary writers acknowledge Fonseca's importance, and quite a few authors from the newer generation, such as Patrícia Melo or Luis Ruffato, say that he's a huge influence.
He started his career with short stories, and they are usually considered to be the best part of his work. His first popular novel was "A Grande Arte" (High Art), but "Agosto" is usually considered to be his best work.
In 2003, he won the Camões Prize - considered to be the most important award in the Portuguese language - and the Juan Rulfo Prize - award for Latin American and the Caribbean literature.
His writing is pretty dark and gritty, filled with violence and sexual content, and it usually happens in a very urban setting. He says that a writer should have the courage to show what most people are afraid to say. His work is considered groundbreaking in Brazilian literature, up until then mostly focused on rural settings and usually treating cities with a very biased point-of-view. Almost all Brazilian contemporary writers acknowledge Fonseca's importance, and quite a few authors from the newer generation, such as Patrícia Melo or Luis Ruffato, say that he's a huge influence.
He started his career with short stories, and they are usually considered to be the best part of his work. His first popular novel was "A Grande Arte" (High Art), but "Agosto" is usually considered to be his best work.
In 2003, he won the Camões Prize - considered to be the most important award in the Portuguese language - and the Juan Rulfo Prize - award for Latin American and the Caribbean literature.
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Community Reviews
Displaying 1 - 8 of 8 reviews
October 19, 2020
«Sempre preferi que as pessoas que conheço não leiam o que escrevo, principalmente após descobrir que sou uma irrecuperável vítima da síndrome de Zuckerman» (já agendei a leitura de «O escritor Fantasma» de Philip Roth)
«Diário de um Fescenino» é escrito por Rufus, - um provocativo acrónimo de Rubem Fonseca?-, um escritor com os livros vendendo mal e a grana sumindo, trabalhando num Bildungsroman, sua atribulada vida sentimental e sexual e, simultaneamente, a braços com um processo de estupro e homicídio.
Fiel ao seu estilo provocativo, zombateiro e descarado é contudo bastante diferente dos dois outros que li do Autor. E, ao lê-lo caminhei no sentido da cura da síndrome de Zuckerman da qual por vezes padeço.
Rubem Fonseca foi distinguido merecidamente com o Prémio Camões (2003), o mais importante prémio literário de língua portuguesa. Escreve admiravelmente, mas excede-se na descrição do acto sexual e no uso do vernáculo.
Livro recheado de referências e críticas literárias (a sua obra incluida) expostas de modo acessível e nada académico.
«Se a minha biografia está apenas nos meus livros, considerados, como disse um crítico, um reportório imundo de depravações, perversões, degradações, imoralidades repugnantes, serei muito mal interpretado. A biografia de um escritor pode estar nos livros, mas não conforme a visão simplista dos zuckermanianos. Fernando Pessoa disse: o que eu sou é terem vendido a casa. Isso é parte importante da biografia completa de Pessoa, terem vendido a casa. Ele era poeta, os poetas, esses grandes filósofos, falam verdade. Nós, ficcionistas, falamos verosimilhanças.
Escrevo sempre na primeira primeira pessoa, o que facilita a visão zuckermaniana que fazem de mim.»
«Diário de um Fescenino» é escrito por Rufus, - um provocativo acrónimo de Rubem Fonseca?-, um escritor com os livros vendendo mal e a grana sumindo, trabalhando num Bildungsroman, sua atribulada vida sentimental e sexual e, simultaneamente, a braços com um processo de estupro e homicídio.
Fiel ao seu estilo provocativo, zombateiro e descarado é contudo bastante diferente dos dois outros que li do Autor. E, ao lê-lo caminhei no sentido da cura da síndrome de Zuckerman da qual por vezes padeço.
Rubem Fonseca foi distinguido merecidamente com o Prémio Camões (2003), o mais importante prémio literário de língua portuguesa. Escreve admiravelmente, mas excede-se na descrição do acto sexual e no uso do vernáculo.
Livro recheado de referências e críticas literárias (a sua obra incluida) expostas de modo acessível e nada académico.
«Se a minha biografia está apenas nos meus livros, considerados, como disse um crítico, um reportório imundo de depravações, perversões, degradações, imoralidades repugnantes, serei muito mal interpretado. A biografia de um escritor pode estar nos livros, mas não conforme a visão simplista dos zuckermanianos. Fernando Pessoa disse: o que eu sou é terem vendido a casa. Isso é parte importante da biografia completa de Pessoa, terem vendido a casa. Ele era poeta, os poetas, esses grandes filósofos, falam verdade. Nós, ficcionistas, falamos verosimilhanças.
Escrevo sempre na primeira primeira pessoa, o que facilita a visão zuckermaniana que fazem de mim.»
October 1, 2014
O brasileiro Rubem Fonseca (1925) é o melhor escritor vivo de língua portuguesa e publicou “Diário de Um Fescenino” em 2003.
Uma dúvida: qual o significado de fescenino? Segundo a edição do dicionário on-line de português de um site brasileiro – obsceno, licencioso, lascivo, devasso.
Rufus é um escritor que decidiu “… neste primeiro dia do ano, escrever um diário. Não sei que razões me levaram a isso. Sempre me interessei pelos diários dos outros, mas nunca pensei em escrever um.”
É através do seu diário que começamos a acompanhar a vida de Rufus, um escritor de meia-idade (numa analogia entre Rufus e Rubem Fonseca - Rufus ou Rufo mais não é que as iniciais do escritor) que procura desesperadamente inspiração para o seu novo “bildungsroman” - (Em crítica literária, designa o tipo de romance em que é exposto, de forma pormenorizada, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de um personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.).
Numa encruzilhada emocional Rufus torna-se incapaz de manter uma relação apenas com uma única mulher; namora simultaneamente Henriette e Lucia (Lutchía, à italiana); termina com Henriette e conhece Clorinda; termina com Lucia e conhece Virna. E é nesta estranha relação amorosa com Virna e Clorinda que a narrativa se vai desenvolvendo, revelando-se original e imaginativa, com o aprofundamento das reflexões características de um escritor, vítima de uma crise existencial e de criatividade, incapaz de lidar com o seu insucesso (só o seu primeiro romance teve sucesso comercial e da critica literária) e com as suas desilusões.
As referências literárias, a obras e a autores, que Rufus vai fazendo ao longo do seu diário são brilhantes; com destaque para a inclusão de Nathan Zuckerman, o alter-ego de Philip Roth (iniciado no magnífico “Pastoral Americana) e para o “síndrome de Bulhão Pato” caricaturado por Eça de Queiroz em “Os Maias”.
E é num emaranhado de emoções que surge a inevitável subtrama policial em que Rufus se envolve, como mais uma personagem de um qualquer romance de Ruben Fonseca.
E tal como nós Rufus tem uma paixão desmesurada por livros: “Minha casa está cheia de livros... Não consigo passar na porta de uma livraria sem entrar e não consigo entrar numa livraria sem comprar pelo menos um livro. Mesmo quando não tinha onde cair morto, eu comprava livros. Essa atracção compulsiva acabou criando um problema para mim. Sei que não precisaria comprar e guardar tantos livros... Sempre que vejo os livros empilhados em casa digo para mim mesmo que preciso me livrar de metade deles… Na hora de separar o refugo começo a sofrer dúvidas atrozes. Este livro? Este não… Invento sempre uma razão para manter o livro comigo. No fim, acabo mandando fazer uma estante nova.”
“Diário de Um Fescenino” é uma narrativa brilhante, entre o erótico e o policial, com uma escrita versátil, revelando um sentido de humor excepcional, sobre quatro grandes temas: sexo e comida, literatura e morte.
Imperdível…
Uma dúvida: qual o significado de fescenino? Segundo a edição do dicionário on-line de português de um site brasileiro – obsceno, licencioso, lascivo, devasso.
Rufus é um escritor que decidiu “… neste primeiro dia do ano, escrever um diário. Não sei que razões me levaram a isso. Sempre me interessei pelos diários dos outros, mas nunca pensei em escrever um.”
É através do seu diário que começamos a acompanhar a vida de Rufus, um escritor de meia-idade (numa analogia entre Rufus e Rubem Fonseca - Rufus ou Rufo mais não é que as iniciais do escritor) que procura desesperadamente inspiração para o seu novo “bildungsroman” - (Em crítica literária, designa o tipo de romance em que é exposto, de forma pormenorizada, o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de um personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.).
Numa encruzilhada emocional Rufus torna-se incapaz de manter uma relação apenas com uma única mulher; namora simultaneamente Henriette e Lucia (Lutchía, à italiana); termina com Henriette e conhece Clorinda; termina com Lucia e conhece Virna. E é nesta estranha relação amorosa com Virna e Clorinda que a narrativa se vai desenvolvendo, revelando-se original e imaginativa, com o aprofundamento das reflexões características de um escritor, vítima de uma crise existencial e de criatividade, incapaz de lidar com o seu insucesso (só o seu primeiro romance teve sucesso comercial e da critica literária) e com as suas desilusões.
As referências literárias, a obras e a autores, que Rufus vai fazendo ao longo do seu diário são brilhantes; com destaque para a inclusão de Nathan Zuckerman, o alter-ego de Philip Roth (iniciado no magnífico “Pastoral Americana) e para o “síndrome de Bulhão Pato” caricaturado por Eça de Queiroz em “Os Maias”.
E é num emaranhado de emoções que surge a inevitável subtrama policial em que Rufus se envolve, como mais uma personagem de um qualquer romance de Ruben Fonseca.
E tal como nós Rufus tem uma paixão desmesurada por livros: “Minha casa está cheia de livros... Não consigo passar na porta de uma livraria sem entrar e não consigo entrar numa livraria sem comprar pelo menos um livro. Mesmo quando não tinha onde cair morto, eu comprava livros. Essa atracção compulsiva acabou criando um problema para mim. Sei que não precisaria comprar e guardar tantos livros... Sempre que vejo os livros empilhados em casa digo para mim mesmo que preciso me livrar de metade deles… Na hora de separar o refugo começo a sofrer dúvidas atrozes. Este livro? Este não… Invento sempre uma razão para manter o livro comigo. No fim, acabo mandando fazer uma estante nova.”
“Diário de Um Fescenino” é uma narrativa brilhante, entre o erótico e o policial, com uma escrita versátil, revelando um sentido de humor excepcional, sobre quatro grandes temas: sexo e comida, literatura e morte.
Imperdível…
January 23, 2022
Obra engraçada e ao mesmo tempo dá o que pensar sobre aspectos psicológicos e vivencias (escrivencias) do autor. Vale a pena ler!
June 3, 2022
Um romance contado por contos. Apesar da familiaridade com as técnicas e os temas do Fonseca, o anseio de ler uma página atrás da outra é inescapável.
April 12, 2013
Una voz implacable, voraz, que hace añicos instituciones sociales, religiosas, políticas: así es la prosa de Rubem Fonseca, uno de los escritores más amados y odiados de Brasil; tan es así que buena parte de su obra se mantuvo censurada y prohibida durante muchos años.
Marco Tulio Aguilera Garramuño, colombiano favorito de quien esto escribe –muy por encima de García Márquez– dice: “Si se puede calificar a algún escritor latinoamericano de duro, sería a Rubem Fonseca, cuyas novelas son de una crueldad, de una impiedad y una violencia sin par. (…) ¿Qué es lo que hace tan extraordinariamente atractivo lo que escribe Rubem Fonseca? (…) La naturalidad con que dice unas barbaridades bárbaras. (…) Fonseca escribe con una despreocupación grande. No le interesa pulir el estilo. Tal parece que lanza las palabras irresponsablemente sobre el papel. Ha tenido graves problemas con la censura brasileña. Durante muchos años afrontó un proceso por publicar pornografía. Finalmente lo ganó. (…) En Guadalajara dijo ante el público: ‘En mis cuentos hay muchos coitos y muchos muertos. Eso me gusta a mí y le gusta a los lectores’. Con todo y sus desplantes uno no puede menos que amar a Rubem Fonseca”. Y, ante una revelación así, no podía más que acercarme con impaciencia a su novela “Diario de un libertino”.
En esta novela Fonseca nos va develando, con anotaciones diarias, el cotidiano devenir de Rufus, un pseudo “alter ego” del propio escritor. Y ya se podrán imaginar lo gozoso/insurrecto/prosaico/malsonante de su prosa; pero es un deleite, créanme.
Marco Tulio Aguilera Garramuño, colombiano favorito de quien esto escribe –muy por encima de García Márquez– dice: “Si se puede calificar a algún escritor latinoamericano de duro, sería a Rubem Fonseca, cuyas novelas son de una crueldad, de una impiedad y una violencia sin par. (…) ¿Qué es lo que hace tan extraordinariamente atractivo lo que escribe Rubem Fonseca? (…) La naturalidad con que dice unas barbaridades bárbaras. (…) Fonseca escribe con una despreocupación grande. No le interesa pulir el estilo. Tal parece que lanza las palabras irresponsablemente sobre el papel. Ha tenido graves problemas con la censura brasileña. Durante muchos años afrontó un proceso por publicar pornografía. Finalmente lo ganó. (…) En Guadalajara dijo ante el público: ‘En mis cuentos hay muchos coitos y muchos muertos. Eso me gusta a mí y le gusta a los lectores’. Con todo y sus desplantes uno no puede menos que amar a Rubem Fonseca”. Y, ante una revelación así, no podía más que acercarme con impaciencia a su novela “Diario de un libertino”.
En esta novela Fonseca nos va develando, con anotaciones diarias, el cotidiano devenir de Rufus, un pseudo “alter ego” del propio escritor. Y ya se podrán imaginar lo gozoso/insurrecto/prosaico/malsonante de su prosa; pero es un deleite, créanme.
June 11, 2019
CASTOS REGISTROS DE UM LIBERTINO
A primeira, e a mais surpreendente, coisa a ser dita sobre Diário de um Fescenino é que se trata de uma das obras mais engraçadas já escrita pelo autor. O romance lançado originalmente para inaugurar uma série erótica da Companhia das Letras é um divertido pasticho que transita da ironia ao cinismo. A diferença é que aqui Rubem Fonseca não parodia o gênero policial, como já fez em outras obras. Ele parodia os romances de Rubem Fonseca.
Diário de um Fescenino conta a história de Rufus, escritor que teve sucesso com sua primeira obra e depois viu seu prestígio declinar. Ele inicia em um 1º de janeiro a redação de um diário no qual pretende treinar o registro de diálogos para escrever um Bildungsroman – a história da formação emocional e intelectual de um jovem.
Mas à medida que avança em seus registros, Rufus se perde em digressões sobre literatura recheadas de citações e no relato de seus envolvimentos amorosos. Ele começa a história com Henriette, inicia um caso simultâneo com uma atriz amiga dela, Lucia, troca-as por uma admiradora que lhe escreve um e-mail, Clorinda, e mais tarde dá início a um hesitante relacionamento sado-masoquista com a irmã desta, Virna. O romance que deveria escrever fica em
segundo plano.
Mesmo tendo sido lançado em uma coleção com proposta erótica, o romance traz mais alusões que sexo. Apesar do título (fesceninos eram os versos licenciosos das sátiras da antiga Roma), da atitude provocativa do narrador e da proposta da série, Diário de um Fescenino é um livro casto, se comparado a outras obras de Rubem Fonseca. O sexo é mencionado de passagem, e nos trechos mais fortes repete o que o próprio Fonseca já descreveu melhor anteriormente. As cenas entre Rufus e Virna não têm o impacto das situações semelhantes narradas em sua primeira novela, O Caso Morel (1973), ou em A Grande Arte (1983).
A linguagem artificial do narrador – que pretensamente escreve um diário mas inclui expressões como "mulher ebuliente", "seios rutilantes" e "linguajar soez" – também já foi vista em obras anteriores, de Bufo & Spallanzani (1986) a contos como os de O Homem de Fevereiro ou Março (1973). A narrativa picaresca muda para uma trama policial quando Virna descobre que Rufus mantinha também um caso com sua irmã. Para se vingar, ela o acusa de estupro, usando as marcas de suas relações violentas como prova – outro recurso clássico de Rubem Fonseca, já usado
em O Caso Morel.
A repetição cínica da própria obra é o grande incômodo, mas às vezes se torna a maior vantagem do livro. Revisando seus temas e seu próprio estilo, Fonseca sente-se livre para brincar, e é aí que Diário de um Fescenino ganha peso. Ele e seu personagem-narrador enumeram tiradas provocativas contra leitores, editores, escritores e críticos, numa bem engendrada reflexão metalinguística. Suas tiradas misantrópicas deslizam do clichê machista ao humor inteligente, nem sempre com o melhor dos resultados.
Diário de um Fescenino vale porque provoca. Mas não compra a briga, e por isso não se alinha com as melhores obras do autor.
A primeira, e a mais surpreendente, coisa a ser dita sobre Diário de um Fescenino é que se trata de uma das obras mais engraçadas já escrita pelo autor. O romance lançado originalmente para inaugurar uma série erótica da Companhia das Letras é um divertido pasticho que transita da ironia ao cinismo. A diferença é que aqui Rubem Fonseca não parodia o gênero policial, como já fez em outras obras. Ele parodia os romances de Rubem Fonseca.
Diário de um Fescenino conta a história de Rufus, escritor que teve sucesso com sua primeira obra e depois viu seu prestígio declinar. Ele inicia em um 1º de janeiro a redação de um diário no qual pretende treinar o registro de diálogos para escrever um Bildungsroman – a história da formação emocional e intelectual de um jovem.
Mas à medida que avança em seus registros, Rufus se perde em digressões sobre literatura recheadas de citações e no relato de seus envolvimentos amorosos. Ele começa a história com Henriette, inicia um caso simultâneo com uma atriz amiga dela, Lucia, troca-as por uma admiradora que lhe escreve um e-mail, Clorinda, e mais tarde dá início a um hesitante relacionamento sado-masoquista com a irmã desta, Virna. O romance que deveria escrever fica em
segundo plano.
Mesmo tendo sido lançado em uma coleção com proposta erótica, o romance traz mais alusões que sexo. Apesar do título (fesceninos eram os versos licenciosos das sátiras da antiga Roma), da atitude provocativa do narrador e da proposta da série, Diário de um Fescenino é um livro casto, se comparado a outras obras de Rubem Fonseca. O sexo é mencionado de passagem, e nos trechos mais fortes repete o que o próprio Fonseca já descreveu melhor anteriormente. As cenas entre Rufus e Virna não têm o impacto das situações semelhantes narradas em sua primeira novela, O Caso Morel (1973), ou em A Grande Arte (1983).
A linguagem artificial do narrador – que pretensamente escreve um diário mas inclui expressões como "mulher ebuliente", "seios rutilantes" e "linguajar soez" – também já foi vista em obras anteriores, de Bufo & Spallanzani (1986) a contos como os de O Homem de Fevereiro ou Março (1973). A narrativa picaresca muda para uma trama policial quando Virna descobre que Rufus mantinha também um caso com sua irmã. Para se vingar, ela o acusa de estupro, usando as marcas de suas relações violentas como prova – outro recurso clássico de Rubem Fonseca, já usado
em O Caso Morel.
A repetição cínica da própria obra é o grande incômodo, mas às vezes se torna a maior vantagem do livro. Revisando seus temas e seu próprio estilo, Fonseca sente-se livre para brincar, e é aí que Diário de um Fescenino ganha peso. Ele e seu personagem-narrador enumeram tiradas provocativas contra leitores, editores, escritores e críticos, numa bem engendrada reflexão metalinguística. Suas tiradas misantrópicas deslizam do clichê machista ao humor inteligente, nem sempre com o melhor dos resultados.
Diário de um Fescenino vale porque provoca. Mas não compra a briga, e por isso não se alinha com as melhores obras do autor.
November 12, 2022
Papá, Fonseca, escribe una novela corta, interesante desde las primeras páginas y estructurada a manera de un diario personal desarrolla una historia amorosa con ecos del neopolicial.
Al utilizar esta forma se permite hablar del proceso creativo así como de literatura y de mujeres, temas recurrentes en su obra.
Una novela ligera para pasar el rato.
"La única virtud del escritor es tener el valor de decir cosas que no debe decir."
Rubem Fonseca
Al utilizar esta forma se permite hablar del proceso creativo así como de literatura y de mujeres, temas recurrentes en su obra.
Una novela ligera para pasar el rato.
"La única virtud del escritor es tener el valor de decir cosas que no debe decir."
Rubem Fonseca
January 7, 2025
Me gusta como escribe, no de lo que escribe
Displaying 1 - 8 of 8 reviews








